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O Oceano Austral mudou de estado de forma tão súbita que os modelos climáticos ficaram para trás — e a mudança já está afetando o clima do planeta inteiro…

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 29/04/2026 às 14:00
Atualizado em 29/04/2026 às 17:18
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Em algum momento por volta de 2015, algo mudou no extremo sul do planeta — e ninguém percebeu na época. O Oceano Austral, essa massa de água que circunda a Antártida e regula o clima global como um enorme termostato, entrou em um novo estado. Ficou mais salgado, mais quente, e começou a perder gelo a uma velocidade que não tinha precedente nos registros modernos. Um estudo publicado na prestigiosa revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) em junho de 2025 pela Universidade de Southampton finalmente documentou essa transição — e o diagnóstico foi inquietante: a mudança aconteceu de forma tão súbita que os modelos climáticos simplesmente não a previram.

A descoberta é relevante muito além dos círculos científicos. O oceano austral absorve cerca de 40% do CO₂ que a humanidade emite e regula a distribuição de temperatura nos oceanos de todo o planeta por meio de correntes profundas. Quando ele muda de comportamento de forma não prevista, as consequências se propagam pelo clima global inteiro — afetando desde as tempestades na América do Sul até o derretimento do Ártico. E é exatamente isso que os dados mais recentes sugerem que está acontecendo.

O que o estudo descobriu: o oceano austral entrou em novo estado

O estudo usou uma combinação inédita de dados de satélite e observações de campo para mapear a mudança em escala do oceano inteiro. Isso foi possível graças aos satélites europeus SMOS (Soil Moisture and Ocean Salinity) e Aquarius, que medem a salinidade superficial dos oceanos com precisão suficiente para detectar variações regionais. A tecnologia de observação por satélite tornou possível identificar a mudança que instrumentos de campo não conseguiriam captar com a mesma cobertura espacial.

A pesquisa, intitulada “Rising surface salinity and declining sea ice: A new Southern Ocean state revealed by satellites” (Aumento da salinidade superficial e declínio do gelo marinho: um novo estado do Oceano Austral revelado por satélites), usou dados de satélites europeus para monitorar a salinidade da superfície do oceano austral ao sul dos 50° de latitude Sul.

O que os pesquisadores encontraram foi surpreendente: por décadas, a superfície do oceano vinha se tornando mais doce — menos salgada — à medida que o gelo derretia e liberava água doce no mar. Esse processo ajudava a manter uma camada estável de água mais fria e menos densa na superfície, que servia como uma espécie de “tampa” isolando as águas profundas mais quentes. Desde 2015, essa tendência reverteu abruptamente.

A salinidade superficial começou a subir. O efeito em cadeia foi imediato: água mais salgada é mais densa, afunda, e permite que o calor das camadas profundas do oceano suba até a superfície. Esse calor, por sua vez, derrete o gelo marinho por baixo — ao contrário do derretimento pelo ar quente, o derretimento por água quente é muito mais eficiente e difícil de reverter.

Vista aérea do Oceano Austral com gelo marinho fragmentado e águas abertas ao redor da Antártida
O Oceano Austral perdeu gelo equivalente ao tamanho da Groenlândia desde 2015 — e a reversão foi tão súbita que os modelos climáticos não a previram. Imagem: IA/CPG

O buraco no gelo do tamanho de quatro países de Gales

Um dos sinais mais visíveis da mudança no oceano austral foi o ressurgimento do chamado Maud Rise polynya — um imenso “buraco” no gelo marinho do Mar de Weddell. A polynya é uma área de água aberta cercada por gelo, e a do Maud Rise não aparecia com essa intensidade desde a década de 1970. Em anos recentes, ela voltou a surgir, com dimensões quase quatro vezes o tamanho do País de Gales.

A polynya importa porque interrompe o efeito isolante do gelo. Nessas regiões de água aberta, o calor do oceano escapa diretamente para a atmosfera, e o gás carbônico se mistura de forma diferente. Para os oceanos globais, isso significa que uma região que normalmente é sumidouro de calor e CO₂ passa a se comportar de forma mais imprevisível.

