Empresa brasileira saiu da manutenção de bagagens para vender malas, mochilas e shoulder bags feitas com plástico reciclado. A ideia ganhou força após a queda das viagens na pandemia, virou produto licenciado do Time Brasil e entrou na rota de exportação para mercados onde sustentabilidade e personalização pesam na decisão de compra
Uma fábrica de Guarulhos, na Grande São Paulo, encontrou nas garrafas PET recicladas uma saída para transformar um negócio de conserto de malas em uma operação de produtos sustentáveis. A empresa chegou a faturar R$ 250 mil por mês com malas, mochilas e bolsas feitas com plástico reaproveitado.
A informação foi exibida pelo programa Pequenas Empresas & Grandes Negócios, em reportagem sobre uma fábrica que usa garrafas PET recicladas na produção de bagagens e tinha planos de triplicar o faturamento com exportações para a Europa e os Estados Unidos.
Por trás da história está a Kameleon Bags, marca ligada ao Grupo WBS. Antes de fabricar peças próprias, o grupo já atuava havia mais de dez anos com conserto de malas, incluindo atendimento ligado ao fluxo de bagagens de companhias aéreas.
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O negócio ganhou outro rumo quando os sócios passaram a usar chapas produzidas a partir de PET pós-consumo. Na prática, a garrafa descartada entra na cadeia de reciclagem, vira matéria-prima industrial e retorna ao mercado como parte de uma mala personalizada.
A virada veio quando a oficina deixou de apenas consertar bagagens
A pandemia derrubou o setor de viagens e atingiu empresas que dependiam do movimento em aeroportos, rodoviárias e companhias aéreas. Foi nesse período que a Kameleon acelerou um projeto que já estava guardado, com foco em malas, mochilas e shoulder bags feitas com material reciclado.
Segundo o UOL Ecoa, os sócios Luciano Pereira, Marco Pereira e Fábio Carleto tiraram a ideia da gaveta quando o conserto de malas perdeu força. O plástico usado nos produtos vinha de cooperativas, por meio de parceiros de São Paulo e do Sul do país, e chegava à fábrica em chapas moldadas por uma máquina desenvolvida pela própria empresa.
A mudança não foi apenas estética. A proposta era oferecer uma mala resistente, personalizável e com argumento ambiental visível para o consumidor. Esse ponto ajudou a empresa a vender o produto tanto para pessoas físicas quanto para empresas interessadas em brindes, ações promocionais e peças de marca.
Cada mala de bordo reaproveita dezenas de garrafas PET
O número que ajuda a explicar o apelo do produto está na quantidade de plástico reaproveitado. Para confeccionar uma mala de bordo, a Kameleon usa o equivalente a 32 garrafas PET de dois litros ou 48 garrafas de 500 ml, conforme dados divulgados pelo Comitê Olímpico do Brasil ao anunciar produtos licenciados do Time Brasil em junho de 2021.
A mesma lógica se aplica a outros itens. Uma shoulder bag pequena reutiliza 12 garrafas de 500 ml, enquanto uma mochila pode usar o equivalente a 24 garrafas pequenas. O impacto de cada peça parece pequeno quando olhado de forma isolada, mas ganha escala quando a produção passa de centenas de unidades por mês.
O PET reciclado não substitui todas as partes da mala. Rodinhas, puxadores, alças, divisórias, zíperes e estruturas internas continuam exigindo outros materiais. Ainda assim, o uso do plástico pós-consumo no revestimento e nas placas reduz a dependência de matéria-prima virgem em parte relevante do produto.
Esse tipo de aplicação também ajuda a dar destino a um material que já tem cadeia estruturada no Brasil. De acordo com a ABIPET, o país reciclou 410 mil toneladas de embalagens PET em 2024, volume 14,2% maior que o do levantamento anterior. O censo também aponta que 53% das embalagens descartadas pelos consumidores voltaram ao mercado depois da reciclagem.
Time Brasil deu vitrine nacional para as malas sustentáveis
A Kameleon ganhou exposição quando entrou na linha de produtos licenciados do Time Brasil. O COB lançou a coleção em 2021, no ciclo dos Jogos Olímpicos de Tóquio, incluindo malas de bordo e shoulder bags feitas com PET reciclado.
A parceria ajudou a colocar a marca em um ambiente de alta visibilidade. Em vez de vender apenas uma mala ecológica, a empresa passou a associar o produto ao esporte olímpico, à personalização e ao consumo com menor impacto ambiental.
Na época, o COB informou que a venda dos produtos licenciados gerava royalties para a entidade. Para uma empresa pequena, esse tipo de licenciamento funciona como vitrine, mas também exige entrega, padronização, controle de qualidade e capacidade de produção.
A mala virou mídia móvel para empresas que querem aparecer fora da internet
O modelo da Kameleon não ficou preso ao varejo comum. Nos últimos anos, a marca passou a vender a mala personalizada como uma espécie de mídia física. A peça circula em aeroportos, hotéis, eventos, feiras, viagens corporativas e campanhas promocionais.
Em abril de 2026, durante a WTM Latin America, o CEO Luiz Fernando afirmou ao Mercado & Eventos que a empresa atende principalmente o mercado corporativo e vê a mala como “solução de marketing”. Entre os clientes citados estavam empresas de cosméticos como Natura, O Boticário, Avon, L’Oréal e Garnier.
Essa estratégia muda a lógica do negócio. A mala deixa de competir apenas por preço com produtos importados de prateleira e passa a disputar orçamento de marketing, eventos e relacionamento com clientes.
Para empresas, a vantagem está na utilidade. Um brinde comum pode ficar parado em uma gaveta. Uma mala ou mochila personalizada tende a circular por mais tempo, carregando a marca em locais de grande fluxo.
Exportar para Europa e Estados Unidos depende de preço, escala e prova ambiental
A reportagem original apontava que a empresa esperava triplicar o faturamento com exportações para Europa e Estados Unidos. O interesse faz sentido porque esses mercados têm consumidores e empresas mais atentos a produtos reciclados, rastreabilidade e comunicação ambiental.
Mas exportar não depende apenas de uma boa história. A empresa precisa lidar com custos de frete, impostos, certificações, padrões de qualidade, garantia, assistência e concorrência com marcas globais de bagagem. Também precisa provar que o material usado realmente vem de reciclagem pós-consumo.
O câmbio pode ajudar empresas brasileiras em alguns momentos, principalmente quando o produto chega ao exterior com preço competitivo. Ao mesmo tempo, qualquer falha de entrega, acabamento ou documentação pode pesar mais em mercados onde o consumidor espera garantia clara e pós-venda ágil.
O caso mostra um caminho real para pequenas indústrias brasileiras. Reciclagem, personalização e produto útil formam uma combinação mais forte do que vender sustentabilidade como discurso. A garrafa PET, sozinha, não cria valor. O valor aparece quando ela vira um item resistente, bonito, vendável e com demanda concreta.
Você compraria uma mala feita com garrafas PET recicladas se ela tivesse bom acabamento, resistência e preço competitivo? Deixe sua opinião nos comentários e conte se sustentabilidade pesa na sua decisão de compra ou se o preço ainda fala mais alto.

