O quebra-gelo Storis, que os Estados Unidos recolocaram no Ártico depois de mais de vinte anos sem um navio do tipo na frota, não saiu de estaleiro nenhum: era o Aiviq, a embarcação que a Shell usava para apoiar a perfuração de petróleo no gelo, comprada usada pela Guarda Costeira por 125 milhões de dólares.
No fim de maio o Storis voltou a Seattle depois de 36 dias patrulhando o Mar de Bering. Foi a primeira missão de inverno de um quebra-gelo americano naquelas águas em muito tempo, com quatro motores diesel somando 22.500 cavalos para abrir caminho por quase um metro de gelo a cinco nós.
A tripulação encarou o que o comandante Corey Kerns chamou de uma declaração clara da determinação do país. O detalhe que quase ninguém comenta é de onde esse navio realmente veio.
De navio da Shell a quebra-gelo Storis
O Aiviq foi construído entre 2011 e 2012 num estaleiro da Louisiana para a Edison Chouest, com uma função bem específica: dar suporte às plataformas que a Shell tentava fincar nos mares de Chukchi e Beaufort para tirar petróleo do Ártico. A estreia foi quase um vexame. Em dezembro de 2012, rebocando a plataforma Kulluk em ondas de seis metros, o cabo se partiu e o navio perdeu a propulsão, num episódio que ajudou a enterrar o sonho petroleiro da Shell na região.
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Alvo de intensa controvérsia, desde sua ampla divulgação, a eliminação da escala 6 x 1 – sob o argumento inconsistente de que ela implicaria ‘ganhos de produtividade’ e até ‘de renda’ à classe trabalhadora – não resiste ao mais elementar princípio econômico. Isso porque, sem ganhos de produtividade efetivos, haverá custo extra a ser suportado pelas empresas, ‘regiamente’ repassado ao consumidor final, sempre ele.
Quando a Guarda Costeira percebeu que não tinha como esperar um navio novo sair da prancheta, foi às compras. Pagou 125 milhões de dólares pela embarcação parada, separou outros 25 milhões para reformá-la e a rebatizou de Storis, nome de um antigo cutter de 1942 que foi o primeiro navio americano a dar a volta na América do Norte pela Passagem Noroeste. O contrato saiu no apagar das luzes de 2024 e a cerimônia de incorporação aconteceu em agosto de 2025, em Juneau, no Alasca.

Uma potência que esqueceu como construir navio
Aqui mora a parte que me parece mais reveladora. Em 1975 os Estados Unidos lideravam a construção naval do planeta. Hoje respondem por cerca de 0,13% dela, despencando para a 19ª posição mundial, enquanto a China sozinha entrega mais da metade de todos os navios comerciais do mundo. A gente costuma medir o poder de uma marinha pelo número de porta-aviões, mas a régua mais dura é outra, a de simplesmente botar aço na água em escala.
Não é à toa que estaleiros asiáticos, como a sul-coreana Hanwha, que já assumem encomendas gigantes de navios de gás, ocupam o espaço que a indústria americana foi deixando vazio década após década. Construir um quebra-gelo polar, que precisa de casco espesso e engenharia de gelo, é justamente o tipo de obra que sobrou difícil demais para quem perdeu a prática.
Por que os próximos quebra-gelos vão nascer na Finlândia
A solução encontrada diz tudo. Em meados de maio, a Davie fechou um contrato de 3,5 bilhões de dólares para cinco novos Arctic Security Cutters. Três serão construídos no Texas, mas os dois primeiros vão sair de Helsinki, na Finlândia, um país de pouco mais de cinco milhões de habitantes que sozinho projeta 80% dos quebra-gelos do mundo. A primeira entrega só está prevista para 2028.
O próprio comandante da Guarda Costeira, o almirante Kevin Lunday, foi honesto sobre o motivo, dizendo que precisavam começar alavancando a capacidade comprovada da Finlândia para só depois trazer mais trabalho de volta aos Estados Unidos. Em bom português, terceirizar lá fora para reaprender em casa, dentro de um acordo de cooperação polar que o país assinou com finlandeses e canadenses em 2024.

Enquanto isso, a frota polar americana inteira cabe nos dedos de uma mão: o pesado Polar Star, o médio Healy e agora o Storis adaptado. Fico imaginando a cena de uma das maiores economias do mundo dependendo de um trio para marcar presença num oceano que está virando rota comercial e tabuleiro estratégico ao mesmo tempo. É o mesmo país que mantém porta-aviões como o USS Gerald R. Ford no mar por meses seguidos, mas que não consegue parir sozinho um navio capaz de furar gelo.
Confesso que, ao montar essa linha do tempo, o que fica não é a imagem de uma superpotência derrotada, e sim a de um gigante improvisando. Comprar usado, reformar, terceirizar e ainda assim chegar atrasado em 2028 é o retrato de uma indústria que encolheu enquanto ninguém olhava. Fico curioso para saber se você enxerga essa manobra como sinal de fraqueza ou como puro pragmatismo de quem não tem tempo a perder.
Para você, ainda dá para se chamar de potência marítima quando é preciso comprar navio usado e mandar construir o resto do outro lado do Atlântico?
