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É oficial: a Petrobras assume 75% do bloco 3 em São Tomé e Príncipe e estreia como operadora offshore fora da América do Sul

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Escrito por Paulo Nogueira Publicado em 10/07/2026 às 11:47 Atualizado em 10/07/2026 às 11:49
É oficial: a Petrobras assume 75% do bloco 3 em São Tomé e Príncipe e estreia como operadora offshore fora da América do
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A Petrobras oficializou nesta quinta-feira, 9 de julho, a conclusão da compra do bloco exploratório 3, na costa de São Tomé e Príncipe, e assume pela primeira vez em anos o papel de operadora de um projeto de águas profundas fora da América do Sul, num movimento que sela três meses de negociação com a Oranto e recoloca a África na estratégia da estatal.

O acordo divulgado pela Agência Petrobras não é bem uma surpresa. A companhia já havia comunicado, em 17 de abril, a compra dos 75% da Oranto Petroleum sobre o bloco 3, mas todo esse período serviu pra amarrar a papelada regulatória em São Tomé e Príncipe, obter os avais das autoridades locais e ajustar o desenho do consórcio. Agora que a assinatura final aconteceu, a Petrobras se instala oficialmente como operadora da área, com a Oranto ficando com 15% e a Agência Nacional do Petróleo de São Tomé e Príncipe segurando os 10% restantes.

Confesso que o timing chama atenção. A estatal fala abertamente em recomposição de reservas por meio da exploração de novas fronteiras, e o bloco 3 entra bem no meio dessa conta. É a segunda operação da Petrobras no golfo da Guiné em menos de dois anos, antes dele, veio a entrada na Costa do Marfim como sócia, e é a primeira dessa leva em que a companhia assume o comando das decisões técnicas do projeto.

Plataforma de perfuração em águas profundas
A Petrobras entra em São Tomé e Príncipe já como operadora, com 75% do bloco 3 e responsabilidade pelas decisões técnicas da campanha exploratória. Foto: divulgação.

O bloco 3 e o convite que a África continua fazendo

O golfo da Guiné voltou a ficar quente no radar das grandes petroleiras nos últimos cinco anos, e não é difícil entender por quê. As bacias da Namíbia, do Suriname e da própria costa oeste africana têm produzido descobertas do tamanho de campo brasileiro, com reservatórios de alta qualidade em lâminas d’água que a Petrobras conhece como poucas do mundo. É o mesmo playbook do pré-sal, só que em outro oceano.

São Tomé e Príncipe, especificamente, virou a fronteira mais barulhenta desse mapa. A geologia sugere que a costa do país arquipélago pode abrigar sistemas petrolíferos parecidos com os que a Galp está explorando na vizinha Namíbia, a mesma que virou capa de relatório por causa dos poços gigantes descobertos ali em 2022. O bloco 3 fica na parte offshore do país, em profundidades que a estatal brasileira sabe endereçar com equipamento próprio e décadas de experiência.

O que muda quando a Petrobras vira operadora

Ser sócia minoritária de um bloco é uma coisa. Ser operadora é completamente diferente. A operadora é quem contrata sonda, define o plano exploratório, assina os relatórios técnicos com a agência reguladora local, responde pelas emissões e conduz o eventual desenvolvimento. Na prática, é ela que carrega o peso da campanha e, se der bom, é ela que carrega também a fama.

Sonda de perfuração ao pôr do sol
O consórcio ficou desenhado assim: Petrobras 75% e operadora, Oranto 15% e Agência Nacional do Petróleo de São Tomé e Príncipe com 10% restantes. Foto: divulgação.

A Petrobras vinha, nos últimos anos, evitando assumir esse papel fora da bacia doméstica. A companhia tinha operações no exterior, sim, mas quase sempre como sócia técnica ou minoritária. A entrada em São Tomé sinaliza que a diretoria voltou a topar a exposição, provavelmente porque acredita que o retorno geológico compensa o risco político e regulatório de operar num país pequeno, com aparato de fiscalização ainda em construção.

A conta que a estatal fez pra tomar esse risco

Ninguém entra num bloco offshore africano por acaso. A engrenagem interna da Petrobras vem apresentando, há pelo menos dois planos estratégicos, a mesma tese: as reservas do pré-sal brasileiro têm um platô claro pela frente, e sem novas fronteiras exploratórias a companhia começa a perder produção lá no fim da década. O bloco 3 é uma das apostas pra segurar essa curva.

A tese ganha ainda mais tempero quando você olha o custo do fracasso. Um poço em águas profundas africanas pode passar dos 100 milhões de dólares, e a probabilidade de um resultado seco existe. Mas quando dá certo, o volume descoberto costuma justificar toda a rodada de furos. A Namíbia acabou de mostrar isso pro mundo inteiro, e a Petrobras não quer ficar de fora da próxima onda.

Plataforma offshore com bandeira brasileira
Ao lado do bloco 3, a companhia já tem entrada na Costa do Marfim e mira também outras áreas do golfo da Guiné, na tentativa de reproduzir a lógica do pré-sal em outro oceano. Foto: divulgação.

O que vem pela frente e o calendário que ninguém falou

O comunicado oficial não abriu os prazos técnicos da campanha exploratória, mas o padrão do setor sugere que a Petrobras deve gastar os próximos meses fazendo estudos de subsuperfície, reprocessamento de sísmica antiga, aquisição de dados novos, análise de bacias vizinhas, antes de decidir onde perfurar o primeiro poço.

A gente vai saber que o projeto está andando quando aparecer o pedido de contrato de sonda, o que costuma acontecer entre 12 e 24 meses depois desse tipo de assinatura. Enquanto isso, a Agência Nacional do Petróleo de São Tomé e Príncipe fica com 10% do consórcio como forma de garantir participação do país no eventual retorno, um desenho que virou padrão em contratos africanos e ajuda a segurar a estabilidade política do acordo.

Fico imaginando o momento em que a primeira sonda contratada pela Petrobras aparecer no horizonte de São Tomé. Vai ser um sinal de que a companhia voltou de vez ao jogo internacional exploratório, e um teste de fogo pra saber se a estatal ainda tem, fora da bacia de Campos, o mesmo tato que a tornou referência mundial no pré-sal.

Você acha que a Petrobras vai encontrar em São Tomé um novo pré-sal ou está queimando dinheiro em fronteira nova?

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Paulo Nogueira

Técnico em Elétrica desde 2008, formado pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), antigo CEFET, uma das mais tradicionais instituições de ensino técnico do Brasil. Atuou por diversos anos nas áreas de petróleo e gás offshore, energia e construção, experiência que hoje aplica na produção de conteúdo especializado sobre o setor energético. Com mais de 8 mil publicações em revistas e portais online, dedica-se à cobertura do mercado de trabalho, petróleo e gás, energia, economia, renováveis e empreendedorismo. Para dúvidas, sugestões ou correções, entre em contato pelo e-mail paulohsnogueira@gmail.com. Este canal não recebe currículos.

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