Mercado de trabalho aquecido, saída de famílias do Bolsa Família e mudanças na oferta de serviços ajudam a explicar por que contratar mão de obra doméstica e especializada ficou mais difícil no Brasil recente.
A percepção de que falta mão de obra para serviços domésticos e pequenos reparos não está ligada ao Bolsa Família, segundo o escritor e especialista em economia José Kobori, em vídeo publicado em seu canal no YouTube José Kobori.
Ele explicou que a dificuldade crescente para encontrar trabalhadores tem relação direta com a melhora recente de indicadores do mercado de trabalho e não com suposta “acomodação” de beneficiários de programas sociais.
Nos últimos anos, o Brasil registrou taxas de desemprego em níveis historicamente baixos, ao mesmo tempo em que a renda média do trabalho aumentou.
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Um ciclo vicioso que pode afetar, tanto a produção, quanto a demanda. Este é o cenário que está sendo construído pela política monetária empreendida pelo Banco Central (BC), que se obriga a manter um aperto monetário (vide Selic hoje no patamar de 14,25% ao ano), para conter uma inflação resiliente (projetada em 5,33% para 2026 pelo boletim Focus), como reflexo do desajuste fiscal (despesas superam receitas) patrocinado pelo governo federal, ‘de olho’ no pleito de outubro próximo.
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Conforme destacou Kobori, mais de 2 milhões de domicílios deixaram o Bolsa Família em 2025 porque suas rendas ultrapassaram os limites de elegibilidade.
Para ele, esse movimento evidencia recuperação econômica e redução da pobreza extrema, e não desinteresse generalizado pelo trabalho.
Dificuldade de contratação e percepção sobre programas sociais
Ao responder a uma espectadora que relatou dificuldade para contratar diaristas, pedreiros e outros prestadores de serviço, José Kobori afirmou que se criou “uma retórica equivocada” sobre programas sociais.
De acordo com o economista, ninguém consegue viver apenas com o valor do benefício, que gira entre cerca de R$ 300 e R$ 600 mensais.
“R$ 600 significam algo em torno de R$ 20 por dia. Não há como uma pessoa pagar alimentação, moradia, água e luz com esse valor”, disse ele durante o vídeo.
Kobori lembrou ainda que a maior parte dos beneficiários trabalha, inclusive no mercado informal, e que a renda básica defendida por economistas liberais, como Milton Friedman, foi concebida justamente para garantir condições mínimas de subsistência.
“O Bolsa Família não dispensa ninguém do trabalho”.
Economia aquecida e serviços mais caros
O economista explicou que a dificuldade para contratar serviços é um fenômeno comum em países com maior nível de desenvolvimento.
Ele citou sua experiência ao morar no Japão, país em que empregos como o de empregada doméstica são raros e muito caros.
Lá, segundo ele, uma trabalhadora desse setor exige remuneração semelhante à de quem a contrata, tornando o serviço inviável para a maioria das famílias.
Essa dinâmica ocorre porque serviços não têm escala produtiva, diferente de bens industrializados.
“Quando a economia evolui, as pessoas passam a buscar salários maiores, e a mão de obra de serviços fica mais escassa”.
Em contraste, quando um país enfrenta dificuldades, cresce o número de pessoas dispostas a trabalhar por valores baixos, o que barateia serviços como faxina, jardinagem ou pequenos reparos.
Ele citou ainda que países desenvolvidos costumam ter moradias menores, tecnologias domésticas mais acessíveis e hábitos que reduzem a necessidade de mão de obra presencial, como alimentos porcionados e eletrodomésticos automatizados.
Por que o Bolsa Família não explica essa mudança
Em vários momentos do vídeo, Kobori reforçou que o problema não está no Bolsa Família, mas na mudança do patamar econômico do país.
A redução da extrema pobreza e a expansão do mercado de trabalho fazem com que menos pessoas aceitem salários muito baixos.
“Se você oferecer o dobro do valor pago atualmente para uma doméstica, vai aparecer gente interessada”, afirmou ele, destacando que a discussão central é sobre remuneração e oferta de mão de obra, não sobre programas de transferência de renda.
Segundo o economista, essa percepção de que “ninguém quer trabalhar” tende a surgir quando antigos padrões de contratação deixam de funcionar.
Serviços que por décadas foram baratos no Brasil começam a seguir a lógica observada em países com maior renda média: trabalhadores mais qualificados e dispostos a exigir melhores pagamentos.
Redução da pobreza e impacto sobre a mão de obra barata
Ainda de acordo com José Kobori, o Brasil vive um processo que reduz a presença de trabalhadores em ocupações historicamente associadas a baixa renda.
“Países com muita desigualdade, como Estados Unidos e Brasil, mantêm parte da mão de obra nesses serviços. Mas mesmo aqui isso tem diminuído, o que é sinal de melhora econômica”.
Ele lembrou que, nos Estados Unidos, o setor doméstico ainda existe, mas depende majoritariamente de imigrantes pobres, enquanto cidadãos americanos raramente atuam nessas funções.
Kobori acrescentou que, conforme a economia avança, torna-se mais comum adquirir produtos novos em vez de consertá-los, justamente porque o custo da mão de obra cresce mais do que o valor dos bens industrializados.
Para ele, esse padrão tende a se consolidar no Brasil caso o país avance na industrialização e na elevação da renda média.
Menos extrema pobreza, menos trabalho precário
O especialista concluiu que a dificuldade para contratar serviços de limpeza, manutenção ou construção está relacionada ao fato de que há menos gente disposta a trabalhar por valores muito baixos, consequência de uma economia mais aquecida e da saída de famílias da extrema pobreza.
“É um movimento natural: quando a economia melhora, a oferta de mão de obra barata diminui”.
Ao final, Kobori questionou por que ainda se atribui ao Bolsa Família a responsabilidade por mudanças estruturais que acompanham países em desenvolvimento.
Para ele, o debate precisa se afastar da polarização e olhar para os aspectos econômicos que explicam essa transformação.
Diante desse cenário, até que ponto o Brasil está preparado para conviver com um mercado de serviços mais valorizado e menos dependente da pobreza extrema?


Será que é o bolsa família que tá fazendo o povo querer trabalhar ou a mão de obra barata e as empresas não querem arcar com qualificação e nem sempre a população baixa renda tem condições de pagar um curso profissional
Eu até acredito que existam (na verdade conheço uma ou outra) pessoas que se submetem a depender majoritariamente de auxílios governamentais, mas as pessoas que o fazem não seriam nem capazes, provavelmente, de suprir a mão de obra necessária nas empresas e domicílios.
A matéria traz uma perspectiva muito interessante e bem embasada sobre a situação.
Pagando dignamente e oferecendo condições adequadas de trabalho e jornada, sempre se encontra quem queira trabalhar.