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O Estaleiro Rio Grande recebe 11 mil toneladas de aço da Indonésia e volta a soldar os primeiros Handymax da Transpetro depois de anos parado

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Escrito por Paulo Nogueira Publicado em 10/07/2026 às 13:04 Atualizado em 10/07/2026 às 13:06
O Estaleiro Rio Grande recebe 11 mil toneladas de aço da Indonésia e volta a soldar os primeiros Handymax da Transpetro
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O Estaleiro Rio Grande recebeu na quinta-feira, 9 de julho, cerca de 11 mil toneladas de chapas de aço vindas da Indonésia pra construção de quatro navios Handymax encomendados pela Transpetro dentro do Programa Mar Aberto, um marco silencioso da retomada do maior polo naval do Sul do país, parado por quase uma década.

O material desembarcou no porto de Rio Grande e vai começar a ser processado imediatamente. As chapas foram compradas na Indonésia e representam a matéria-prima principal dos quatro primeiros petroleiros do lote de 13 embarcações que a Ecovix, controladora do estaleiro, precisa entregar à Transpetro. Um contrato assinado em 2024 no valor total de US$ 427 milhões, que segurou a esperança de um polo industrial que estava quase parado.

Os Handymax da Transpetro vão ter entre 15 mil e 18 mil toneladas de porte bruto cada um, uma faixa que serve muito bem à cabotagem brasileira, aquele transporte de derivados de petróleo entre portos do próprio país, que hoje ainda depende demais de bandeira estrangeira. Confesso que essa retomada, se for pra funcionar de verdade, precisava começar exatamente assim: chapa de aço chegando, mão de obra sendo contratada e cronograma andando.

Chapas de aço processadas em estaleiro
As 11 mil toneladas vindas da Indonésia servem pra fabricar o casco dos quatro Handymax que a Transpetro encomendou. Foto: divulgação.

O programa Mar Aberto e o que ele quer fazer

O Programa Mar Aberto foi anunciado pela Petrobras em 2024 como o plano de renovação e ampliação da frota própria do sistema, depois de anos em que a Transpetro operou com navios envelhecidos e viu boa parte do transporte de derivados migrar pra armadores estrangeiros. A ideia é encomendar dezenas de embarcações em estaleiros brasileiros, gerando emprego e retomando o conteúdo local que os leilões e contratos naval-offshore exigem.

Dentro dessa lógica, o Estaleiro Rio Grande, construído pelo governo Lula na era da alta do petróleo, esvaziado depois da Lava Jato e retomado agora, voltou a ter função clara. Os quatro Handymax da Ecovix são só a primeira fatia do bolo. A carteira completa do estaleiro chega a 13 embarcações, e o cronograma prevê que as próximas chapas de aço cheguem em levas ao longo do segundo semestre.

Emprego é o nome do jogo

Hoje, o Rio Grande tem cerca de 500 profissionais mobilizados nas atividades do casco e da estrutura. O número não é gigante, mas é o primeiro degrau, a projeção da própria empresa é chegar perto de 1.600 trabalhadores no pico de operação, quando as três linhas de montagem estiverem funcionando em paralelo. Pra uma cidade que viveu a euforia do polo naval na década de 2010 e amargou o abandono depois, é um alento cheio de significado.

Seção de casco de navio em estaleiro
A carteira contratada supera as 13 embarcações e a projeção é chegar a 1.600 trabalhadores no pico. Foto: divulgação.

Mais da metade dos equipamentos necessários pros Handymax já foi comprada e vai chegar ao Rio Grande no ritmo do cronograma da Transpetro. Motor, sistemas de controle, tanques, tubulação: o pacote de equipamentos ocupa uma cadeia de fornecedores nacionais e internacionais, e a lógica do programa é que a maior parte desse conteúdo tenha origem brasileira sempre que a competitividade permitir.

