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A Amazônia começou a falhar em silêncio — e pesquisadores descobriram que a seca de 2023 fez a maior floresta do planeta emitir carbono em vez de absorvê-lo…

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 29/04/2026 às 15:00
Atualizado em 29/04/2026 às 17:26
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Por décadas, a Amazônia foi o maior escudo climático do planeta — uma floresta tão vasta que absorvia bilhões de toneladas de carbono por ano, compensando parte das emissões humanas e desacelerando o aquecimento global. Esse papel está sendo perdido. Um estudo publicado em fevereiro de 2026 na revista científica AGU Advances, pelo Instituto Max Planck de Biogeoquímica, documentou algo que cientistas temiam confirmar: em 2023, a maior floresta tropical do mundo virou uma fonte líquida de carbono — emitindo mais CO₂ do que absorveu. A pesquisa sobre a amazônia carbono revela que a virada aconteceu não por causa de incêndios, mas por algo mais insidioso: a seca fez a floresta parar de respirar.

O título do estudo diz tudo: “Reduced Vegetation Uptake During the Extreme 2023 Drought Turns the Amazon Into a Weak Carbon Source” (A redução na absorção pela vegetação durante a seca extrema de 2023 transforma a Amazônia em uma fraca fonte de carbono). A equipe internacional, liderada por Santiago Botia, combinou dados de medições de CO₂ do Observatório de Torre Alta da Amazônia (ATTO), imagens de satélite e modelos de vegetação para rastrear, mês a mês, o que aconteceu com o ciclo de carbono amazônico em 2023. O resultado foi histórico — e preocupante.

Por que a amazônia carbono virou fonte em 2023

A causa não foram os incêndios. Os dados de satélite mostraram que as queimadas em 2023 estavam dentro dos níveis normais dos últimos vinte anos. O grande vilão foi a seca extrema. Em 2023, temperaturas 1,5°C acima da média histórica de 1991-2020 e umidade atmosférica anormalmente baixa criaram condições que a vegetação amazônica não estava preparada para suportar.

A causa raiz da seca foi o aquecimento incomum do Atlântico e do Pacífico, que reduziu o transporte de umidade do Atlântico para o interior da América do Sul. A floresta, privada de água, reduziu drasticamente a fotossíntese — o processo pelo qual as plantas absorvem CO₂ e liberam oxigênio. Sem fotossíntese em ritmo normal, a amazônia carbono absorveu muito menos CO₂ do que de costume.

O padrão foi sazonal. De janeiro a abril, a floresta absorveu mais carbono do que o normal — um sinal positivo inicial. Mas em maio, quando a seca se intensificou, houve a inversão: a Amazônia passou de sumidouro a fonte. O pico de emissões foi em outubro, durante o período mais crítico da estiagem, quando as altas temperaturas e a baixíssima umidade fizeram a vegetação liberar carbono ao invés de capturá-lo.

O mecanismo é o seguinte: em condições normais, as árvores amazônicas realizam fotossíntese ao longo de todo o ano — diferente de florestas temperadas que “hibernam” no inverno. Esse ciclo contínuo é o que torna a floresta tropical tão eficiente como sumidouro. Em 2023, a seca interrompeu esse ciclo: as plantas fecharam os estômatos (os “poros” das folhas) para conservar água, e ao fazê-lo pararam de absorver CO₂ do ar. A floresta ficou biologicamente “muda” — ainda viva, mas sem capturar carbono.

Ao mesmo tempo, os solos da floresta continuaram liberando CO₂ pela respiração microbiana — um processo que não depende de luz ou água e continua mesmo durante a seca. Isso criou um desequilíbrio: emissões continuaram do solo, mas a absorção pela vegetação caiu. O balanço líquido virou negativo — e a Amazônia, pela primeira vez nos registros modernos, contribuiu para o aquecimento em vez de combatê-lo durante um ciclo anual completo.

Vista aérea da floresta amazônica seca com rios com nível baixo e vegetação dourada por falta de chuva
A seca extrema de 2023 fez a Amazônia parar de absorver carbono — e o estudo confirma que ela virou fonte líquida de CO₂ pela primeira vez. Imagem: IA/CPG

A amazônia carbono respondeu por 30% de todas as emissões tropicais em 2023

O volume emitido foi de 10 a 170 milhões de toneladas de carbono — a amplitude ampla reflete incertezas nos modelos, mas mesmo o valor mínimo representa uma ruptura histórica em relação ao papel histórico da floresta como sumidouro.

