Sob a água, uma estrutura criada para conter marés extremas muda a rotina de proteção de Veneza e mantém em debate custos, manutenção, impactos ambientais e adaptação climática em uma lagoa historicamente vulnerável.
Veneza usa um sistema de 78 comportas móveis instaladas no fundo da lagoa para reduzir o risco de alagamentos provocados por marés extremas.
Chamado de Mose, sigla em italiano para Módulo Experimental Eletromecânico, o projeto fecha temporariamente as entradas da Lagoa de Veneza quando a previsão indica elevação significativa do nível do mar no Adriático, segundo informações oficiais do sistema Mose e do Ministério da Infraestrutura e dos Transportes da Itália.
A estrutura fica nas três entradas naturais da lagoa, conhecidas como bocas de porto: Lido, Malamocco e Chioggia.
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Ao todo, são quatro linhas de barreiras, já que a entrada de Lido é dividida em dois canais.
Em situação normal, as comportas permanecem deitadas e submersas, encaixadas em estruturas no fundo dos canais.
Quando há previsão de maré alta, o sistema injeta ar comprimido nas comportas, que expulsam a água de seu interior e giram sobre dobradiças fixadas em estruturas de concreto.
Com isso, elas emergem e formam uma barreira temporária entre a lagoa e o Adriático.
Depois da redução da maré, as peças voltam ao fundo e retomam a posição de repouso.
A obra foi planejada para proteger uma cidade que convive com a água desde a origem, mas que passou a enfrentar risco maior com a combinação de subsidência, elevação do nível do mar e eventos meteorológicos intensos.
O maior registro histórico de acqua alta ocorreu em 4 de novembro de 1966, quando a maré chegou a 194 centímetros.
Em 12 de novembro de 2019, o nível atingiu 187 centímetros, segundo o Centro de Previsão e Sinalização de Marés do Município de Veneza.
Como funciona o Mose em Veneza
O Mose não é uma barragem fixa.
A diferença central está no modo de operação: as comportas só aparecem quando há risco de maré alta capaz de provocar alagamentos relevantes.
No restante do tempo, ficam submersas, cheias de água e alojadas no leito dos canais de entrada da lagoa.
Cada comporta tem 20 metros de largura, com comprimento e espessura variáveis conforme a profundidade do ponto onde foi instalada.

O conjunto reúne 21 comportas em Lido-Treporti, 20 em Lido-San Nicolò, 19 em Malamocco e 18 em Chioggia, conforme a divisão técnica do projeto.
A operação envolve cálculo de maré, vento, pressão atmosférica, chuva, vazão dos rios e condições locais da lagoa.
Também precisa considerar o tráfego marítimo, sobretudo em Malamocco, canal usado por embarcações ligadas ao porto.
Por esse motivo, o acionamento depende de previsão meteorológica e coordenação entre equipes técnicas.
O nível de referência informado pelo Ministério da Infraestrutura da Itália para o acionamento é de 110 centímetros em relação ao mareógrafo de Punta della Salute.
Essa cota orienta a operação, mas pode ser ajustada pelas autoridades responsáveis conforme as condições previstas e a necessidade de proteção do centro histórico e de outras áreas lagunares.
A execução técnica exige controle de corrosão, inspeção de dobradiças, monitoramento das estruturas metálicas e manutenção dos sistemas de comando.
Como as comportas passam longos períodos submersas, a conservação dos componentes é parte essencial da operação.
O próprio histórico do projeto mostra que a fase de manutenção passou a ser uma das frentes mais relevantes depois da entrada em funcionamento.

Obra do Mose teve atrasos e investigação
A construção do Mose começou em 2003 e atravessou anos de atrasos, revisões técnicas, aumento de custos, questionamentos ambientais e investigações judiciais.
Ao longo do processo, ambientalistas e especialistas apontaram risco de alteração no equilíbrio da lagoa, enquanto autoridades e defensores da obra sustentaram que Veneza precisava de uma estrutura capaz de conter eventos extremos.
A controvérsia ganhou novo peso em 2014, quando uma investigação sobre corrupção atingiu pessoas ligadas à obra.
Naquele ano, a agência Reuters informou que a operação envolveu políticos, empresários e gestores, incluindo o então prefeito de Veneza, Giorgio Orsoni, colocado em prisão domiciliar sob suspeita de corrupção relacionada ao projeto.
