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No interior do Tocantins, uma ex-comerciante largou o balcão do mercadinho, embrenhou-se no Cerrado e transformou buriti, pequi e cagaita frutos que apodreciam no chão da roça em uma fábrica de polpas registrada no Ministério da Agricultura que hoje alimenta a merenda escolar e virou vitrine da FAO/ONU

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 12/07/2026 às 21:21 Atualizado em 12/07/2026 às 21:23
No interior do Tocantins, uma ex-comerciante largou o balcão do mercadinho, embrenhou-se no Cerrado
No interior do Tocantins, uma ex-comerciante largou o balcão do mercadinho, embrenhou-se no Cerrado
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Vayrene Milhomem da Silva trocou o comércio pela terra e criou, no Cerrado de Barrolândia (TO), a Font’Fruit Polpas Naturais. Com frutos nativos que antes se perdiam, ergueu uma agroindústria familiar registrada no Ministério da Agricultura, que abastece escolas e virou destaque da FAO na campanha das mulheres rurais.

Há histórias que nascem, literalmente, do chão. No coração do Cerrado tocantinense, a agricultora Vayrene Milhomem da Silva pegou frutos nativos que apodreciam na roça e os transformou em uma agroindústria de polpas. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a trajetória dela virou símbolo de determinação no interior do Tocantins.

Antes de se tornar produtora, Vayrene tinha um mercado local. Mas, ao herdar dos pais uma propriedade rural, trocou o balcão pela terra e nunca mais saiu. Hoje, à frente da Font’Fruit Polpas Naturais, no município de Barrolândia, ela comanda com a família uma fábrica que aproveita a riqueza do bioma e chega até a merenda das escolas.

Do mercadinho para o coração do Cerrado

uma ex-comerciante largou o balcão do mercadinho, embrenhou-se no Cerrado e transformou buriti, pequi e cagaita frutos que apodreciam no chão da roça em uma fábrica de polpas registrada
uma ex-comerciante largou o balcão do mercadinho, embrenhou-se no Cerrado e transformou buriti, pequi e cagaita frutos que apodreciam no chão da roça em uma fábrica de polpas registrada

A virada de chave aconteceu há cerca de vinte anos, quando Vayrene recebeu de herança dos pais, também agricultores, uma área de 135,5 hectares hoje conhecida como Fazenda São Jorge, em Barrolândia (TO).

Comerciante até então, ela decidiu fincar raízes no campo e nunca mais voltou atrás apostando justamente nas frutas nativas que crescem espalhadas pelo Cerrado.

O que começou como uma escolha de vida virou negócio de família.

Toda a operação da Font’Fruit é tocada pelos Milhomem, da colheita e do processamento até a venda em feiras livres, entregas em domicílio e nos chamados mercados institucionais.

É a família inteira envolvida em transformar fruta do sertão em renda.

Frutos que apodreciam no chão viraram polpa

A ideia de processar frutos nativos surgiu de uma constatação simples: a região é rica em frutos de sabores exóticos e altamente nutritivos que, antes, se perdiam no chão da roça.

Buriti, murici, pequi, cagaita, araçá-boi e tamarindo são alguns dos frutos do Cerrado que, além de saborosos, têm propriedades nutracêuticas muito valorizadas por quem consome.

Da matéria-prima que sobrava, nasceu variedade. Hoje a agroindústria processa uma longa lista de polpas goiaba, mangaba, manga, acerola, caju, buriti, araçá-boi, tamarindo, murici, pequi, cagaita, cupuaçu, abacaxi, graviola e maracujá, combinando o cultivo próprio de frutas como banana e acerola com o extrativismo sustentável de espécies típicas do Cerrado, como pequi, cajuí e cagaita.

Um bezerro de cada vez: como a fábrica nasceu

O sonho, porém, esbarrou na falta de dinheiro. Mesmo cercada de riqueza natural, Vayrene não tinha capital para investir.

A saída foi ir de pouco em pouco: primeiro comprou uma despolpadeira e passou a processar os frutos da própria terra; depois, a cada dois meses, comprava um bezerro, para que a venda futura dos animais financiasse aos poucos a construção da agroindústria.

Foi assim, com o dinheiro dos primeiros bezerros vendidos, que a família ergueu a sede da indústria e foi equipando e melhorando a estrutura com o tempo.

O ponto alto veio foi divulgado em 2020 pelo portal Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em meados de maio, quando a Font’Fruit finalmente conquistou o registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) o carimbo que faltava para vender em escala e com segurança.

Da roça para a merenda escolar

O registro abriu as portas dos mercados institucionais, e é aí que a produção do Cerrado encontra a escola.

A Font’Fruit é apoiada pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), políticas que compram da agricultura familiar para abastecer, entre outros destinos, a merenda de estudantes da rede pública.

Nada disso teria saído do papel sem parceria. A Secretaria Municipal de Agricultura de Barrolândia e a Secretaria da Agricultura, Pecuária e Aquicultura do Tocantins esta por meio da Gerência de Fomento à Agroindústria foram decisivas para a adequação do registro sanitário e da planta industrial, etapas essenciais para regularizar de vez a empresa.

Mulheres rurais do Cerrado como protagonistas

A história de Vayrene não é um caso isolado. Muitas mulheres rurais de Barrolândia também vivem do extrativismo sustentável dos frutos do Cerrado, e é nelas que a produtora pensa quando fala em futuro.

“Desejo ver as mulheres rurais e as famílias da minha região como vencedoras dos desafios da produção agrícola e extrativista”, resume.

Como tesoureira da Associação dos Produtores Rurais e Gastronômicos de Paraíso-TO (AFEIPAR), que reúne 45 associados, ela tenta ser exemplo de determinação.

Foi essa trajetória que chamou a atenção das Nações Unidas. O caso de Vayrene integra a ação “15 dias de iniciativas transformadoras”, parte da campanha #MulheresRurais, mulheres com direitos, promovida pela FAO.

A iniciativa reúne histórias de agricultoras guardiãs da terra, líderes e empreendedoras, e se encerra em 15 de outubro, quando se celebra o Dia Internacional das Mulheres Rurais.

Pandemia, delivery e os próximos passos

Como quase todo pequeno negócio, a Font’Fruit também sentiu o baque da pandemia de Covid-19. Com o comércio travado, ficou mais difícil escoar as polpas, mesmo com a produção dos frutos do Cerrado seguindo firme.

Para não deixar a renda da família ruir, o Ruraltins (Instituto de Desenvolvimento Rural do Estado do Tocantins) montou uma rede de delivery para divulgar e vender os produtos, ajudando a manter o sustento dos Milhomem e de outras famílias da região.

Passado o pior, o olhar de Vayrene segue adiante. A meta agora é ampliar a área cultivada hoje de 1,5 alqueire e modernizar a produção.

“Vamos introduzir o sistema de irrigação e técnicas de produção que viabilizem a maior produtividade”, planeja. Ela também aposta em mais políticas públicas que sustentem tanto o seu negócio quanto o das demais famílias agrícolas e extrativistas que vivem do Cerrado.

E você, conhecia essa força escondida no Cerrado?

De ex-comerciante a referência da agroindústria familiar reconhecida pela ONU, Vayrene provou que os frutos do Cerrado que antes apodreciam no chão podem virar renda, comida na escola e orgulho para toda uma região.

Você já provou polpa de buriti, pequi ou cagaita? Conhece histórias de mulheres rurais que, como ela, transformaram a própria realidade no campo? Conte pra gente nos comentários e ajude a espalhar essa inspiração.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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