Por que aço da Indonésia e não do Brasil

A escolha da procedência das chapas é um ponto sensível. O polo siderúrgico brasileiro tem capacidade de fabricar chapas grossas navais, mas o preço, o prazo e a logística de embarque de 11 mil toneladas nem sempre fecham. A Ecovix negociou com fornecedores asiáticos e trouxe o material da Indonésia, que ofereceu o melhor pacote de preço, qualidade certificada e cronograma de entrega no porto de Rio Grande. É esse tipo de composição que a matemática de estaleiro exige quando o contrato foi assinado em real e a variação cambial pode comer margem em qualquer semana.

É o tipo de decisão que sempre gera desconforto quando o assunto é conteúdo local. Do outro lado, executivos do setor lembram que os motores, a mão de obra, os serviços de projeto e boa parte dos equipamentos ficam no Brasil, o que atende às exigências do programa. A discussão sobre o quanto de aço navio deveria vir de siderurgia brasileira, no entanto, segue viva nos bastidores da indústria, e a expectativa é que os próximos lotes de chapas contratados pela Ecovix e por outros estaleiros da carteira Mar Aberto possam começar a incorporar mais oferta nacional na medida em que o cronograma se acomodar.

O que a Transpetro precisa da nova frota

Enquanto o corte de aço começa em Rio Grande, a Transpetro segue operando com uma frota envelhecida que já dá sinais de esgotamento em algumas rotas. A companhia é subsidiária integral da Petrobras e responde pela maior operação logística de derivados do Brasil, cabotagem entre refinarias, terminais de escoamento offshore e distribuição pelos portos maiores do país. Cada Handymax que entra em operação libera unidades antigas para desmobilização e melhora a eficiência do sistema como um todo.

Os quatro navios contratados junto à Ecovix são só a primeira fatia de um plano maior que a estatal vem construindo. O Programa Mar Aberto prevê, ao longo dos próximos anos, cerca de trinta embarcações novas pra frota Transpetro, entre Handymax, MR2, VLGC e navios especializados. É a maior encomenda naval em nome da estatal em mais de uma década, e coloca de volta na cadeia produtiva brasileira uma corrente de fornecedores que estava rareando desde o esvaziamento pós-Lava Jato.

O que vem a partir de agora

A partir dessa semana, a rotina do estaleiro muda: as chapas passam por corte automatizado, viram subconjuntos estruturais e vão sendo montadas nos berços do casco. Quando um Handymax dessa faixa é construído, o cronograma padrão fala em algo em torno de 24 a 36 meses entre o corte de aço e a entrega, o que joga a primeira embarcação da Transpetro pra janela de 2028 ou 2029, dependendo de quanto o polo consegue acelerar.

Solda em casco de navio no estaleiro
O ciclo de construção padrão de um Handymax leva de 24 a 36 meses entre corte de aço e entrega. Foto: divulgação.

Fico imaginando o dia em que essas embarcações forem entregues. Um Handymax novo, saindo do Rio Grande com bandeira brasileira, atracando em Suape ou Ilhéus pra carregar diesel produzido em refinaria nacional. É o tipo de imagem que a cabotagem brasileira perdeu ao longo dos últimos anos e que, se a retomada industrial não travar, pode voltar a ser corriqueira. A gente ainda vai ver muita conversa sobre atrasos e mudanças de cronograma, é natural que aconteça, mas o corte de aço já começou.

Vale a pena bancar a retomada do Estaleiro Rio Grande com contratos da Transpetro ou o Brasil deveria continuar afretando navios estrangeiros?

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Paulo Nogueira

Técnico em Elétrica desde 2008, formado pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), antigo CEFET, uma das mais tradicionais instituições de ensino técnico do Brasil. Atuou por diversos anos nas áreas de petróleo e gás offshore, energia e construção, experiência que hoje aplica na produção de conteúdo especializado sobre o setor energético. Com mais de 8 mil publicações em revistas e portais online, dedica-se à cobertura do mercado de trabalho, petróleo e gás, energia, economia, renováveis e empreendedorismo. Para dúvidas, sugestões ou correções, entre em contato pelo e-mail paulohsnogueira@gmail.com. Este canal não recebe currículos.

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