Experimento iniciado no Tabuleiro de Russas avaliou clones, irrigação e manejo técnico para cultivar cacau no semiárido cearense, até transformar amêndoas locais em chocolate e registrar um contraste raro entre fruta tropical, pesquisa agrícola e sertão.
Associado normalmente a áreas úmidas da Bahia e da Amazônia, o cacau foi cultivado de forma experimental no semiárido cearense, em uma área irrigada do Tabuleiro de Russas, onde o calor e a baixa oferta natural de água costumam limitar culturas mais exigentes.
Iniciado em 2010, o projeto reuniu clones selecionados, sistemas de irrigação por gotejamento e microaspersão e manejo técnico para avaliar se o cacaueiro poderia produzir em condições diferentes daquelas encontradas nas regiões brasileiras mais tradicionais para o fruto.
A experiência ocorreu no Perímetro Irrigado Tabuleiro de Russas, no Ceará, em uma área de quatro hectares cultivada com cacaueiros, dentro de uma proposta voltada à geração e à divulgação de tecnologias para o cultivo irrigado da espécie.
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Segundo a Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará, a avaliação acompanhou diferentes materiais genéticos em ambiente semiárido, com foco em adaptação, frutificação, manejo hídrico e desempenho técnico da produção.
Um dos resultados mais curiosos apareceu depois que amêndoas produzidas no experimento foram fermentadas, secas e encaminhadas à Ceplac, na Bahia, para análises químicas, avaliações sensoriais e processamento.
Registrado em um manual técnico publicado em 2017, o processamento de aproximadamente 60 quilos de amêndoas fermentadas e secas resultou em 45 quilos de chocolate produzido com cacau cultivado no Ceará.
Cacau no semiárido cearense
A experiência chama atenção porque o cacaueiro costuma ser relacionado a ambientes úmidos, com sombreamento, características específicas de solo e oferta relativamente regular de água durante o ciclo produtivo.
No Tabuleiro de Russas, porém, o cultivo seguiu outra lógica, sustentada por irrigação planejada, acompanhamento técnico e avaliação de clones em campo para identificar quais materiais apresentavam respostas mais adequadas às condições locais.
Implantada em uma fazenda situada no perímetro irrigado, a área experimental integrou um projeto de diversificação agrícola no interior do Ceará, destinado a testar alternativas produtivas em regiões atendidas por infraestrutura hídrica.
O trabalho contou com participação técnica de instituições como Ceplac, Univale, Embrapa Semiárido, Banco do Nordeste e Sebrae-CE, reunidas para avaliar novas possibilidades de cultivo em áreas irrigadas do estado.
Mais do que uma curiosidade agrícola, a pesquisa abordou preparo de área, plantio, irrigação, poda, sombreamento, colheita, fermentação e secagem das amêndoas, etapas descritas no documento técnico elaborado após seis anos de experimentação.
Esses cuidados foram decisivos porque o valor do cacau não depende apenas da fruta colhida no campo, mas também da qualidade do processamento realizado depois da colheita.
Experimento começou em 2010 no Tabuleiro de Russas
O plano de avaliar o cacaueiro no semiárido começou a ser estruturado em 2009, quando representantes da União dos Agronegócios no Vale do Jaguaribe buscaram apoio técnico da Ceplac para estudar o comportamento da cultura naquele ambiente.
No ano seguinte, um convênio de cooperação técnica entre Ceplac e Univale permitiu implantar a pesquisa em uma área da empresa Frutacor, vinculando a iniciativa a um programa de avaliação de alternativas agrícolas para o interior cearense.
As mudas foram plantadas onde já existia um bananal com quatro anos de cultivo, aproveitado inicialmente como sombra provisória para proteger os cacaueiros durante a fase de estabelecimento no campo.
Além de reduzir a exposição direta ao sol, a presença das bananeiras permitiu utilizar uma infraestrutura de irrigação já instalada, enquanto cajazeiras foram acrescentadas ao sistema para oferecer sombreamento permanente e melhorar o conforto térmico das plantas.
Um dia de campo realizado em agosto de 2013 reuniu 120 participantes nas instalações da Frutacor e apresentou os primeiros resultados do cultivo, incluindo ajustes necessários para sincronizar produção, chuvas, enchimento dos frutos e colheita.
Irrigação por gotejamento e microaspersão
A escolha do Tabuleiro de Russas estava ligada à presença de uma área irrigada com histórico de fruticultura e produção agrícola apoiada por infraestrutura hídrica, condição indispensável para conduzir o teste em ambiente semiárido.
Em vez de depender exclusivamente das chuvas, o experimento utilizou sistemas controlados de irrigação, permitindo acompanhar o desenvolvimento dos cacaueiros em uma região cuja disponibilidade natural de água não atenderia regularmente às exigências da cultura.
Entre os métodos avaliados estavam o gotejamento e a microaspersão, duas formas de distribuir água destinadas a manter a umidade necessária às plantas e, ao mesmo tempo, analisar diferenças no desenvolvimento dos clones.
Enquanto o gotejamento conduzia a água de forma localizada para a região próxima às raízes, a microaspersão alcançava uma área mais ampla ao redor das plantas, criando condições distintas de umidade no solo.
Essa comparação tinha importância técnica porque o cacaueiro necessita de água, mas o desempenho da lavoura também depende da distribuição da umidade, da temperatura do solo, da formação das raízes e do manejo adotado.
