O Estreito de Ormuz voltou a ferver nesta semana e o mercado de petróleo reagiu na hora: o Brent saltou cerca de 4% nesta segunda-feira e voltou a rondar os US$ 79 por barril. Para o Brasil, o efeito não é imediato, mas mora justamente onde dói mais, no preço do diesel.
Existe um trecho de mar com pouco mais de 33 quilômetros de largura no ponto mais apertado que, sozinho, decide boa parte do humor do mercado global de energia. É o Estreito de Ormuz, o funil entre o Golfo Pérsico e o oceano aberto por onde passaram, em 2024, cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia, algo em torno de um quinto de todo o petróleo consumido no planeta. Quando esse corredor trava, o preço do barril dispara em questão de horas. E foi exatamente o que aconteceu.
Por que um corredor tão estreito manda no preço mundial
A geografia explica quase tudo. O canal de navegação em cada sentido tem só alguns quilômetros de espaço útil, e por ali escoam as exportações da Arábia Saudita, dos Emirados, do Iraque, do Kuwait e o gás natural do Catar. Segundo a Agência de Informação de Energia dos Estados Unidos, a Ásia é o destino de 84% desse petróleo, com China, Índia, Japão e Coreia do Sul na frente da fila. Ou seja, não se trata de um problema regional distante: é uma artéria da economia mundial pulsando dentro de um espaço muito apertado.

Nesta semana, a tensão escalou de novo. Entre os dias 6 e 12 de julho, navios foram atingidos no estreito, a Marinha da Guarda Revolucionária iraniana chegou a declarar o corredor “fechado” e os Estados Unidos responderam com ataques a posições militares no Irã. O resultado no painel das cotações foi imediato: o Brent, que havia fechado a US$ 72,95 no fim de junho, voltou a operar perto dos US$ 79 nesta segunda, chegando a tocar patamares ainda mais altos ao longo do dia. Confesso que acompanhar esse vaivém dá a sensação de assistir a um termômetro global preso a um fio muito fino.
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Vale lembrar o tamanho da montanha-russa. No fim de março, no auge do conflito, o barril chegou a bater perto de US$ 120. Depois recuou com a trégua de junho, até os tais US$ 72,95, e agora volta a subir com a reabertura da crise. É uma oscilação de mais de 60% em poucos meses, tudo puxado pela mesma faixa de mar no Golfo Pérsico.
A ironia do corte que a Petrobras acabou de dar
O timing é o que torna a história curiosa. Há menos de duas semanas, no dia 30 de junho, a Petrobras anunciou um corte de R$ 0,3515 por litro no diesel vendido às distribuidoras e reduziu em 14,5% o preço do querosene de aviação, o segundo mês seguido de queda nesse combustível. A justificativa oficial foi a “atenuação” dos efeitos do conflito no Oriente Médio, que naquele momento davam trégua.
Vale um parêntese honesto: aquele corte de diesel foi, na prática, neutralizado pelo fim de um desconto federal de valor parecido que vigorava até 1º de julho. Na ponta, o motorista quase não sentiu diferença na bomba. Ainda assim, a lógica era clara: a empresa cortava porque o barril tinha recuado. Agora, com Ormuz reacendendo e o Brent voltando para cima, essa mesma lógica ameaça andar na direção contrária.

Onde isso chega no bolso do brasileiro
Aqui está o ponto que interessa a quem abastece no país. O Brasil importa entre 25% e 30% do diesel que consome, comprado a preço internacional. Quando o Brent sobe, o custo desse abastecimento sobe junto. E o diesel não é um combustível qualquer: é o que move os caminhões responsáveis por cerca de dois terços de toda a carga transportada no país. Encarece o diesel, e a conta escorre para o frete, para o preço dos alimentos e para o custo de colher e escoar a safra.
O querosene de aviação conta uma história parecida. Mesmo depois do corte de julho, ele ainda acumula alta de mais de 40% no ano, o que segue pressionando o custo das passagens aéreas. São dois combustíveis estratégicos que dependem diretamente do que acontece do outro lado do mundo.

O tamanho do susto depende do que vier a seguir. O Irã chegou a sinalizar que poderia cobrar uma taxa de passagem pelo estreito, e os disparos contra alvos vizinhos no Golfo mantêm o mercado em alerta. Enquanto durar a incerteza, cada manchete vinda de Ormuz tende a mexer no ponteiro do barril. O Brasil observa de longe, mas nunca de fora.
Desde 2023, a Petrobras abandonou o antigo Preço de Paridade de Importação e adotou uma estratégia comercial que suaviza os solavancos do mercado externo, sem repassar cada oscilação na hora. É isso que segura a bomba no curto prazo, e também o que cria a defasagem quando o barril dispara lá fora e o preço interno demora a acompanhar. Fico imaginando por quanto tempo essa represa aguenta, se a crise em Ormuz se arrastar pelas próximas semanas.
É importante deixar claro: até agora, não houve nenhum reajuste novo na bomba por causa dessa escalada. O que existe é pressão acumulada, um risco que se desenha, não um repasse consumado. O Brasil sente Ormuz com atraso, não em tempo real, e talvez seja essa exatamente a única boa notícia da semana para quem depende do tanque cheio.
Até quando a política de preços vai conseguir segurar o diesel se o barril não parar de subir?
