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Pacato município brasileiro cresceu escondido dentro da maior cratera de asteroide da América do Sul, formada há 250 milhões de anos após um impacto colossal que abriu uma estrutura de 40 km no subsolo do país

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 31/05/2026 às 21:02
Assista o vídeoConheça Araguainha, em Mato Grosso, município ligado ao maior astroblema da América do Sul, formado por impacto há milhões de anos.
Conheça Araguainha, em Mato Grosso, município ligado ao maior astroblema da América do Sul, formado por impacto há milhões de anos.
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Município pequeno no interior de Mato Grosso ocupa uma paisagem rara, marcada por anéis de relevo, rochas deformadas e vestígios de um impacto antigo que tornou o Domo de Araguainha uma referência para estudos geológicos na América do Sul.

Araguainha, em Mato Grosso, está ligada a uma das formações geológicas mais raras do continente, o Domo de Araguainha, considerado a maior cratera de impacto conhecida da América do Sul, com cerca de 40 quilômetros de diâmetro.

Localizada na divisa entre Mato Grosso e Goiás, a estrutura teve origem no choque de um corpo celeste contra a superfície terrestre há aproximadamente 245 milhões de anos, perto do limite entre os períodos Permiano e Triássico.

Com 1.010 habitantes no Censo 2022 e população estimada em 997 pessoas em 2025, o município ocupa uma área marcada por anéis de relevo, vales e rochas deformadas pelo impacto.

Hoje parcialmente erodida, a paisagem ainda preserva sinais geológicos estudados há décadas por pesquisadores brasileiros e estrangeiros, que analisam as marcas deixadas por um evento raro na história natural do continente.

Maior cratera de impacto da América do Sul

Embora seja chamada popularmente de cratera, o Domo de Araguainha não aparece como uma cavidade aberta e visível em toda a sua extensão, pois a estrutura foi modificada por erosão, sedimentação e outros processos naturais.

Na geologia, formações antigas desse tipo recebem o nome de astroblemas, termo usado para identificar marcas de impacto que sobreviveram parcialmente após milhões de anos de transformações na superfície terrestre.

A formação nasceu da colisão de um corpo celeste em uma área que, segundo estudos geológicos, provavelmente era coberta por uma plataforma marinha rasa, antes das mudanças ambientais que alteraram a região.

Com a força do impacto, rochas sedimentares da Bacia do Paraná e partes do embasamento cristalino foram atingidas, deformando camadas profundas e trazendo à superfície materiais mais antigos.

No centro da estrutura, o choque produziu um núcleo soerguido, fenômeno comum em crateras complexas e responsável por expor granito pré-devoniano em uma área de aproximadamente 6,5 quilômetros de diâmetro.

Ao redor desse núcleo, unidades sedimentares aparecem distribuídas em anéis, compondo um relevo formado por depressões anelares, vales, arcos de colinas e terraços escarpados que ajudam a revelar a dimensão do impacto.

Domo de Araguainha exibe rochas deformadas pelo impacto que formou a maior cratera de asteroide da América do Sul. (Imagem: Geraldo C F Valadare / Wikimedia Commons)
Domo de Araguainha exibe rochas deformadas pelo impacto que formou a maior cratera de asteroide da América do Sul. (Imagem: Geraldo C F Valadare / Wikimedia Commons)

Em alguns trechos, camadas de arenito da Formação Furnas surgem inclinadas em ângulos muito elevados, formando elevações que chegam a cerca de 150 metros acima das áreas vizinhas.

Localização do Domo de Araguainha

Entre as localidades de Araguainha e Ponte Branca, em Mato Grosso, fica o centro aproximado do Domo de Araguainha, nas coordenadas de 16º47’S e 52º59’W.

O Rio Araguaia corta a estrutura e separa porções localizadas em Mato Grosso e Goiás, o que mostra que a formação ultrapassa os limites administrativos do município que lhe dá nome.

Mesmo associado principalmente a Araguainha, o domo se distribui por uma área mais ampla, e estudos sobre a proposta de geoparque indicam que cerca de 40% da estrutura está em Goiás.

Antes de ser reconhecido como resultado da queda de um corpo celeste, o relevo circular foi interpretado como produto de processos internos da Terra, incluindo hipóteses ligadas a intrusões e atividade vulcânica.

A leitura de origem por impacto ganhou força a partir dos trabalhos de Robert Dietz e Bevan French, em 1973, e foi reforçada depois por pesquisas conduzidas por Alvaro Crósta e outros estudiosos.

Entre as evidências consideradas decisivas estão feições de metamorfismo de choque, brechas de impacto e lamelas em cristais de quartzo, registros que não costumam surgir em processos geológicos comuns.

Evidências do impacto nas rochas

As provas mais importantes da colisão não estão apenas no formato circular visto em imagens de satélite, mas também nas rochas deformadas, nos minerais alterados e nos afloramentos expostos pela erosão.