Desde 2015, a Antártida perdeu gelo marinho equivalente ao tamanho da Groenlândia — o maior desaparecimento de gelo registrado em qualquer parte do planeta nas últimas décadas. O volume das águas frias do fundo oceânico, essenciais para a circulação global, encolheu mais de 20% nas últimas três décadas. E as águas a mais de 2.000 metros de profundidade no oceano austral aqueceram quatro vezes mais rápido do que o resto do oceano global.

Por que o oceano austral mais salgado é um problema para o planeta inteiro

A salinidade pode parecer um detalhe técnico, mas ela controla mecanismos fundamentais do sistema climático terrestre. O Oceano Austral faz parte da chamada circulação termohalina — a “correia transportadora” dos oceanos que move água quente para latitudes frias e água fria para latitudes tropicais, distribuindo temperatura e nutrientes pelo planeta.

A termohalina é, de certa forma, o ar condicionado do planeta. Sem ela, as regiões tropicais seriam muito mais quentes e os polos muito mais frios. O calor que a Europa Ocidental recebe da Corrente do Golfo, por exemplo, é parte direta desse sistema. E o Oceano Austral é onde grande parte dessa circulação se “fecha” — é nele que as águas frias afundam em direção ao fundo do oceano para iniciar a jornada de retorno.

Quando a salinidade superficial sobe no oceano austral, ela interfere nessa circulação. A água mais densa afunda mais rápido, muda a velocidade das correntes, e pode criar um ciclo de realimentação perigoso: menos gelo → mais calor entrando no oceano → mais gelo derretendo → ainda menos gelo. Pesquisadores descrevem esse processo como um loop que, uma vez estabelecido, é muito difícil de reverter.

  • O Oceano Austral absorve 40% do CO₂ que a humanidade emite globalmente
  • Perda de gelo marinho desde 2015: equivalente ao tamanho da Groenlândia
  • Águas profundas (>2.000m) aquecendo 4x mais rápido que o resto do oceano
  • Volume das águas frias do fundo: -20% nas últimas três décadas
  • Maud Rise polynya: buraco no gelo com 4x o tamanho do País de Gales

O estudo da Universidade de Southampton foi publicado na PNAS em junho de 2025 e recebeu atenção global justamente porque documentou que a mudança já está em curso, não é uma projeção futura. Os modelos climáticos usados pelo IPCC precisam ser atualizados para incorporar esse novo estado do oceano nas suas simulações.

Diagrama da circulação termohalina global mostrando o papel do Oceano Austral nas correntes oceânicas
A circulação termohalina regula o clima de todo o planeta — e o Oceano Austral é um de seus pilares. Mudanças na salinidade afetam toda a correia. Imagem: IA/CPG

O que muda para o Brasil e para a América do Sul

Para o Brasil, as mudanças no oceano austral têm implicações concretas. A intensidade e a trajetória dos sistemas de baixa pressão que chegam ao Sul do país são influenciadas pelas temperaturas do Oceano Austral. Verões mais quentes no sul da Argentina e do Chile têm correlação com o aquecimento da superfície desse oceano. E eventos de precipitação extrema no Sul do Brasil têm sido relacionados, em estudos preliminares, às anomalias de temperatura marítima na região.

Em termos práticos para os brasileiros, o aquecimento do Oceano Austral está relacionado ao aumento da frequência e intensidade de ciclones extratropicais no Sul do país. O evento de setembro de 2023, que causou devastação no Rio Grande do Sul com ventos de mais de 100 km/h — incomuns para a região — foi analisado por pesquisadores brasileiros em conexão com anomalias de temperatura marítima no Atlântico Sul, que por sua vez são influenciadas pelo estado do Oceano Austral.

Mais diretamente: a circulação oceânica que o Oceano Austral regula distribui oxigênio e nutrientes para os oceanos de todo o mundo. Alterações nessa distribuição afetam a produtividade pesqueira em escala global — o que é relevante para um país como o Brasil, cuja pesca representa mais de 1,5 milhão de empregos e é base alimentar de comunidades costeiras.

A pesquisa também tem implicações para o entendimento da capacidade dos oceanos de continuar absorvendo CO₂. Se o Oceano Austral se torna menos eficiente como sumidouro de carbono — o que as mudanças de salinidade sugerem —, parte do CO₂ que hoje é “engolido” pelo mar permanece na atmosfera, acelerando o aquecimento global de forma independente das emissões humanas.

