Estudo internacional baseado em recifes naturais da Papua Nova Guiné mostra que o aumento contínuo do dióxido de carbono deve reduzir a recuperação dos corais, simplificar a estrutura ecológica dos recifes e favorecer a dominância de algas carnudas nos oceanos até o ano de 2100
Um estudo internacional publicado em novembro de 2025 analisou recifes de coral na Papua Nova Guiné e concluiu que o aumento do dióxido de carbono pode, até 2100, reduzir a recuperação dos recifes, diminuir sua complexidade ecológica e favorecer a dominância de algas carnudas em ecossistemas marinhos tropicais.
Acidificação dos oceanos e mudanças projetadas até 2100
Até o ano de 2100, espera-se que o aumento dos níveis de dióxido de carbono altere profundamente a química dos oceanos. Segundo o estudo, essa mudança pode comprometer a recuperação natural dos recifes de coral e favorecer ecossistemas dominados por algas carnudas.
À medida que o oceano absorve CO2 da atmosfera, a água do mar torna-se mais ácida. Esse processo pode erodir lentamente o calcário que forma os esqueletos dos corais, reduzindo sua capacidade de crescimento e sobrevivência ao longo do tempo.
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Os oceanos são ligeiramente alcalinos, com pH médio de 8,0, mas a acidez já aumentou cerca de 30%. Com o aumento contínuo das emissões de CO2, projeta-se uma redução adicional para pH 7,8 até o ano de 2100.
Um laboratório natural na Papua Nova Guiné
Para compreender como recifes inteiros respondem à acidificação ao longo do tempo, pesquisadores analisaram ambientes raros localizados próximos a vulcões submarinos rasos na Papua Nova Guiné. Nessas áreas, o CO2 escapa naturalmente do fundo do mar.
Esses locais apresentam níveis elevados de dióxido de carbono semelhantes aos esperados para os oceanos futuros. Por isso, funcionam como laboratórios naturais para observar respostas ecológicas de longo prazo em condições reais, algo difícil de reproduzir em tanques ou simulações computacionais.
A pesquisa foi liderada por uma equipe do Instituto Australiano de Ciências Marinhas, que investigou comunidades completas de recifes expostas a diferentes níveis de CO2 ao longo de um gradiente ambiental contínuo.
Descoberta do sítio de pesquisa e início do estudo
Em 2000, durante pesquisas em Milne Bay, cerca de 500 km a leste de Port Moresby, a pesquisadora Katharina Fabricius observou bolhas de gás emergindo entre os recifes de coral. Na época, o fenômeno não estava associado à acidificação.
Em 2009, com o avanço das discussões sobre acidificação dos oceanos, Fabricius analisou amostras do gás e constatou que se tratava de CO2 quase puro. Essa descoberta abriu caminho para um programa de pesquisa de uma década.
O cenário permitiu estudar como ecossistemas marinhos tropicais se adaptam e como organismos se aclimatam após gerações de exposição prolongada a altos níveis de dióxido de carbono.
Corais resistentes e limites de tolerância ecológica
O estudo identificou que apenas espécies de corais mais resistentes conseguem sobreviver em áreas com acidificação severa, onde o pH é inferior a 7,7. Essas condições são previstas quando as concentrações atmosféricas de CO2 atingem cerca de 1000 ppm.
Mesmo nesses ambientes, os recifes deixam de existir como sistemas complexos. A diversidade estrutural diminui, e algas carnudas passam a dominar o espaço antes ocupado por corais e algas calcíferas.
Segundo a autora sênior do estudo, esses ambientes funcionam como uma “máquina do tempo”, permitindo observar hoje os limites de tolerância dos recifes diante de cenários futuros de emissões de CO2.
Resultados ao longo do gradiente de CO2
Os pesquisadores estudaram organismos em 37 locais distribuídos ao longo de um gradiente de exposição ao CO2 de aproximadamente 500 metros. Isso possibilitou observar mudanças graduais nas comunidades de recifes.
Os dados mostram que não ocorre um colapso repentino ou um ponto de inflexão abrupto. Em vez disso, à medida que o CO2 aumenta, algas carnudas tornam-se progressivamente dominantes, substituindo e sufocando corais.
Essa transição ecológica gradual resulta em menor diversidade, redução da complexidade do habitat e menor capacidade de recuperação dos recifes após distúrbios ambientais.
Redução da reprodução e impactos em cadeia
Outro achado relevante foi a presença significativamente menor de corais jovens nas áreas mais acidificadas. Isso indica que os recifes não conseguem crescer nem se recuperar rapidamente sob altos níveis de CO2.
Essa limitação tem implicações diretas para outras espécies. Muitos peixes utilizam recifes de coral como abrigo e fonte de alimento nas fases iniciais de vida, o que afeta cadeias ecológicas inteiras.
Segundo os pesquisadores, comunidades costeiras humanas também podem ser impactadas, pois dependem desses peixes para subsistência e atividades econômicas, ampliando o alcance das mudanças observadas.
Desafios logísticos e relevância científica
O acesso aos recifes estudados é complexo, exigindo voo internacional, deslocamento interno até a província de Milne Bay e cerca de seis horas de barco. Apesar disso, a equipe realizou observações de campo detalhadas ao longo de vários anos.
Os recifes da região são descritos como ecologicamente ricos, e a colaboração com a população local foi essencial para o desenvolvimento da pesquisa. O estudo reuniu dados de campo considerados únicos em escala global.
A investigação é apontada como a primeira do gênero a avaliar, em condições reais, como comunidades inteiras de recifes de coral mudam diante da acidificação dos oceanos, oferecendo evidências diretas e não apenas projeções modeladas.
Projeções para o futuro dos recifes
Os resultados indicam que mudanças já observadas em gradientes de CO2 na Grande Barreira de Corais podem se intensificar. Os recifes da Papua Nova Guiné funcionam como um indicativo do que pode ocorrer em outras regiões.
Quanto maiores forem as emissões de CO2 na atmosfera, maiores tendem a ser as transformações nos recifes de coral e nas comunidades costeiras que deles dependem, somando-se aos efeitos do aquecimeto global e da elevação do nível do mar.
O estudo, publicado na revista Communications Biology em 24 de novembro de 2025, reforça que a acidificação dos oceanos é um problema global ainda pouco estudado, mas com impactos ecológicos profundos e progressivos.
