Enquanto estaleiros europeus lutam para recuperar relevância na construção naval mundial, a Hanwha Ocean entregou no estaleiro de Geoje, na Coreia do Sul, o ducentésimo cargueiro de gás natural liquefeito da história da empresa, marco mundial absoluto que nenhuma rival asiática ou europeia conseguiu replicar até hoje. Conforme anúncio oficial publicado pelo conglomerado sul-coreano, o feito coincidiu com a confirmação de novos contratos com a operadora norueguesa Knutsen OAS Shipping e com a italiana Edison para construir mais dois cargueiros de gás natural liquefeito com capacidade de 174 mil metros cúbicos cada, equipados com motor dual-fuel MAN ME-GI Mark 10.5 que registra um dos menores índices de metano residual liberado por escape em toda a indústria de transporte marítimo de gás.
Os dois novos navios encomendados em 2026 entrarão em operação a partir de 2028, com bandeira norueguesa e contratos de afretamento de longo prazo já fechados com importadores europeus de gás natural. A Edison, controlada parcialmente pela EDF francesa, vai usar a frota nova para transportar gás liquefeito do Catar e dos Estados Unidos para terminais de regaseificação no Mar Mediterrâneo, especialmente em Piombino, Toscana, e em La Spezia, na Ligúria.

A escolha do motor MAN ME-GI marca uma virada técnica no setor, que vinha enfrentando crescente pressão regulatória da Organização Marítima Internacional sobre emissões diretas de metano por escape, principal vilão climático associado ao transporte global de gás liquefeito desde a entrada em vigor do regulamento EEXI em 2023.
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Por que o estaleiro de Geoje virou o coração da construção naval mundial
O estaleiro de Geoje, localizado na ilha homônima a 400 quilômetros de Seul, é uma das maiores instalações industriais marítimas do planeta, com oito docas secas operacionais, capacidade simultânea para construção de até 40 navios e força de trabalho próxima de 30 mil pessoas em ciclos contínuos de produção. A planta pertence ao grupo Hanwha desde 2023, quando a empresa adquiriu a antiga Daewoo Shipbuilding & Marine Engineering em transação avaliada em mais de 2 bilhões de dólares.
Desde a aquisição, a Hanwha investiu pesadamente em digitalização, robotização de processos de soldagem e otimização logística interna do estaleiro. O resultado foi uma redução média de 18% no tempo de entrega de cargueiros de gás liquefeito padrão e melhoria significativa nas margens operacionais do segmento, segundo análises da revista especializada Lloyd’s List.
Pesquisadores descobrem que quanto mais a Coreia do Sul concentra produção de embarcações de transporte de gás liquefeito, mais os fornecedores asiáticos de componentes especializados se aglomeram ao redor de Geoje, criando um polo industrial com efeito multiplicador difícil de replicar em outras regiões do planeta. Esse fenômeno explica por que a Europa, mesmo com a Itália, a Espanha e a Alemanha tentando reativar sua indústria naval, não consegue mais competir em escala.

O motor MAN ME-GI e o salto na redução de metano residual
O motor dois tempos MAN B&W 5G70ME-GI Mark 10.5, fabricado em parceria entre MAN Energy Solutions e Hanwha Engine, representa o estado da arte em propulsão marítima de cargueiros de gás natural liquefeito. Conforme dados da MAN, o equipamento entrega garantias contratuais de níveis extremamente baixos de metano residual liberado durante combustão a bordo, atendendo às metas mais agressivas da Organização Marítima Internacional para 2030.
O metano residual, conhecido tecnicamente como methane slip, é o principal ponto de fricção ambiental do transporte marítimo de gás liquefeito. Apesar do gás natural ser frequentemente apresentado como combustível de transição mais limpo que o óleo combustível pesado, parte do metano pode escapar não queimado pelo escapamento, anulando boa parte do ganho ambiental teórico da troca de combustível.
Segundo a Offshore Energy, em cobertura do contrato MAN com Hanwha, a versão Mark 10.5 reduz o methane slip a níveis até 70% menores do que motores anteriores da mesma família, marca atribuída ao novo sistema de injeção de alta pressão e ao reprojeto da câmara de combustão.

O retorno surpresa da indústria naval norte-americana via Hanwha Philly
Em paralelo aos contratos asiáticos, a Hanwha também avança em parceria com o estaleiro Hanwha Philly, na Pensilvânia, para construir o primeiro cargueiro de gás liquefeito sob bandeira americana em quase cinco décadas. A operação, conhecida no setor como Jones Act LNG Carrier, atende exigência de longa data da legislação norte-americana de cabotagem, que obriga uso de embarcações com casco construído nos Estados Unidos para transporte interno entre portos.
O navio em questão deve atender contratos firmados pela própria Hanwha Shipping, divisão norte-americana do grupo coreano, com termos comerciais avaliados em centenas de milhões de dólares ao longo da próxima década. A operação simboliza o esforço da administração federal americana em rearmar a indústria naval doméstica frente à dominância asiática.
Conforme cobertura do Maritime Executive, o projeto também desperta interesse de fabricantes de aço norte-americanos, do estado de Ohio à Louisiana, que veem oportunidade de retomar fornecimento estrutural para construção naval em volumes não vistos desde os anos 1980. A escala completa do contrato ainda depende de etapas regulatórias pendentes.

O mercado global de gás liquefeito que sustenta a aposta da Hanwha
A demanda mundial por cargueiros de gás natural liquefeito explodiu desde 2022, quando a invasão russa da Ucrânia reorganizou as rotas globais de fornecimento e a Europa migrou aceleradamente de gás russo via gasoduto para gás importado por navio. Esse choque criou demanda estrutural por novos navios projetados nos anos seguintes e elevou o backlog global de pedidos de cargueiros de gás liquefeito a patamares recordes em 2024 e 2025.
Segundo dados da Wood Mackenzie, a frota mundial de cargueiros de gás liquefeito deve crescer 38% até 2030, com mais de 350 novas embarcações entrando em operação. A Coreia do Sul concentra mais de 70% desses pedidos, com Hanwha, Samsung Heavy Industries e HD Hyundai Heavy Industries dividindo o mercado entre si em participações comparáveis.
Cabe destacar que outras descobertas sobre megaprojetos navais, transição energética e logística internacional aparecem com frequência em nossas editorias de Curiosidades e Ciência, conectando avanços globais a discussões sobre o setor de gás natural brasileiro.
Por que o Brasil observa de perto cada novo cargueiro entregue na Ásia
O Brasil opera atualmente três terminais de regaseificação de gás natural liquefeito em operação ativa, na Baía de Guanabara, no Pecém e na Bahia, todos abastecidos por navios da frota internacional. Sem produção doméstica de cargueiros desse tipo, o país depende do mercado spot internacional e de contratos de longo prazo para garantir disponibilidade de transporte em momentos de alta demanda.
A entrada de mais 350 embarcações no mercado global até 2030 tende a reduzir custos de frete spot e ampliar disponibilidade de gás liquefeito barato em janelas críticas, como períodos secos prolongados em que termelétricas brasileiras precisam ser despachadas no Norte e Nordeste. Esse cálculo afeta diretamente o planejamento da Petrobras e dos operadores privados como Eneva e Prio.
Por outro lado, a oferta brasileira de gás liquefeito para exportação segue limitada, com poucos projetos em fase avançada de desenvolvimento na bacia de Santos. A virada da Hanwha em Geoje e em Filadélfia também tende a reordenar o equilíbrio entre Atlântico e Pacífico nas rotas globais de fornecimento ao longo da próxima década.
