A cerca de 200 quilômetros da costa do Rio de Janeiro, a norueguesa Equinor acaba de cravar no fundo do mar da Bacia de Campos uma peça a 2.700 metros de profundidade, a etapa mais funda já executada pela empresa em toda a sua história. É o coração de um projeto de gás que promete abastecer 15% da demanda brasileira.
O equipamento tem um nome técnico e discreto: PLEM, sigla em inglês para manifold de fim de duto. Na prática, é a conexão submarina que vai unir a futura plataforma ao gasoduto que levará o gás natural até a costa. A instalação, concluída no início de julho, marca um passo decisivo do projeto Raia, o antigo bloco BM-C-33 do pré-sal da Bacia de Campos, e coloca o Brasil no centro de uma das operações offshore mais ambiciosas da década.
Um feito de engenharia em águas ultraprofundas
Para entender o tamanho do desafio, vale olhar os números. O campo fica sob uma lâmina d’água que chega a 2.900 metros, e o reservatório está ainda mais fundo, a cerca de três mil metros abaixo do leito do mar, numa rocha carbonática cheia de cavidades e fraturas que dificulta a produção. “Raia é o maior projeto em execução da Equinor e marca a operação em maior profundidade do nosso portfólio”, resumiu Geir Tungesvik, vice-presidente executivo de projetos da companhia.

Todo o sistema submarino está sendo montado pela TechnipFMC, num contrato que passou de US$ 1 bilhão, e envolve árvores de produção, manifolds, dutos flexíveis e umbilicais. A perfuração dos poços começou em março deste ano, com o navio-sonda Valaris DS-17, e prevê seis poços no total. Confesso que me impressiona pensar que tudo isso está sendo instalado no escuro absoluto, sob a pressão brutal de quase três quilômetros de água acima.
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Quem está por trás do projeto
Raia não é uma aposta solitária. A Equinor é a operadora, com 35% de participação, dividindo o consórcio com a Repsol Sinopec, também com 35%, e a Petrobras, com 30%. O investimento total do projeto é estimado em cerca de US$ 9 bilhões, e as reservas recuperáveis passam de 1 bilhão de barris de óleo equivalente, distribuídas nas descobertas batizadas de Pão de Açúcar, Gávea e Seat.

O casco da plataforma, uma unidade flutuante do tipo FPSO, está sendo construído pelo estaleiro Seatrium em Angra dos Reis, no litoral do Rio, e será operado pela MODEC no primeiro ano. A unidade poderá armazenar até 2 milhões de barris de óleo e processar cerca de 126 mil barris por dia. A entrega está prevista para 2027, com o início da produção marcado para 2028. Chama atenção também que a cadeia de aço do gasoduto tem cerca de 99% de fornecimento nacional, o que espalha o investimento pela indústria brasileira e gera encomendas para fornecedores em vários estados.
A instalação do manifold é apenas o elo mais recente de uma corrente longa. Antes dele, em 2025, a Equinor já havia assentado o trecho do gasoduto em águas rasas, mais perto da costa. Agora, com a peça encaixada nas profundezas, entra a fase de conectar os poços, os dutos e a plataforma num sistema único. Cada uma dessas etapas acontece a milhares de metros de profundidade, com robôs submarinos operando onde nenhum mergulhador jamais chegaria. É uma obra que se monta às cegas, guiada por sonares e câmeras, peça por peça, até formar o quebra-cabeça que vai bombear gás em 2028.
O gás que vai direto para a malha nacional
O grande diferencial do projeto, porém, está no gás. A plataforma terá capacidade de produzir 16 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia, e esse volume seguirá por um gasoduto de cerca de 200 quilômetros até a Unidade de Tratamento de Gás de Cabiúnas, em Macaé. Será o primeiro projeto no Brasil a levar o gás offshore direto para a malha nacional de transporte, sem precisar de uma planta de processamento adicional em terra.
O impacto potencial é considerável: quando estiver a pleno vapor, o Raia poderá atender cerca de 15% de toda a demanda brasileira de gás natural. Num país que ainda importa gás e sofre com preços altos para a indústria, colocar essa oferta nova no sistema pode mexer com um dos gargalos mais antigos da nossa matriz energética.

O projeto ainda foi desenhado com meta de baixa intensidade de carbono, menos de 6 quilos de CO2 por barril produzido, bem abaixo da média do setor, e deve gerar até 50 mil empregos diretos e indiretos ao longo de um ciclo de vida estimado em 30 anos. A decisão final de investimento foi tomada em 2023, e desde então cada etapa vem sendo cumprida com um cronograma raro de se ver em projetos dessa escala.
Fico imaginando o quanto essa engenharia invisível, lá no fundo do mar, vai pesar na conta de energia que chega até a indústria brasileira nos próximos anos. Se o gás do Raia entrar como planejado em 2028, será um dos maiores reforços de oferta que o país verá nesta década. E, num setor em que atrasos são quase a regra, cumprir o cronograma à risca já seria, por si só, uma conquista e tanto para todos os envolvidos.
O gás do projeto Raia será suficiente para aliviar o preço que a indústria brasileira paga hoje?
