A maior petroleira do país estaria estudando um caminho inesperado para cortar emissões: instalar um pequeno reator nuclear de até 300 MW dentro de uma refinaria no Rio de Janeiro. A informação é de reportagem exclusiva e, por enquanto, permanece no terreno do estudo, sem confirmação oficial da Petrobras.
Convém começar pelo que ainda não se sabe. Segundo reportagem exclusiva da CNN Brasil publicada no início de julho, a Petrobras avalia entrar na geração de energia nuclear com um Pequeno Reator Modular, o chamado SMR, de cerca de 300 MW de capacidade. A ideia, numa primeira fase, seria implantar a unidade em uma refinaria fluminense para descarbonizar o consumo de eletricidade das operações. A empresa, procurada, não se manifestou, então trata-se de um plano em estudo, não de uma decisão tomada.
O que é, afinal, um reator modular
Vale explicar o conceito, porque ele é a chave da história. Um SMR é um reator nuclear de até 300 MW, cerca de um terço da potência de uma usina tradicional como Angra 2. A diferença não está só no tamanho: seus componentes são pré-fabricados em série na fábrica e depois transportados e montados no local, o que promete reduzir custo e prazo em relação às gigantescas obras nucleares feitas uma a uma.

Por ocuparem bem menos espaço e apostarem em sistemas de segurança passivos, esses reatores poderiam, em tese, ser instalados ao lado de um complexo industrial, algo impensável para uma usina de grande porte. A recarga de combustível também é mais espaçada, feita a cada três a sete anos, contra um a dois anos das usinas convencionais. No horizonte mais distante, a reportagem menciona até o uso da tecnologia em plataformas e navios de produção no mar, embora isso seja uma hipótese ainda mais embrionária.
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Por que a Petrobras olharia para o átomo
A lógica por trás do estudo é a descarbonização. Refinarias e plataformas consomem volumes gigantescos de eletricidade, hoje gerada em boa parte pela queima de combustíveis fósseis. Trocar parte dessa geração por energia nuclear, que praticamente não emite carbono na operação, ajudaria a estatal a cumprir suas metas ambientais sem depender do clima, como acontece com as fontes solar e eólica.
Confesso que a imagem de um reator nuclear dentro de uma refinaria soa ousada, quase de ficção. Mas ela se encaixa num movimento maior do país. O Ministério de Minas e Energia já mantém um grupo de trabalho dedicado a formular uma política nacional para esses reatores e, em julho, iniciou a fase de mapear o território brasileiro em busca de locais viáveis, considerando fatores como risco sísmico e disponibilidade de água para refrigeração.

O Brasil que já mexe com nuclear
O país não parte exatamente do zero. Além das usinas de Angra 1 e Angra 2, em operação há décadas, e da eterna obra de Angra 3, o Brasil desenvolve há anos o reator do submarino nuclear da Marinha, no laboratório de Iperó, em São Paulo. O governo pretende usar essa tecnologia nacional como base para um futuro reator modular civil em terra. Em paralelo, um grupo de trabalho foi criado em julho para avaliar o papel do urânio brasileiro, já que o país está entre os que têm as maiores reservas conhecidas do mundo.
Aqui é preciso um cuidado que faço questão de registrar: são três coisas diferentes que não devem ser confundidas. O SMR de 300 MW estudado pela Petrobras, o microrreator experimental de 3 MW em desenvolvimento por institutos de pesquisa e o reator naval da Marinha são projetos de escalas e propósitos distintos, cada um no seu estágio.
Esse esforço todo acontece enquanto o país ainda não resolveu uma pendência antiga. A usina de Angra 3, iniciada há décadas, segue inacabada, com pouco mais de dois terços da obra concluída. Parada, ela custa cerca de R$ 1 bilhão por ano aos cofres públicos. É um lembrete de que, no Brasil, projeto nuclear costuma ser mais fácil de anunciar do que de terminar. Talvez seja justamente por isso que a aposta em reatores menores e modulares, montados como peças de fábrica, soe tão atraente: promete escapar da armadilha das grandes obras que nunca chegam ao fim.
Os obstáculos e a corrida global
O maior gargalo é regulatório. O Brasil ainda não tem um marco específico para licenciar esse tipo de reator, e é justamente por isso que a Petrobras já estaria conversando com a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear, a ANSN, criada em 2021 e que afirma estar se preparando para licenciar essa nova tecnologia. Sem esse arcabouço, nenhum reator sai do papel, por mais avançado que seja o estudo.
No mundo, a disputa está adiantada. A China concluiu testes do Linglong One, de 125 MW, mirando ser o primeiro reator modular comercial em terra do planeta, enquanto a Rússia já opera um reator flutuante. Nos Estados Unidos, o projeto de referência da NuScale chegou a ser certificado, mas o empreendimento-carro-chefe acabou cancelado após os custos dispararem. A Agência Internacional de Energia Atômica cataloga mais de 80 projetos de reatores modulares em desenvolvimento pelo mundo.
O Brasil, se decidir avançar, entraria nessa corrida partindo de trás. Fico imaginando se, daqui a uma década, a palavra “refinaria” ainda vai significar só petróleo, ou se ela vai passar a conviver, no mesmo terreno, com o átomo. Por enquanto, porém, tudo não passa de um estudo, e o caminho entre a ideia e o primeiro reator ligado costuma ser bem mais longo do que o anúncio faz parecer.
Você confiaria num reator nuclear instalado dentro de uma refinaria brasileira para gerar energia limpa?
