Rajendra Singh trocou a medicina pelos johads no Rajastão e ajudou a devolver água, poços e rios perenes a mais de mil aldeias.
Na década de 1980, a aldeia de Gopalpura, no estado indiano do Rajastão, enfrentava escassez extrema de água, pobreza e desnutrição. Foi nesse cenário que Rajendra Singh chegou em 1985 para atuar com medicina ayurvédica e educação, mas acabou sendo empurrado para uma missão muito maior.
O ponto de virada veio quando um agricultor idoso chamado Mangu Meena lhe disse que a comunidade não precisava primeiro de remédios ou escola, e sim de água. A partir dessa escuta, Singh abandonou a rota original e passou a recuperar os johads, estruturas tradicionais de captação de chuva que haviam sido deixadas de lado na região.
Rajendra Singh chegou como médico e saiu como referência em conservação de água
Quando desembarcou em Gopalpura, Rajendra Singh passou meses oferecendo tratamento para casos de rathondi, a cegueira noturna associada à desnutrição, e também tentou abrir caminho pela educação. Mas a falta de água era tão grave que tornava qualquer solução parcial insuficiente para a aldeia.
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Ao conversar com Mangu Meena, Singh ouviu que o problema central não estava no remédio, mas na ausência do recurso básico que sustentava a vida local. Ele próprio reconheceu que não sabia nada de conservação hídrica, e foi o agricultor quem começou a lhe mostrar, na prática, como a água podia voltar se a comunidade recuperasse o conhecimento tradicional.
A mudança de rota não foi só simbólica. O perfil do Ramon Magsaysay Award registra que Singh havia deixado o emprego em Jaipur e, com companheiros da Tarun Bharat Sangh, seguiu para uma aldeia remota no fim da linha de ônibus, onde começou a mobilizar moradores para reparar e aprofundar antigos johads.
Como os johads ajudam a reter chuva, recarregar aquíferos e salvar poços
Os johads são reservatórios tradicionais de terra usados para capturar a água das monções e retardar seu escoamento. Em vez de deixar a chuva escapar rapidamente, essas estruturas seguram o volume precipitado, favorecem a infiltração no solo e ajudam a recompor a umidade subterrânea.
Esse princípio muda a lógica de regiões semiáridas. Quando a água penetra no terreno em vez de evaporar ou escorrer de forma descontrolada, poços, nascentes e cursos d’água passam a ter mais chance de se recuperar ao longo do tempo.
Foi justamente essa combinação de técnica simples, conhecimento local e trabalho coletivo que deu força ao projeto. O que parecia uma pequena intervenção rural revelou um caminho de restauração hídrica com custo relativamente baixo e capacidade de multiplicação entre aldeias.
A primeira monção mostrou que a água podia voltar ao Rajastão
Depois de recuperar johads antigos, Rajendra Singh e os moradores viram o resultado aparecer já após a primeira monção. Em seu relato ao IDR, ele afirma que, depois de uma única estação chuvosa, poços e aquíferos subterrâneos começaram a ser recarregados, e pequenas nascentes secas voltaram a dar sinais de vida.
O reconhecimento oficial do Ramon Magsaysay Award reforça essa virada ao afirmar que, quando os reservatórios restaurados voltaram a encher, os moradores perceberam que aquelas estruturas abandonadas eram a chave para recuperar o habitat degradado de Alwar. Elas não apenas armazenavam a chuva, mas também recarregavam poços e cursos d’água locais.
A partir daí, a iniciativa deixou de ser uma experiência isolada. Singh passou a levar a mensagem a outras aldeias por meio de mobilização comunitária e campanhas locais, difundindo a ideia de que a segurança hídrica não dependia apenas de grandes obras, mas também da capacidade de cada comunidade de reconstruir sua própria base de água.
Rio Arvari, rios perenes e a recuperação que saiu das aldeias
Um dos marcos mais conhecidos dessa trajetória foi o retorno do rio Arvari. No discurso de aceitação do prêmio Magsaysay, Rajendra Singh afirmou que, em 1996, ficou surpreso ao ver o rio correndo até no pico do verão, depois de anos de construção de estruturas de captação em sua bacia.
Naquele momento, a fundação do prêmio já registrava um impacto muito acima de uma única aldeia: 4.500 johads em funcionamento, atuação em 750 aldeias e cinco rios antes adormecidos voltando a correr o ano inteiro. Anos depois, em entrevista ao IDR, Singh disse que esse tipo de trabalho havia ajudado a revitalizar 12 rios, que se tornaram perenes.
A SIWI, organização responsável pelo Stockholm Water Prize, também resumiu esse alcance ao afirmar que Singh e sua organização, em cooperação com moradores locais, ajudaram a reviver vários rios e a devolver água e vida a mais de mil aldeias.
A volta da água trouxe lavoura, trabalho e nova organização comunitária
O impacto não ficou restrito aos cursos d’água. No perfil oficial do prêmio Magsaysay, a recuperação dos johads aparece associada ao aumento da área cultivada, à elevação da renda agrícola e à redução da necessidade de migração masculina para trabalho fora das aldeias.
Em seu depoimento ao IDR, Rajendra Singh descreve esse processo como uma forma de migração reversa. Quando a água voltou, famílias que haviam saído em busca de emprego foram chamadas de volta, a terra voltou a ser cultivada e a notícia do renascimento das lavouras se espalhou para outros distritos do Rajastão.

A transformação também ganhou forma institucional. O reconhecimento oficial do Magsaysay destaca que surgiram estruturas comunitárias de gestão, incluindo assembleias locais e até um “Parlamento do Rio” no Arvari, voltado a discutir o uso da água entre aldeias.
No mesmo processo, uma ação judicial apoiada por Singh contribuiu para o fechamento de mais de 450 minas que degradavam a ecologia da região.
O Waterman of India virou símbolo global de restauração hídrica
O trabalho de Rajendra Singh ganhou projeção internacional com o Ramon Magsaysay Award, em 2001, e o Stockholm Water Prize, em 2015. O próprio IDR observa que o segundo é frequentemente chamado de “Nobel da água”, o que ajuda a medir o tamanho do reconhecimento alcançado por uma trajetória iniciada numa aldeia esquecida do Rajastão.
A força dessa história está no contraste entre a simplicidade da técnica e a escala do resultado. Em vez de aprofundar a dependência de soluções caras e centralizadas, Singh ajudou a reativar uma tecnologia tradicional baseada em chuva, infiltração, solo e participação comunitária.
Por isso, o legado do chamado Waterman of India ultrapassa a biografia de um único ativista. Ele mostra que restaurar água não significa apenas encher reservatórios, mas reconstruir agricultura, renda, autonomia local e a própria capacidade de uma comunidade permanecer de pé em regiões marcadas pela seca.

