Apesar da menor taxa de desemprego da história recente, milhares de brasileiros em idade ativa abandonaram a busca por trabalho, revelando uma tendência silenciosa que reduz o PIB, altera o consumo, afeta a inflação e redesenha o futuro do mercado laboral brasileiro
A taxa de desemprego no Brasil alcançou em outubro de 2025 o menor índice da história recente: 5,4%, segundo dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). À primeira vista, o número indica um mercado de trabalho fortalecido, recuperação econômica e um cenário otimista para os próximos anos. No entanto, quando olhamos além da superfície, percebemos que essa aparente prosperidade é apenas parte da história – e uma parte incompleta.
Isso porque o país enfrenta um fenômeno silencioso que distorce a percepção de melhora: o desalento, termo utilizado para definir pessoas em idade ativa, entre 15 e 64 anos, que simplesmente desistiram de procurar uma vaga formal ou informal. Esses cidadãos deixam de registrar suas tentativas de inserção profissional e, por consequência, saem das estatísticas oficiais. Na prática, isso mascara a real dimensão do desemprego e impacta diretamente indicadores como produtividade, arrecadação e consumo interno.
Segundo um estudo do banco Daycoval, construído a partir das respostas da Pnad Contínua feitas pelo IBGE entre 2019 e 2025, existem três motivos predominantes que explicam por que tantos brasileiros desistiram de buscar uma ocupação: problemas de saúde e incapacidade, responsabilidades familiares e comprometimento com os estudos. Cada um desses fatores, ainda que legítimo, contribui para um desafio socioeconômico de longo alcance.
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Um ciclo vicioso que pode afetar, tanto a produção, quanto a demanda. Este é o cenário que está sendo construído pela política monetária empreendida pelo Banco Central (BC), que se obriga a manter um aperto monetário (vide Selic hoje no patamar de 14,25% ao ano), para conter uma inflação resiliente (projetada em 5,33% para 2026 pelo boletim Focus), como reflexo do desajuste fiscal (despesas superam receitas) patrocinado pelo governo federal, ‘de olho’ no pleito de outubro próximo.
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Efeitos diretos do desalento sobre o PIB, inflação e mercado de trabalho
De acordo com o economista Antonio Ricciardi, em entrevista ao PlatôBR, o estudo buscou entender por que, mesmo com um desemprego historicamente baixo, não há uma pressão equivalente sobre a inflação de serviços e nem um impacto expressivo na atividade econômica. Como exemplo, durante a última mínima histórica, registrada em 2013, quando a taxa chegou a 6,2%, a inflação de serviços ultrapassava 9%, percentual acima dos 6% atuais. A lógica indicaria que, diante de um quadro de baixa desocupação, o consumo deveria pressionar preços. Mas isso não vem acontecendo.
Além disso, ao projetar os números, o estudo mostra que se o contingente de pessoas desalentadas estivesse empregado, o PIB brasileiro poderia chegar a 4% em 2025, índice bem mais elevado do que a mediana de 2,2% estimada pelo mercado e divulgada no Boletim Focus do Banco Central. Essa diferença expõe a magnitude econômica da evasão do mercado de trabalho.
Segundo Ricciardi, “a taxa de desemprego diminuiu e parte desse efeito decorre do fato de que muitas pessoas não estão trabalhando pelos três motivos apresentados”. E o impacto se torna ainda mais evidente quando se projeta a inclusão dos desalentados na força de trabalho: se somados, o desemprego subiria para cerca de 7,5%.
Benefícios sociais e a mudança estrutural na participação da força de trabalho
Embora seja comum responsabilizar programas assistenciais como causadores da desistência profissional, os dados precisam ser analisados com cautela. Conforme informações divulgadas pelo PlatôBR, as três principais justificativas ganharam força a partir do último trimestre de 2022, justamente quando houve aumento na concessão de benefícios como Bolsa Família e BPC (Benefício de Prestação Continuada).
No entanto, o próprio economista adverte que, apesar da correlação evidente, não é possível afirmar causalidade sem um estudo específico. Ele reforça que há uma tendência estrutural recente na oferta de mão de obra que vai além do impacto dos programas sociais, envolvendo contexto pós-pandemia, reabilitação profissional insuficiente, informalidade digital e a permanência de cuidados familiares.
Assim, embora haja relação temporal e comportamental, atribuir exclusivamente aos benefícios a queda na procura por emprego seria uma análise incompleta.