Mesmo com o desgaste político e judicial, o governo italiano manteve a conclusão do sistema.
A justificativa apresentada pelas autoridades era a necessidade de reduzir os impactos das marés altas sobre o patrimônio histórico, a atividade econômica e a vida cotidiana de moradores e trabalhadores da cidade.
O episódio de novembro de 2019 reforçou a pressão por uma resposta operacional.
Naquela ocasião, a água avançou sobre áreas históricas, atingiu a Praça de São Marcos e provocou danos em imóveis, comércios e bens culturais.
O evento ocorreu antes do uso pleno do Mose em situação real de maré alta.
O primeiro acionamento completo em condição real ocorreu em 3 de outubro de 2020.
Naquele dia, as comportas foram erguidas para impedir que a elevação do mar no Adriático se propagasse com a mesma intensidade para dentro da lagoa.
A partir desse teste, o sistema passou a integrar a rotina de proteção da cidade contra a acqua alta.
Barreira móvel já foi acionada cem vezes
Desde a entrada em operação, o Mose foi usado diversas vezes para proteger Veneza de marés altas.
Em 12 de março de 2025, o Ministério da Infraestrutura da Itália informou que as comportas haviam sido erguidas pela centésima vez desde 2020.
Segundo o órgão, os cem acionamentos evitaram danos estimados em mais de 2,6 bilhões de euros à cidade.
A rotina de acionamentos mudou a resposta da cidade aos eventos de maré.
Situações que antes poderiam causar alagamentos em lojas, igrejas, museus, residências e áreas públicas passaram a contar com uma etapa prévia de contenção nas entradas da lagoa.
A Autoridade para a Lagoa de Veneza mantém registros públicos das operações, incluindo acionamentos totais e parciais, definidos conforme as previsões marítimas e meteorológicas.
A frequência de uso também mantém em debate os efeitos da barreira sobre a dinâmica da lagoa.
Cada fechamento reduz temporariamente a troca de água entre a lagoa e o Adriático, além de exigir coordenação com atividades portuárias.
Por isso, a operação busca conciliar proteção urbana, circulação marítima e preservação ambiental.
O custo de implantação e manutenção segue como ponto de acompanhamento público na Itália.
O Webuildvalue menciona valor superior a 6 bilhões de euros ao fim das obras, mas diferentes fontes italianas tratam o custo total com recortes distintos, que podem incluir construção, gestão, manutenção e contratos associados.
Para evitar imprecisão, a informação deve ser atribuída a documentos oficiais específicos quando usada em atualização futura.
Veneza, acqua alta e adaptação climática
O Mose alterou a forma como Veneza enfrenta a acqua alta.
Antes da operação do sistema, a cidade dependia principalmente de alertas, passarelas temporárias e proteções instaladas em portas de lojas, edifícios públicos e residências.
Com as comportas, a contenção pode ocorrer antes de a maré avançar de forma significativa para dentro da lagoa.
A obra, porém, não elimina todos os riscos relacionados à água.
O sistema foi desenvolvido para marés altas, enquanto Veneza também lida com aumento do nível do mar, conservação de edifícios históricos, pressão turística, manutenção urbana e transformações ambientais da lagoa.
Esses fatores exigem políticas permanentes de adaptação, preservação e gestão territorial.
Em dias sem alerta, as comportas ficam fora do campo de visão de moradores e visitantes.
Quando a previsão indica risco de maré elevada, a estrutura submersa se transforma em uma linha temporária de contenção.
O funcionamento depende de tecnologia, previsão meteorológica, manutenção contínua e decisões operacionais tomadas antes da chegada da água ao centro histórico.
Para Veneza, a barreira representa uma etapa da estratégia de proteção, não uma solução isolada para todos os efeitos da mudança climática e da elevação do nível do mar.
A experiência italiana também passou a ser observada por especialistas em cidades costeiras, portos e áreas históricas sujeitas a inundações.
Em uma cidade construída sobre ilhas, canais e fundações antigas, a proteção contra a água passou a depender de uma estrutura que quase sempre permanece invisível.
O desafio agora é manter o sistema em funcionamento, acompanhar seus impactos ambientais e adaptar a gestão da lagoa a cenários de maré cada vez mais complexos.