O que os cientistas ainda não sabem

Uma das partes mais inquietantes do estudo é o que ele não consegue explicar completamente: por que a reversão foi tão abrupta em 2015? Os modelos climáticos projetavam que a salinidade do Oceano Austral continuaria caindo gradualmente por décadas. A mudança repentina sugere que pode haver mecanismos de retroalimentação no sistema oceânico que ainda não são bem compreendidos.

A velocidade da mudança criou um dilema científico: os dados de satélite mostram claramente a reversão desde 2015, mas o mecanismo exato que desencadeou a mudança ainda não está totalmente esclarecido. Uma hipótese é que eventos de El Niño e La Niña extremos nessa janela temporal alteraram o padrão de ventos sobre o Oceano Austral, mudando a mistura vertical da água. Outra hipótese envolve a influência de mudanças na formação de água de fundo antártica (AABW), a massa d’água mais densa do planeta, que forma na plataforma continental da Antártida e afunda para o fundo do oceano global.

Pesquisadores da Universidade de Southampton são cautelosos sobre afirmar que a mudança é permanente. O sistema oceânico é complexo, e existe a possibilidade de que a reversão seja parte de uma oscilação natural de longa escala temporal. Mas a coincidência com o aumento acelerado de emissões de CO₂ e o aquecimento global dos últimos anos torna difícil atribuir tudo a variabilidade natural.

O que preocupa mais os especialistas é a velocidade. Mudanças no estado do oceano austral que os modelos esperavam levar décadas para ocorrer parecem ter se concretizado em menos de dez anos. Se a ciência climática está subestimando a velocidade das transições oceânicas, as projeções de aquecimento futuro podem ser conservadoras — e o tempo disponível para ação climática, ainda menor do que pensamos.

Pinguins na Antártida com gelo derretendo ao fundo, oceano azul profundo visível, impacto das mudanças climáticas
A perda de gelo no Oceano Austral ameaça ecossistemas únicos — e os efeitos já se propagam para o clima global. Imagem: IA/CPG

O que fazer com essa informação

Estudos como o publicado na PNAS em 2025 têm uma função dupla. Primeiro, atualizam o conhecimento científico sobre o estado atual do planeta — fundamental para que governos tomem decisões baseadas em evidências sobre metas climáticas. Segundo, alertam para a possibilidade de que os limiares do sistema climático possam ser cruzados de forma mais rápida e irreversível do que os modelos previam.

Um aspecto frequentemente negligenciado é o papel do Oceano Austral na regulação do pH dos oceanos. À medida que ele absorve CO₂, parte desse carbono se transforma em ácido carbônico, tornando a água mais ácida — um processo chamado de acidificação oceânica. Organismos que formam conchas e esqueletos de carbonato de cálcio, como corais, ostras e crustáceos, são especialmente vulneráveis. Se a capacidade do Oceano Austral de absorver CO₂ diminuir com o novo estado de salinidade, isso pode reduzir indiretamente a taxa de acidificação — mas ao custo de deixar mais CO₂ na atmosfera e acelerar o aquecimento.

Para a política climática global, isso tem implicações diretas. Não é coincidência que a Amazônia também virou fonte líquida de carbono em 2023 pelo mesmo motivo — secas extremas e temperatura acima da média. O Oceano Austral e a Amazônia são dois dos maiores reguladores climáticos do planeta, e ambos estão falhando ao mesmo tempo. As metas do Acordo de Paris — limitar o aquecimento a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais — foram calculadas com base em modelos que não incluíam o novo estado do oceano austral. Com um sistema oceânico que muda de comportamento mais rápido do que previsto, o caminho para manter essas metas pode ser ainda mais estreito.

O estudo não é catastrofista, mas é claro: o Oceano Austral já mudou. A questão não é mais se vai mudar, mas quão rápido o restante do sistema vai responder — e se a humanidade vai agir em tempo suficiente para limitar o dano. Em um planeta que aquece, os oceanos são o último tampão. E o tampão do sul do mundo acabou de mostrar que não é tão estável quanto pensávamos.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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