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O estado brasileiro mais vulnerável a desastres naturais concentra 41% dos alertas da Defesa Civil, enfrenta ciclones, enchentes, granizo e tornados e vive sob uma combinação climática que parece uma tempestade perfeita

Escrito por Ana Alice
Publicado em 25/04/2026 às 22:38
Atualizado em 25/04/2026 às 22:43
Assista o vídeoSanta Catarina lidera alertas de desastres naturais no Brasil e reúne fatores climáticos que explicam a frequência de eventos extremos. (Imagem: Ilustrativa)
Santa Catarina lidera alertas de desastres naturais no Brasil e reúne fatores climáticos que explicam a frequência de eventos extremos. (Imagem: Ilustrativa)
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A frequência de alertas em Santa Catarina está ligada a fatores climáticos, geográficos e urbanos que explicam a atenção constante da Defesa Civil e ajudam a entender o peso dos eventos extremos no estado.

Santa Catarina concentrou, em 2025, 333 dos 805 alertas de risco de desastres naturais emitidos no Brasil pelo sistema nacional de avisos graves, o equivalente a pouco mais de 41% do total.

O dado, divulgado pela Agência Brasil com base no serviço de alertas da Defesa Civil, coloca o estado como o principal destino das notificações no país naquele ano, à frente de São Paulo e Amazonas.

O número não representa, sozinho, todos os desastres ocorridos no território catarinense.

Ele indica a quantidade de alertas enviados pelo sistema nacional para situações de risco severo ou extremo, em um estado cuja configuração geográfica, segundo meteorologistas e órgãos de monitoramento, favorece a ocorrência de fenômenos como chuvas intensas, vendavais, alagamentos, enxurradas e deslizamentos.

Por que Santa Catarina concentra tantos alertas

A posição geográfica de Santa Catarina ajuda a explicar a frequência de eventos meteorológicos adversos.

O estado fica em uma faixa de transição atmosférica, onde massas de ar frio vindas do Sul podem encontrar ar quente e úmido proveniente da Amazônia e do Centro-Oeste.

Quando esses sistemas se encontram, a atmosfera pode ficar instável e favorecer a formação de nuvens carregadas.

Segundo a meteorologista Maria Laura Rodrigues, da Epagri/Ciram, são comuns no estado tanto ondas de calor associadas a tempestades quanto ondas de frio, que podem provocar geadas e neve em áreas mais altas.

“São comuns tanto ondas de calor, que provocam tempestades com chuvas torrenciais, quanto ondas de frio, com geadas e até neve”, afirma Maria Laura Rodrigues, meteorologista e coordenadora da área na Epagri/Ciram.

A meteorologista afirma que o choque entre massas de ar com características diferentes força a elevação do ar quente.

Esse processo está associado à formação de tempestades severas, com chuva forte, descargas elétricas, granizo, rajadas de vento e, em situações específicas, fenômenos como microexplosões e tornados.

O relevo catarinense também interfere na distribuição da chuva e da temperatura.

Serras próximas ao litoral favorecem a elevação do ar úmido e podem intensificar precipitações em determinadas áreas, enquanto vales, planaltos e encostas criam variações locais de temperatura e umidade.

Ciclones extratropicais no Sul do Brasil

Além do encontro entre massas de ar, Santa Catarina sofre influência de ciclones extratropicais, sistemas de baixa pressão comuns em latitudes médias.

Segundo a Epagri/Ciram, esses fenômenos se formam quando massas de ar quente e frio se encontram e podem provocar mudanças rápidas no tempo e no mar.

Quando se intensificam próximos à costa, os ciclones podem causar chuva, ventos fortes, queda de temperatura, mar agitado e ressaca.

A Epagri/Ciram informa que rajadas podem ultrapassar 60 km/h nas regiões litorâneas e no Sul catarinense, com risco para navegação, pescadores, banhistas e áreas costeiras.

Esse conjunto de fatores não transforma todos os eventos em desastre, mas aumenta a necessidade de monitoramento constante.

Em áreas urbanizadas, a chuva intensa pode ter impacto maior quando atinge regiões com rios próximos, encostas ocupadas, drenagem insuficiente ou histórico de alagamentos.

El Niño mantém atenção para o clima em Santa Catarina

As projeções climáticas também entram no cálculo de risco.

O Inmet informou, com base em previsões da NOAA emitidas em 20 de abril de 2026, que a neutralidade no Pacífico equatorial deve dar lugar a aumento da probabilidade de formação do El Niño ao longo do ano.

Segundo o Inmet, a chance de estabelecimento do fenômeno supera 60% a partir do trimestre maio-junho-julho e pode chegar a 90% ou mais no trimestre agosto-setembro-outubro.

No Brasil, o El Niño costuma ter efeitos diferentes por região e, no Sul, pode favorecer períodos de chuva acima da média, dependendo da intensidade do fenômeno e de outros fatores atmosféricos.

A previsão não permite afirmar que haverá desastre em uma localidade específica.

O dado serve como referência para órgãos de monitoramento porque eventos de chuva frequente ou volumosa, quando combinados a solo encharcado e rios elevados, ampliam o risco de ocorrências em áreas vulneráveis.

