Sandra Portella saiu de bicos com pano de prato para uma marca própria de bolsas artesanais no Rio de Janeiro, misturando crochê, tecido reaproveitado e venda online; o negócio chegou a 13 mulheres na equipe e ganhou força após parcerias com fornecedores de sobras têxteis
Sandra Portella tinha 54 anos quando viu a demissão em uma empresa de varejo virar o começo de um negócio próprio no bairro de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. O que começou com crochê, panos de prato e enxovais passou a girar em torno de bolsas feitas com tecidos que poderiam ir para descarte.
O faturamento de mais de R$ 30 mil por mês foi informado em reportagem publicada em 2023 pelo Só Notícia Boa, com base em informações da Revista PEGN. O valor, portanto, aparece como dado da época da reportagem, não como balanço financeiro atualizado publicamente.
A mudança não veio de um plano pronto. Sandra já fazia peças manuais, mas o artesanato deixou de ser complemento quando ela percebeu que havia demanda real pelos produtos. Primeiro vieram os bicos de pano de prato e artigos de enxoval. Depois, a bolsa virou o produto principal.
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O diferencial foi juntar duas coisas simples, mas difíceis de executar bem em escala pequena. De um lado, o crochê feito à mão, com alças marcantes. Do outro, tecidos reaproveitados, comprados ou recebidos de fornecedores que descartariam materiais ainda utilizáveis.
A demissão abriu espaço para o artesanato virar renda fixa

Antes de apostar nas bolsas, Sandra trabalhava no varejo. Após perder o emprego, começou a vender peças de crochê sem tratar aquilo, no início, como uma empresa estruturada. A renda veio aos poucos, pelas encomendas menores e pela repetição de clientes.
A fase também teve um peso familiar. Segundo a reportagem original, Sandra perdeu a mãe, que era uma presença próxima e ajudava nos cuidados com Leo, seu filho, que tem deficiência cognitiva e precisa de atenção constante. O negócio cresceu no meio dessa rotina, sem a imagem fácil de “virada perfeita” que costuma aparecer em histórias de empreendedorismo.
A marca levou o próprio nome dela, Sandra Portella. A escolha veio porque clientes não associavam as peças à artesã. O nome na etiqueta funcionou como assinatura e como forma de mostrar que havia uma pessoa por trás de cada produto, não uma produção anônima comprada pronta.
A bolsa de crochê mudou de escala quando encontrou o upcycling
Até 2018, Sandra ainda produzia enxovais. A virada veio quando ela passou a desenvolver bolsas que misturavam tecidos e crochê, inspirada em modelos de bolsa origami vistos na internet. O formato remetia à dobradura japonesa, mas a execução passava por uma leitura brasileira, com alças artesanais e estampas reaproveitadas.

O upcycling ajudou a peça a ganhar valor. Na prática, esse modelo transforma materiais que seriam descartados em novos produtos, sem necessariamente passar por um processo industrial de reciclagem. O Sebrae-SP descreve o conceito como a criação de itens de moda a partir de materiais descartáveis ou já existentes.
No caso de Sandra, os tecidos doados pela Farm foram citados como um dos pontos que impulsionaram a marca em 2021. A partir dali, as bolsas passaram a circular mais, inclusive por vendas online e por revendedoras parceiras.

O produto também escapou da aparência de “artesanato improvisado”. A combinação de tecido estampado, acabamento manual e design reconhecível ajudou a posicionar as bolsas como acessório de moda, não apenas como peça de reaproveitamento.
O que parece sobra vira matéria-prima para uma cadeia maior
A história de Sandra entra em um mercado que já movimenta números grandes no Brasil. A Abit, associação que representa a indústria têxtil e de confecção, informa que o setor reúne 25,7 mil empresas no país, emprega mais de 1,34 milhão de trabalhadores e gerou R$ 221 bilhões em faturamento anual em 2024.
Esse tamanho explica por que sobras de tecido, retalhos e excedentes viraram oportunidade para marcas pequenas. O que sobra na cadeia de produção pode ser pouco para uma indústria, mas suficiente para uma artesã criar peças únicas em lotes menores.
Um boletim do Sebrae sobre moda sustentável aponta que a reciclagem ou reaproveitamento de tecidos ajuda a dar finalidade às sobras industriais, que podem virar acessórios de moda e objetos de decoração. O mesmo material cita fibras recicladas, algodão, sacos de grãos de café e garrafas PET entre alternativas usadas em tecidos sustentáveis.
Esse ponto é central para entender o caso. Sandra não vende apenas uma bolsa “bonita” ou apenas uma bolsa “ecológica”. O produto junta estética, reaproveitamento e produção manual, três elementos que ajudam a justificar preço, identidade e recompra.
A equipe cresceu com outras mulheres e mostrou onde estava o gargalo
Com o aumento das vendas, Sandra deixou de trabalhar sozinha. A marca chegou a uma equipe com 13 funcionárias, todas mulheres, segundo a reportagem de 2023. Esse crescimento mostra uma limitação comum em negócios artesanais. A demanda pode subir rápido, mas a produção manual exige treino, tempo e padrão de acabamento.
A capacitação entrou nesse processo. No mesmo período em que as bolsas ganharam força, Sandra participou de grupos de mulheres empreendedoras. Essa etapa costuma ser decisiva para quem sai do trabalho informal e passa a lidar com preço, estoque, entrega, margem e atendimento.
O caso também conversa com um movimento mais amplo no país. Segundo levantamento do Sebrae com base em dados da Receita Federal, mais de 2 milhões de pequenos negócios liderados por mulheres foram criados em 2025, cerca de 42% do total de MEIs, microempresas e empresas de pequeno porte abertas naquele ano.
Outro estudo do Sebrae aponta que o Brasil tinha 10,4 milhões de mulheres donas de negócio em dezembro de 2025, maior número da série histórica, após crescimento de 27% em dez anos. Ainda assim, as mulheres eram 34,3% dos donos de negócio, embora representassem 51,8% da população em idade ativa.
Sandra se encaixa justamente em uma faixa que ganhou destaque. Em 2024, a presença feminina voltou a crescer entre empreendedores iniciais, e o Sebrae citou avanço entre mulheres de 45 a 54 anos em negócios já estabelecidos.
Você compraria uma bolsa feita com tecido reaproveitado se ela tivesse bom acabamento e preço justo?
A história de Sandra Portella mostra que sobra de tecido pode virar renda, emprego e marca própria.
Deixe nos comentários se o upcycling ainda parece nicho pequeno ou se já virou caminho real para pequenos negócios no Brasil.
