1. Início
  2. / Ciência e Tecnologia
  3. / Helicóptero despeja 180 toneladas de areia e cascalho sobre rio da Suécia para tentar ressuscitar leito destruído por décadas de exploração, recriar berçários aquáticos e transformar pedras lançadas do céu em obra de recuperação ambiental
Tempo de leitura 6 min de leitura Comentários 0 comentários

Helicóptero despeja 180 toneladas de areia e cascalho sobre rio da Suécia para tentar ressuscitar leito destruído por décadas de exploração, recriar berçários aquáticos e transformar pedras lançadas do céu em obra de recuperação ambiental

Escrito por Ana Alice
Publicado em 22/06/2026 às 23:42
Atualizado em 22/06/2026 às 23:44
Assista o vídeoHelicóptero lança areia e cascalho no rio Abramsån para restaurar habitats aquáticos afetados pela exploração madeireira. (Imagem: Ilustrativa)
Helicóptero lança areia e cascalho no rio Abramsån para restaurar habitats aquáticos afetados pela exploração madeireira. (Imagem: Ilustrativa)
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo

Na Nordic Taiga, um rio marcado pela exploração madeireira passa por restauração ecológica com sedimentos transportados por helicóptero, recomposição do leito e monitoramento científico para acompanhar a volta de habitats aquáticos.

O rio Abramsån, afluente do Råneälven localizado cerca de 45 quilômetros ao sul do Círculo Polar Ártico, no norte da Suécia, virou um dos exemplos mais visíveis de restauração fluvial na região da Nordic Taiga.

Depois de décadas de alterações feitas para facilitar o transporte de madeira, a Rewilding Sweden conduz desde 2023 um projeto para devolver ao curso d’água parte da estrutura natural perdida.

A iniciativa combina recolocação de pedras, areia, cascalho e madeira morta, além de monitoramento científico para avaliar a resposta de organismos que vivem no fundo do rio.

Em 2024, uma das etapas mais incomuns do projeto envolveu o transporte aéreo de 180 toneladas de areia e cascalho para trechos já restaurados do Abramsån.

O material foi lançado por helicóptero para acelerar a recomposição de micro-habitats que, segundo o projeto, poderiam levar séculos para se formar novamente por processos naturais.

Restauração do rio Abramsån recupera área afetada pela madeira

A intervenção busca recuperar trechos do alto Abramsån que foram simplificados por antigas obras ligadas à exploração madeireira.

Segundo a Rewilding Sweden, as modificações começaram antes da década de 1880 e incluíram a retirada de pedras, cascalho, madeira morta e outras estruturas naturais que ajudavam a desacelerar a água.

Esses elementos também criavam poços, corredeiras, áreas de desova e abrigos usados por peixes, insetos aquáticos e mexilhões de água doce.

Em algumas áreas, o impacto foi ainda mais intenso.

Estruturas de madeira chegaram a ser instaladas no fundo do rio para permitir que as toras deslizassem com mais facilidade durante o transporte fluvial.

Com isso, o canal ficou mais reto, rápido e pobre em variação ecológica.

A mudança reduziu curvas, remansos, áreas rasas, corredeiras e zonas de contato entre a água e as margens.

O que antes era um rio mais dinâmico passou a funcionar, em vários trechos, como um canal mais simplificado e veloz.

Canalização reduziu habitats no leito do Abramsån

A retirada de grandes pedras e a retificação do curso d’água alteraram a forma natural do Abramsån.

Esse processo, conhecido como canalização, aumentou a velocidade da correnteza e reduziu a diversidade de ambientes no leito.

Em vez de curvas, poços, áreas rasas e corredeiras distribuídas de maneira irregular, o rio passou a correr de forma mais linear.

A alteração atendia à lógica do transporte de madeira, mas modificou condições essenciais para parte da fauna aquática.

Com a correnteza mais rápida, grande parte do sedimento fino que ficaria preso entre rochas, cavidades e áreas de menor velocidade foi levada rio abaixo.

A perda de areia e cascalho reduziu os locais disponíveis para organismos que vivem no fundo.

