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O açúcar pode ficar mais caro? Índia reduz exportações, transforma cana em etanol e enfrenta risco de El Niño, combinação que pode mexer com estoques, preços globais e até obrigar o país a importar o produto

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Escrito por Viviane Alves Publicado em 23/06/2026 às 16:12 Atualizado em 23/06/2026 às 16:15
Açúcar granulado sendo despejado de uma colher em um recipiente, em imagem ilustrativa sobre a redução das exportações de açúcar da Índia e a pressão nos preços globais.
Imagem ilustrativa mostra açúcar sendo despejado em um recipiente, em referência ao cenário de menor oferta global diante da redução das exportações indianas.
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Queda na produção de cana, estoques reduzidos e avanço dos biocombustíveis podem afastar a Índia do comércio internacional e limitar a oferta mundial de açúcar.

Uma mudança relevante no comércio agrícola internacional poderá ocorrer durante as próximas safras.

A Índia pode permanecer praticamente fora do mercado mundial de açúcar por, pelo menos, três anos, segundo representantes do governo, produtores e executivos do setor.

O país já ocupou a posição de segundo maior exportador mundial do produto.

A combinação entre El Niño, redução das chuvas e crescimento da produção de etanol ameaça diminuir a quantidade disponível para exportação.

Milhões de toneladas poderão permanecer fora do mercado internacional. Importadores da Ásia, África e Oriente Médio poderão enfrentar uma oferta mais limitada.

Os preços de referência negociados em Londres e Nova York também poderão continuar pressionados.

Índia restringe exportações para proteger o mercado interno

O açúcar representa um produto economicamente e politicamente sensível na Índia.

O país lidera o consumo mundial, enquanto milhões de famílias utilizam o alimento como fonte acessível de calorias.

A prioridade do governo, nesse cenário, será garantir o abastecimento doméstico antes de liberar novos embarques internacionais.

A Índia exportou, em média, 6,8 milhões de toneladas por ano nas cinco safras encerradas em 2022-23.

Esse volume representou aproximadamente 10% de todas as exportações mundiais de açúcar.

A safra atual registrou cerca de 800 mil toneladas exportadas antes da suspensão dos embarques, válida até 30 de setembro de 2026.

As usinas indianas precisam receber autorização governamental para vender açúcar a outros países.

Nova Délhi poderá suspender as permissões anualmente, sem anunciar oficialmente uma proibição válida durante várias safras.

El Niño ameaça plantações e reduz disponibilidade de água

As condições associadas ao El Niño poderão enfraquecer as chuvas de monção na Índia durante 2026.

A precipitação poderá atingir o menor nível registrado em 11 anos, segundo as projeções apresentadas pelo setor.

As chuvas ficaram mais de 40% abaixo da média em junho, levando diversos agricultores a adiar o plantio de cana.

Produtores também começaram a avaliar culturas que necessitam de menos água, principalmente nas regiões agrícolas de Maharashtra.

Autoridades locais passaram a incentivar o cultivo de:

  • soja;
  • feijão-guandu;
  • outras variedades de leguminosas.

O fornecimento de água para irrigação também foi limitado em determinadas áreas produtoras.

Prakash Naiknavare, diretor-geral da Federação Nacional de Fábricas Cooperativas de Açúcar, alertou para possíveis efeitos na safra de 2027-28.

A redução das plantações poderá comprometer a disponibilidade de cana e diminuir ainda mais a produção indiana.

Infográfico sobre a formação do El Niño, com mapas do Oceano Pacífico, circulação dos ventos, águas quentes e impactos climáticos globais.
Infográfico explica como o enfraquecimento dos ventos alísios aquece o Pacífico e provoca mudanças nos padrões de chuva, seca e temperatura.

Produção de açúcar pode ficar abaixo do consumo

A produção da Índia havia sido inicialmente projetada em 30,95 milhões de toneladas de açúcar.

A estimativa foi posteriormente reduzida para 27,9 milhões de toneladas.

O novo volume ficará abaixo do consumo anual do país, calculado em aproximadamente 28,5 milhões de toneladas.

Os estoques das usinas poderão iniciar a próxima safra, em 1º de outubro, com apenas 3,5 milhões de toneladas.

Rahil Shaikh, diretor-gerente da MEIR Commodities India, afirmou que esse seria o menor nível registrado em mais de três décadas.

A redução dos estoques aumenta a necessidade de priorizar o mercado doméstico e dificulta a retomada das exportações.

Cana ganha espaço na produção de etanol

A Índia também amplia a mistura de etanol na gasolina e incentiva o uso de veículos flex.

O objetivo da política consiste em reduzir a dependência do petróleo importado, responsável por elevados custos para o país.

A demanda indiana por etanol varia atualmente entre 12 bilhões e 13 bilhões de litros.

Estimativas do setor indicam que esse consumo poderá alcançar cerca de 30 bilhões de litros até 2039-40.

A Maruti Suzuki apresentou, em junho de 2026, o primeiro automóvel flex do país.

A Hero MotoCorp também lançou uma motocicleta compatível com combustíveis que apresentam maior concentração de etanol.

O governo eliminou o imposto sobre a produção de gasolina misturada com níveis mais elevados do biocombustível.

Um combustível com até 85% de etanol também foi lançado para apoiar a adoção dos veículos flex.

Índia pode deixar de exportar e passar a importar açúcar

As futuras políticas indianas deverão priorizar a fabricação de etanol em vez das exportações de açúcar.

Uma redução expressiva da área cultivada poderá agravar a situação durante a safra de 2027-28.

A Índia poderá precisar importar açúcar para atender à demanda interna caso o El Niño prejudique intensamente a produção.

Brasil e Tailândia também poderão enfrentar efeitos climáticos, elevando a pressão sobre a oferta internacional.

A ausência simultânea de grandes fornecedores poderá modificar os fluxos mundiais e sustentar preços mais altos durante várias safras.

A Índia deve priorizar a produção de açúcar para proteger os preços ou ampliar o etanol para reduzir sua dependência do petróleo?

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Viviane Alves

Redatora com foco na produção de conteúdos estratégicos voltados para macro e microeconomia, geopolítica, mercado energético, setor automotivo e comércio global.

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