Desastres naturais marcaram a história catarinense

A exposição do estado aparece também em registros históricos.

A enchente de Tubarão, em março de 1974, é descrita em estudo do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina como a inundação de origem natural que causou o maior número de mortes no estado.

Em março de 2004, o furacão Catarina atingiu o Sul catarinense e o Norte do Rio Grande do Sul.

O governo de Santa Catarina descreve o episódio como um marco na meteorologia brasileira, por se tratar do único furacão oficialmente registrado no Atlântico Sul até hoje.

Quatro anos depois, as chuvas de novembro de 2008 provocaram enchentes e deslizamentos no Vale do Itajaí e em outras áreas do estado.

Relatório do Banco Mundial e do CEPED/UFSC estimou os custos totais daquele evento em R$ 4,75 bilhões, valor equivalente a cerca de 2,67% do PIB estadual à época.

Em 2023, Santa Catarina voltou a registrar grande volume de ocorrências reconhecidas pelo governo federal.

De acordo com a Secretaria de Comunicação da Presidência, foram 281 reconhecimentos de situação de emergência ou estado de calamidade pública em 171 municípios catarinenses, envolvendo principalmente chuvas intensas, granizo, vendavais, estiagem, enxurradas e inundações.

Como funcionam os alertas da Defesa Civil

A comunicação com a população ocorre por dois sistemas principais.

O primeiro é o SMS da Defesa Civil, que exige cadastro prévio e funciona sem internet.

Para receber os avisos, o cidadão deve enviar gratuitamente o CEP da localidade de interesse para o número 40199.

O segundo é o Defesa Civil Alerta, baseado na tecnologia Cell Broadcast.

Nesse caso, a mensagem aparece diretamente na tela de celulares conectados a antenas 4G ou 5G dentro da área de risco, sem necessidade de cadastro, aplicativo ou conexão com a internet.

O sistema trabalha com dois níveis de gravidade.

O alerta severo indica situação de perigo muito alto e orienta a população a seguir as recomendações enviadas; o alerta extremo aponta emergência com risco iminente à vida e exige ação imediata, conforme a Defesa Civil catarinense.

Santa Catarina lidera adesão ao SMS da Defesa Civil

Santa Catarina também aparece no topo da adesão proporcional ao serviço de SMS.

Segundo dados divulgados pelo governo estadual em fevereiro de 2026, 10,54% da população catarinense estava cadastrada para receber avisos antecipados ou alertas de risco iminente, índice superior à média nacional de 5,18%.

A adesão maior ao sistema pode ampliar o alcance das mensagens preventivas, mas não elimina a necessidade de outras formas de comunicação.

Em situações de queda de energia, bloqueios de vias, falhas de sinal ou deslocamento de moradores, a atuação de defesas civis municipais, rádios locais, sirenes, redes sociais oficiais e equipes em campo continua fazendo parte da resposta.

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Monitoramento climático foi ampliado no estado

A estrutura de monitoramento também passou por expansão.

Em abril de 2026, a Defesa Civil de Santa Catarina informou a conclusão da ampliação da rede hidrometeorológica para 172 estações distribuídas pelo estado, sendo 130 novas unidades somadas a 42 já existentes.

Essas estações medem variáveis como nível de rios, volume de chuva, temperatura, umidade, pressão atmosférica, direção e velocidade do vento.

De acordo com a Defesa Civil, os dados são atualizados a cada 15 segundos e usados no acompanhamento em tempo real das condições meteorológicas e hidrológicas.

A rede auxilia a emissão de alertas e o trabalho das equipes técnicas, especialmente em situações de chuva intensa, elevação rápida de rios e temporais.

O governo estadual informou que o projeto recebeu investimento de R$ 9 milhões e prevê manutenção contínua dos equipamentos.

Mudança climática entra no planejamento de risco

O aumento da temperatura global também passou a integrar o planejamento de risco de desastres.

O IPCC, painel de cientistas ligado à ONU, aponta que o aquecimento intensifica eventos de precipitação extrema em escala global, porque uma atmosfera mais quente consegue reter mais vapor d’água.

Segundo Maria Laura Rodrigues, períodos de aquecimento mais significativo no Atlântico foram acompanhados por tendência de aumento na intensidade e na frequência de eventos extremos em Santa Catarina.

Ela afirma ainda que uma atmosfera mais quente pode tornar sistemas meteorológicos mais intensos e concentrar a chuva em períodos mais curtos e áreas menores.

Esse cenário exige leitura regionalizada dos riscos.

No mesmo estado, podem ocorrer chuva excessiva em uma área, estiagem em outra e queda brusca de temperatura em regiões de altitude, dependendo da estação, da circulação atmosférica e das condições oceânicas.

A sequência de alertas mostra que Santa Catarina reúne fatores naturais e urbanos que exigem acompanhamento permanente.

Com sistemas mais rápidos de aviso e uma população mais conectada aos canais oficiais, o desafio dos municípios catarinenses é transformar alertas em ações antes que o risco vire emergência.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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