O número mais impactante do estudo: a Amazônia sozinha respondeu por 30% de toda a emissão líquida de carbono das terras tropicais do planeta em 2023. A floresta que deveria ser a solução passou a ser parte do problema — e em proporções significativas.

  • Emissão líquida de carbono em 2023: 10 a 170 milhões de toneladas
  • Responsável por 30% das emissões de terras tropicais globalmente
  • Temperatura: 1,5°C acima da média histórica (1991-2020)
  • Causa principal: vegetação parando de absorver CO₂ (não incêndios)
  • Em 2024: incêndios liberaram 791 milhões de toneladas de CO₂ — 7x a média recente

O ano seguinte foi ainda mais dramático. Em 2024, a Amazônia sofreu os piores incêndios da história recente, liberando 791 milhões de toneladas de CO₂ — sete vezes a média dos anos anteriores. Pela primeira vez, as emissões por incêndios superaram as emissões por desmatamento. A combinação de seca persistente e fogo criou um ciclo de degradação que os pesquisadores descrevem como precursor do chamado “ponto de não retorno” da floresta.

O ponto de não retorno: o que os cientistas temem

O ano de 2023 não foi um evento isolado. A seca de 2023 foi a pior registrada na Amazônia em décadas — mas os modelos climáticos indicam que eventos assim serão cada vez mais frequentes. A frequência de eventos El Niño extremos está aumentando, e cada El Niño intenso adiciona pressão de calor e seca sobre a bacia amazônica. O que era uma exceção pode se tornar a nova norma.

O estudo da AGU Advances insere a Amazônia num debate científico urgente: o da proximidade do chamado tipping point — ponto de virada — a partir do qual a floresta não conseguiria mais se recuperar, mesmo que as causas de degradação parassem. Os modelos climáticos mais recentes sugerem que a Amazônia pode cruzar esse limiar antes do que se pensava.

Segundo a Agência Brasil, estudos indicam que, sem controle do desmatamento, a Amazônia pode deixar de capturar 2,94 bilhões de toneladas de carbono até 2030. Mesmo com as políticas atuais, mantendo as taxas recentes de desmatamento, haveria perda de 1,113 bilhão de toneladas na captura de carbono nos próximos cinco anos.

A distinção entre os cenários é o que torna as políticas ambientais brasileiras tão relevantes globalmente. Cada hectare de floresta protegido é carbono que não vai para a atmosfera. E cada hectare degradado é carbono que volta ao ar — com juros, já que a degradação também reduz a capacidade de absorção dos hectares restantes.

Incêndio florestal na Amazônia com fumaça densa sobre a floresta tropical brasileira
Em 2024, os incêndios liberaram 791 milhões de toneladas de CO₂ na Amazônia — 7x a média. Pela primeira vez, superaram as emissões do desmatamento. Imagem: IA/CPG

A boa notícia: desmatamento caiu em 2025

Em meio a dados alarmantes, há um sinal positivo. O governo brasileiro registrou em 2025 uma redução de 11,08% no desmatamento da Amazônia e de 11,49% no Cerrado em relação ao ano anterior. Desde 2022, as políticas ambientais do governo federal evitaram a emissão de 733,9 milhões de toneladas de CO₂e por desmatamento nos dois biomas.

Vale contextualizar: a redução do desmatamento é real e documentada, mas a floresta que resta ainda está sendo degradada por incêndios, extração seletiva de madeira, criação de gado próxima às bordas e pela seca. Pesquisadores usam o termo “floresta degradada” para se referir a áreas que ainda têm cobertura arbórea, mas que perderam biodiversidade e capacidade de absorção de carbono. Estima-se que a área degradada da Amazônia é agora maior do que a área desmatada.

Esses números mostram que a ação humana importa — e que políticas de proteção florestal podem desacelerar a degradação. Mas os pesquisadores alertam que reduzir o desmatamento não é suficiente para salvar a Amazônia se as secas extremas continuarem se intensificando devido ao aquecimento global. O problema da amazônia carbono tem duas entradas: o que o ser humano faz diretamente (desmatamento, fogo) e o que as mudanças climáticas provocam indiretamente (secas mais longas, temperaturas mais altas).