Também afetou áreas usadas por peixes para reprodução e habitats associados a mexilhões de água doce.

A Rewilding Sweden iniciou em 2023 um esforço de vários anos para restaurar trechos do alto Abramsån.

O trabalho inclui a recuperação da forma e do fluxo natural do rio, com medidas como a recolocação de pedras no leito, a devolução de madeira morta e a reversão de parte das alterações feitas no passado.

A reposição de areia e cascalho entrou como etapa complementar, porque a recomposição natural desse material poderia demorar muito tempo.

Areia e cascalho recriam habitats aquáticos

O material transportado por helicóptero foi distribuído em vários pontos de um trecho já restaurado do Abramsån.

A intenção foi preencher cavidades entre pedras maiores e formar ambientes semelhantes aos encontrados em rios menos alterados pela ação humana.

Ao ocupar frestas, buracos e pequenas áreas de menor correnteza, a areia e o cascalho ajudam a reconstruir uma base física importante para a vida aquática.

Segundo Vebjørn Kveberg Opsanger, doutorando norueguês ligado ao Instituto Norueguês de Pesquisa da Natureza, o NINA, a recomposição desse sedimento pode favorecer principalmente a fauna bentônica.

Algumas espécies também ajudam na filtragem da água.

Ao reconstruir parte dessa base física do ecossistema, o projeto pretende melhorar as condições para a fauna bentônica.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Monitoramento científico acompanha a restauração do rio

A ação no Abramsån também é acompanhada como um experimento de restauração ecológica.

Intervenções com reposição de cascalho já foram realizadas em rios do norte da Suécia.

Antes do lançamento do material, amostras foram coletadas no rio para registrar a composição da fauna bentônica.

O monitoramento foi planejado para continuar em 2025 e 2026.

Um trecho restaurado, mas sem adição de areia e cascalho, deve funcionar como área de controle.

Essa comparação permite avaliar se eventuais mudanças estão relacionadas à reposição de sedimento ou a outras medidas de restauração do canal.

Os efeitos não tendem a aparecer de forma imediata.

A recolonização depende da chegada de organismos vindos de outros trechos ou de rios próximos.

Também depende da permanência do material em áreas adequadas do leito.

Parte da areia e do cascalho pode ser redistribuída pela própria correnteza, processo previsto na dinâmica natural do rio.

Volume de sedimentos se espalha pelo leito restaurado

Embora 180 toneladas representem um volume expressivo, a quantidade se distribui ao longo do leito quando usada para preencher frestas, cavidades e espaços entre pedras.

Por esse motivo, o material foi lançado em diferentes pontos, em vez de concentrado em uma única área.

A operação teve apoio financeiro da EKOenergy, segundo a Rewilding Europe.

Caso o monitoramento indique resultados positivos, a Rewilding Sweden afirma que poderá considerar o uso da mesma técnica em outros trechos do Abramsån e em partes de outros rios restaurados no futuro.

A iniciativa integra uma abordagem chamada pela organização de “waterscape”, ou paisagem aquática.

A proposta é melhorar corredores formados por rios, margens, áreas úmidas e florestas, ampliando a conexão entre o fluxo da água e os ambientes terrestres ao redor.

No Abramsån, as medidas buscam recuperar funções ecológicas afetadas por intervenções humanas feitas para a exploração florestal.

Entre os objetivos citados pela Rewilding Europe estão a ampliação de habitats para insetos aquáticos, a melhora de áreas de desova, o favorecimento de moluscos filtradores e a retomada de processos naturais no leito do rio.

O objetivo, segundo a Rewilding Sweden, não é reconstruir o Abramsån como ele era em uma data específica do passado.

A proposta é devolver ao rio suas ferramentas naturais: estrutura, dinâmica e conexão com a paisagem ao redor.

Com a água novamente capaz de moldar o próprio curso, o projeto pretende favorecer a recuperação gradual do vale do Råneälven.

A operação mostra uma característica recorrente em projetos de restauração ambiental: o uso de equipamentos e planejamento técnico para tentar restabelecer condições físicas que permitam ao ecossistema retomar processos naturais.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
Ir para o vídeo em destaque
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x