Durante o acompanhamento, pesquisadores observaram adaptação, crescimento, frutificação e produção de amêndoas, comparando o comportamento dos materiais genéticos nos dois sistemas de irrigação instalados.
Os resultados reunidos pela Adece indicaram que os clones Cepec 2002 e Cepec 2004 apresentaram maior frutificação no sistema de gotejamento, enquanto o CCN-51 alcançou produtividade experimental superior a duas toneladas de amêndoas secas por hectare no quinto ano.
Esses dados pertencem ao experimento iniciado em 2010 e não representam uma recomendação geral de cultivo, pois o próprio manual técnico registrou que ainda eram necessários ajustes antes de uma adoção em larga escala no Ceará.
Clones selecionados e manejo do cacaueiro
Outro componente relevante foi o sombreamento, uma vez que a exposição excessiva ao sol em regiões de calor intenso pode provocar estresse nas plantas, queima de frutos e alterações no desenvolvimento vegetativo.
Por essa razão, o cultivo exigiu atenção ao ambiente formado ao redor dos cacaueiros, incluindo equilíbrio entre luminosidade, temperatura, umidade, ventilação e proteção contra ventos fortes durante as diferentes fases da lavoura.
Quebra-ventos também foram instalados porque a combinação de ventos intensos e déficit hídrico pode limitar o crescimento das plantas, reduzir a qualidade dos frutos e ampliar a perda de umidade na área cultivada.
Entre os materiais avaliados estavam CP 49, PS 13.19, PH 16, Cepec 2002 e CCN-51, selecionados por características como produtividade, precocidade, porte, peso das sementes e resistência a doenças.
A análise dos clones mostrou que os resultados variavam conforme o material genético e o sistema de irrigação, reforçando a necessidade de combinar escolha das mudas, disponibilidade hídrica, sombreamento e condução técnica.
Amêndoas do Ceará viraram chocolate em 2015
A transformação das amêndoas em chocolate ocorreu depois da colheita, fermentação e secagem do material produzido no experimento, encerrando um percurso que começou com o plantio dos cacaueiros no semiárido cearense.
Em dezembro de 2015, conforme o relatório de atividades da Adece, as amêndoas enviadas à Ceplac foram processadas e avaliadas, originando o produto apresentado pela instituição como o primeiro chocolate feito integralmente com cacau cultivado no Ceará.
As amostras foram distribuídas entre agentes financiadores e instituições participantes para degustação e divulgação, dando visibilidade ao resultado obtido na área experimental do Perímetro Irrigado Tabuleiro de Russas.
Nesse percurso, o cacau deixou de ser apenas uma cultura observada no campo e chegou a um produto processado, após passar por colheita, fermentação, secagem, avaliação e fabricação do chocolate.
A experiência também integrou uma discussão mais ampla sobre diversificação agrícola em áreas irrigadas do Nordeste, frequentemente associadas a culturas como melão, melancia, banana, manga e uva.
Ao avaliar cacau e outras espécies em unidades de observação, o projeto buscou ampliar o conhecimento técnico sobre culturas capazes de produzir em condições específicas, desde que acompanhadas por irrigação, pesquisa e manejo adequado.
Pesquisa não autorizava plantio em qualquer área seca
Os documentos da Adece trataram os resultados como experimentais e ressaltaram a necessidade de novos estudos, principalmente sobre viabilidade econômica, consumo de água, qualidade bioquímica das amêndoas e comportamento dos clones em longo prazo.
A experiência não demonstrou que o cacau poderia ser cultivado em qualquer região seca, pois sua implantação dependia de infraestrutura de irrigação, análise de solo, material genético adequado, sombreamento, assistência técnica e estrutura de pós-colheita.
Sem esses fatores, uma cultura exigente como o cacaueiro enfrentaria barreiras maiores em áreas de baixa umidade, especialmente onde não houvesse água disponível e autorização para uso dos recursos hídricos.
O manual também registrou dificuldades técnicas observadas no campo, como germinação de sementes dentro dos frutos, queimaduras provocadas pela exposição ao sol e necessidade de ajustes na quantidade de água fornecida às plantas.
Ao mesmo tempo, pesquisadores apontaram que as condições climáticas do semiárido eram desfavoráveis à proliferação da vassoura-de-bruxa, doença responsável por perdas expressivas em áreas tradicionais de cacau no sul da Bahia.
Esse contraste ajudou a explicar o interesse técnico pelo Tabuleiro de Russas: embora a região apresentasse limitações de água e temperatura, poderia reduzir a pressão de determinadas doenças quando o cultivo fosse conduzido sob condições controladas.
No campo econômico, o cacau despertava atenção por permitir a fabricação de produtos de maior valor agregado, sobretudo quando as amêndoas apresentavam qualidade compatível com chocolates diferenciados.
A transformação de 60 quilos de amêndoas em 45 quilos de chocolate tornou-se o resultado mais visível de uma pesquisa iniciada em 2010, processada em 2015 e documentada tecnicamente nos anos seguintes.
Também pesa a força visual do caso, já que uma fruta ligada ao imaginário de florestas úmidas apareceu cultivada em pleno semiárido, cercada por sistemas de irrigação, plantas de sombra e materiais genéticos avaliados por pesquisadores.
Para a pesquisa agrícola, o ponto central estava no comportamento dos cacaueiros em condições controladas; para o público, a curiosidade surgiu ao descobrir que amêndoas colhidas no sertão cearense chegaram à forma de chocolate.
Você imaginava que um experimento iniciado no semiárido cearense poderia produzir amêndoas de cacau e transformá-las em chocolate?