O estudo do Instituto Max Planck deixa claro que, em 2023, nem o desmatamento nem os incêndios foram os protagonistas da inversão. Foi a seca — um fenômeno externo, causado pelo aquecimento dos oceanos, sobre o qual a floresta não tem controle direto. Isso significa que, mesmo com políticas de proteção internas perfeitas, o Brasil pode continuar vendo a Amazônia sofrer os efeitos do clima global que o país não controla sozinho.

O que isso significa para a política climática global

O timing do estudo — publicado em fevereiro de 2026, às vésperas de uma série de reuniões preparatórias para a COP31, que o Brasil vai sediar em Belém em 2025 — deu ao debate uma dimensão política. A COP31 é uma oportunidade histórica para o Brasil liderar a agenda de proteção de florestas tropicais. Mas os dados de emissão de 2023 e 2024 criam um contexto de maior urgência: proteger não é mais suficiente se o clima global não desacelerar.

O estudo da AGU Advances tem implicações diretas para as negociações climáticas globais. A Amazônia foi por muito tempo usada como “argumento de compensação” em debates sobre emissões: países desenvolvidos citavam a floresta tropical brasileira como sumidouro que absorvia parte das emissões globais. Se a Amazônia virou fonte, esse argumento muda de sinal.

Para o Brasil, isso cria uma posição delicada nas COPs climáticas. O país quer ser reconhecido pelos esforços de redução do desmatamento — e com razão, dado o progresso recente. Mas os dados de emissão da floresta, influenciados por eventos climáticos externos, podem ser usados por outros países como argumento para não reconhecer os créditos de carbono brasileiros.

A pesquisa aponta, ainda, que a Amazônia pode se tornar uma fonte geral de carbono mais rápido do que os modelos anteriores previam. Isso muda os cálculos sobre o quanto de emissões globais o mundo ainda pode liberar antes de cruzar os 1,5°C de aquecimento — o limite do Acordo de Paris. Em outras palavras: o prazo para ação climática pode ser ainda mais curto do que as projeções atuais sugerem.

Cientistas coletando dados em torre de monitoramento climático no meio da floresta amazônica
O Observatório de Torre Alta da Amazônia (ATTO) foi fundamental para rastrear as emissões de carbono mês a mês em 2023. Imagem: IA/CPG

Há também a questão dos créditos de carbono. Empresas ao redor do mundo pagam para financiar a conservação da Amazônia em troca de créditos de carbono que usam para “compensar” suas emissões. Se a floresta não está absorvendo carbono como deveria — seja por seca, seja por degradação — esses créditos podem estar sendo emitidos com base em premissas erradas sobre a capacidade real de captura da floresta. O mercado voluntário de carbono florestal precisa incorporar esse novo entendimento.

Para o consumidor e o cidadão brasileiro, a mensagem é direta: a Amazônia importa para o clima do Brasil. As secas extremas que afetaram o Sul e o Sudeste nos últimos anos têm relação com padrões de circulação atmosférica que a própria floresta ajuda a regular. Uma Amazônia que emite carbono em vez de absorver é também uma Amazônia que vai gerar menos chuva nos “rios voadores” que alimentam o Centro-Oeste e o Sudeste do país.

Não é coincidência que o Oceano Austral também entrou em novo estado em 2015 — perdendo gelo equivalente ao tamanho da Groenlândia e tornando-se mais salgado em reversão súbita. Dois sistemas reguladores do clima global falhando ao mesmo tempo. O diagnóstico é claro. A Amazônia não é mais o seguro climático infalível que o mundo usou por décadas como argumento para adiar ações. Ela precisa ser protegida como paciente frágil, não explorada como reservatório infinito. E os sinais que o estudo de 2026 traz sugerem que a margem para errar está ficando cada vez mais estreita — antes que a floresta que sustentou o equilíbrio do planeta deixe definitivamente de estar do lado da solução.

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Luiz
Luiz
18/05/2026 12:32

e o mundo (direita) ainda compactua com um lider republicano, **** do clima.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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