O impacto produziu deformações microscópicas em minerais, cones de estilhaçamento conhecidos como shatter cones, brechas e feições planares em quartzo, feldspato e mica, todos ligados a pressões extremas.

Por se formarem em condições muito superiores às pressões normais da crosta terrestre, essas marcas ajudam os geólogos a diferenciar crateras de impacto de estruturas causadas por vulcanismo, erosão ou movimentos tectônicos.

No Domo de Araguainha, os afloramentos mais relevantes aparecem no núcleo soerguido e ao longo de cortes de estrada, especialmente na ligação entre Ponte Branca e Araguainha.

Conheça Araguainha, em Mato Grosso, município ligado ao maior astroblema da América do Sul, formado por impacto há milhões de anos.
Conheça Araguainha, em Mato Grosso, município ligado ao maior astroblema da América do Sul, formado por impacto há milhões de anos.

Nesses pontos, a exposição das rochas permite observar parte da sequência afetada pelo choque e pela erosão posterior, oferecendo material importante para pesquisas sobre impactos antigos na Terra.

Com área aproximada de 1.300 quilômetros quadrados, a estrutura completa não se impõe facilmente ao olhar de quem circula pelo município, mas se torna mais evidente em imagens aéreas e mapas geológicos.

Relevo de Araguainha e vida local

Em meio a colinas, vales e superfícies onduladas, Araguainha se desenvolveu sobre uma paisagem moldada por processos geológicos antigos, embora a rotina urbana também dependa de fatores históricos, econômicos e regionais.

A presença do domo ajuda a explicar a configuração do terreno, mas não resume sozinha a ocupação do município, que mantém características comuns a pequenas cidades do interior mato-grossense.

Com população reduzida e baixa densidade demográfica, Araguainha registra 1,50 habitante por quilômetro quadrado no Censo 2022, indicador que reforça o perfil pouco adensado da área municipal.

Na economia local, predominam atividades rurais e serviços públicos, enquanto o interesse científico pelo domo funciona como elemento de visibilidade em debates sobre conservação geológica, educação e potencial turístico.

Nos últimos anos, a formação passou a ser citada em iniciativas voltadas à valorização de geossítios e à criação de um geoparque, proposta que busca proteger áreas de interesse científico.

Essa discussão envolve preservar a paisagem, ampliar o uso educativo do território e evitar que intervenções sem planejamento comprometam evidências naturais associadas ao impacto que formou o Domo de Araguainha.

Preservação do Domo de Araguainha

Preservar o Domo de Araguainha é relevante porque a estrutura reúne registros de um evento raro na história geológica do continente, em um cenário onde muitas crateras terrestres foram destruídas ou mascaradas pela erosão.

Cada astroblema preservado ajuda pesquisadores a reconstituir processos de impacto na Terra, especialmente quando mantém evidências visíveis em rochas, formas de relevo e feições microscópicas associadas a pressões extremas.

No caso de Araguainha, o interesse científico aumenta pelo tamanho, pela idade e pela variedade de registros disponíveis, que incluem marcas macroscópicas e microscópicas de metamorfismo de choque.

A conservação dos afloramentos, das formas de relevo e das áreas de acesso científico permite que pesquisadores continuem analisando a origem da estrutura e as mudanças ocorridas depois do impacto.

Sem planejamento adequado, obras, cortes em encostas e intervenções sobre rochas expostas podem danificar pontos de observação importantes, reduzindo o valor científico de uma paisagem singular no continente.

Ao mesmo tempo, o reconhecimento geológico não transforma automaticamente a região em destino turístico consolidado, pois visitação qualificada depende de infraestrutura, sinalização, proteção ambiental, ações educativas e gestão pública contínua.

O que a ciência sabe sobre o impacto

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Os estudos mais citados situam a formação do Domo de Araguainha perto de 245 milhões de anos atrás, embora materiais de divulgação frequentemente arredondem essa idade para cerca de 250 milhões de anos.

Essa diferença não altera o enquadramento geral do evento, mas é relevante para precisão jornalística, sobretudo porque a data aproxima o impacto do limite entre os períodos Permiano e Triássico.

A cratera final tem cerca de 40 quilômetros de diâmetro, enquanto estimativas geológicas apontam que a cratera transitória, formada imediatamente após o choque, teria sido menor.

Depois da colisão, o aprofundamento inicial foi modificado pelo colapso, pelo soerguimento central e por longos processos de erosão, responsáveis por transformar a feição original na paisagem observada atualmente.

O domo também se destaca por estar entre as poucas estruturas de impacto conhecidas e estudadas na América do Sul, onde o número de crateras confirmadas é reduzido.

Em território brasileiro, a formação ocupa posição de destaque pela dimensão, pela exposição de rochas deformadas e pela capacidade de revelar processos geológicos que ocorreram muito antes da ocupação humana.

A paisagem atual de Araguainha, portanto, reúne uma cidade pequena, uma estrutura geológica continentalmente relevante e vestígios preservados de um evento que antecede em muito a história humana no Centro-Oeste brasileiro.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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