O que começou como um refúgio durante o isolamento de 2020 levou Diogo Castro a recuperar um cafezal abandonado em Jaçanã, investir em novas variedades e transformar uma antiga produção familiar em café de maior valor agregado
Quando chegou à propriedade rural da família durante a pandemia de Covid-19, Diogo Castro encontrou cerca de 2 mil cafeeiros ainda vivos. As plantas eram o que restava de um lote de aproximadamente 10 mil mudas levado para a região serrana de Jaçanã, no interior do Rio Grande do Norte, por seu avô na década de 1980.
O cafezal havia perdido espaço depois da interrupção das atividades mantidas pela família, que chegou a produzir o antigo Café Rio Grande. A permanência das plantas por várias décadas, porém, mostrou que o cultivo poderia ser retomado, desde que recebesse manejo, água e acompanhamento técnico.
Em 2021, Diogo colocou na propriedade mais de 8 mil novos pés de café, com mudas trazidas da Bahia. A colheita de 2024 chegou a 40 sacas de 60 quilos, volume equivalente a 2,4 toneladas, enquanto o produtor avançava na implantação de irrigação, torrefação própria e venda de produtos com maior valor agregado.
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Segundo reportagem publicada pela Agência Sebrae de Notícias, o cultivo também passou a ser feito em associação com cajueiros, usados para gerar sombra sobre parte das plantas. A estratégia ajuda a reduzir a exposição direta ao sol, mas não elimina o principal obstáculo da lavoura no semiárido, que é a disponibilidade irregular de água.
Os cafeeiros sobreviventes trouxeram de volta um negócio iniciado pelo avô

A relação da família com o café começou antes do plantio que Diogo encontrou. Seu avô, Firmino Gomes de Castro, já trabalhava com grãos e torrefação em meados do século passado e adquiriu a propriedade de Jaçanã em 1978. Nos anos seguintes, o sítio recebeu milhares de mudas, parte delas mantida no campo mesmo após o enfraquecimento do negócio.
O retorno ocorreu em 2020. Diogo, que trabalhava no setor de turismo, passou o período de isolamento social no Sítio Rio Grande e decidiu aproveitar as plantas antigas como ponto de partida para uma nova produção. O projeto deixou de mirar apenas o café industrial e passou a buscar qualidade, origem identificada e controle sobre o processamento.
Uma apuração publicada pelo portal Saiba Mais em março de 2025 detalhou que a propriedade tem cerca de 15 hectares, dos quais aproximadamente 5,5 hectares estavam ocupados pelo cultivo. O levantamento registrou 9 mil mudas plantadas em 2021, outras 4 mil replantadas posteriormente e cerca de 19 mil plantas no campo, considerando os diferentes plantios e as perdas ocorridas durante a expansão.
A altitude ajuda o café, mas a falta de água limita a expansão

O Sítio Rio Grande fica em uma região serrana situada a aproximadamente 700 metros de altitude. Essa condição separa a propriedade das áreas mais quentes e baixas do sertão potiguar, onde o cultivo de café arábica encontraria dificuldades ainda maiores.
A Embrapa informa que o café arábica costuma apresentar melhor adaptação em áreas com temperaturas médias anuais entre 18 °C e 22 °C, geralmente localizadas acima dos 500 metros. Temperatura, relevo, disponibilidade hídrica e características do solo interferem no desenvolvimento das plantas, na produtividade e na qualidade final da bebida.
A altitude, entretanto, não fornece água. O cafeeiro precisa de umidade principalmente nos períodos de crescimento, florada e formação dos frutos. Uma estiagem prolongada pode provocar queda de flores, reduzir o tamanho dos grãos e comprometer a safra seguinte.
Por isso, Diogo passou a investir em sistema de irrigação e em práticas capazes de reduzir o estresse térmico. O plantio junto aos cajueiros cria áreas sombreadas, diminui a incidência direta do sol sobre os cafeeiros e permite aproveitar uma cultura já conhecida pelos agricultores da região.
A colheita manual separa os grãos maduros dos frutos verdes
A mudança para o mercado de cafés especiais exigiu alterações que vão além da variedade plantada. Em vez de retirar todos os frutos de uma vez, o produtor realiza uma colheita seletiva e procura recolher as chamadas cerejas, estágio em que o fruto está maduro.
Esse cuidado reduz a mistura de grãos verdes, secos ou deteriorados no mesmo lote. Depois da retirada, a secagem precisa ser conduzida de maneira controlada para evitar fermentações indesejadas, excesso de calor e defeitos que aparecem posteriormente na xícara.
Na certificação de qualidade da Associação Brasileira de Cafés Especiais, cada lote passa por avaliação sensorial e precisa alcançar pelo menos 80 pontos. O processo também considera rastreabilidade, conformidade técnica e práticas socioambientais, fatores que ajudam o produtor a diferenciar o produto e acessar compradores dispostos a pagar pela origem e pela qualidade comprovada.
A família agora tenta controlar o caminho do grão até a xícara
A produção de café cru oferece menos controle sobre o preço recebido pelo agricultor. Ao investir em torrefação, embalagem e venda direta, a família passa a atuar em etapas nas quais se concentram parcelas maiores do valor pago pelo consumidor.
Esse modelo também permite ajustar a torra às características dos lotes colhidos no sítio. Um café com maior doçura ou acidez, por exemplo, pode perder essas características quando recebe torra excessivamente escura, prática comum em produtos destinados ao mercado tradicional.
A criação da marca Café Jaçanã liga o produto ao município e facilita a comunicação sobre procedência. Na propriedade são cultivadas variedades de café arábica como Catuaí, Arara e Graúna, além de materiais antigos que sobreviveram desde o período conduzido pelo avô.
O passo seguinte é ampliar o portfólio para atender cafeterias, bares, restaurantes e outros compradores do setor de alimentação. Essa expansão depende de regularidade na produção, capacidade de processamento, padrão entre os lotes e estrutura para armazenar e entregar o café sem perda de qualidade.
O resultado mostra uma possibilidade para as serras, não uma fórmula para todo o semiárido
A experiência de Jaçanã não significa que qualquer área do sertão possa receber um cafezal. Altitude, temperatura, água, variedade, solo e manejo precisam ser avaliados dentro de cada propriedade, e a irrigação acrescenta custos com equipamentos, energia e manutenção.
A produção de 40 sacas em 2024 ainda representa uma operação pequena diante das grandes regiões cafeeiras do país. O diferencial está na possibilidade de vender café torrado, rastreável e com qualidade superior, em vez de competir apenas pela quantidade de grãos produzidos.
O projeto também mostra como plantas antigas podem servir de base para novos negócios rurais. O cafezal que permaneceu quase esquecido durante décadas agora sustenta novos plantios, recupera a atividade iniciada pelo avô e testa os limites da produção agrícola em uma região acostumada a conviver com chuvas irregulares.
Você acredita que o café especial pode ganhar espaço em outras áreas serranas do Nordeste, mesmo com os custos da irrigação e da colheita manual? Deixe seu comentário e conte se conhece alguma produção considerada incomum para o clima da sua região.
