Na lagoa de Ghar El Melh, o sistema agrícola Ramli aproveita uma reserva subterrânea de água doce para irrigar batatas, cebolas e feijões plantados na areia. Criada no século XVII, a técnica dispensa bombas, mas exige controle preciso do solo para impedir que o sal alcance as raízes.
Agricultores da Tunísia plantam batatas sobre areia cercada por água salgada e colhem até 30 toneladas por hectare. O resultado vem de uma técnica que transforma chuva e marés em um sistema natural de irrigação.
As raízes não recebem água do mar. Elas alcançam uma fina reserva subterrânea de água doce, formada pela chuva e mantida acima da água salgada por causa da diferença de densidade.
A informação foi publicada pela FAO, agência das Nações Unidas para alimentação e agricultura. A entidade apresenta o sistema Ramli como uma forma de produção adaptada à falta de terra fértil e à pouca disponibilidade de água doce.
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Água doce fica sobre a salgada e alimenta as raízes
A água da chuva entra na areia e forma uma reserva subterrânea. Como é menos densa, a água doce permanece sobre a camada salgada ligada à lagoa e ao mar.

Essa reserva não aparece como rio, canal ou poça na superfície. Ela fica escondida entre os grãos de areia, próxima da região alcançada pelas raízes.
Quando a maré muda de nível, a água existente abaixo das plantações também se movimenta. Esse processo faz a água doce subir pela areia e manter o solo úmido sem bombeamento artificial.
A irrigação natural depende da combinação entre chuva, areia e maré. Por isso, os agricultores não precisam lançar água diretamente sobre cada plantação.
Um erro na altura do canteiro pode comprometer a produção
O sistema Ramli exige cuidado constante com a altura das parcelas. O canteiro não pode ficar distante demais da reserva de água doce nem próximo demais da água salgada.
Quando o terreno fica alto demais, as raízes não alcançam a umidade necessária. Quando fica baixo demais, o sal pode chegar às plantas e prejudicar o cultivo.
Os agricultores corrigem o nível das parcelas acrescentando areia e esterco animal. Esse trabalho mantém as raízes dentro da faixa adequada para receber água doce.

Drenos também ajudam a retirar o excesso de água nas áreas costeiras. Barreiras de juncos, árvores e arbustos reduzem a força dos ventos, seguram a areia e protegem as plantações da água salgada carregada pelo ar.
Batatas chegam a 30 toneladas por hectare
A produtividade mostra a importância econômica da agricultura Ramli para os pequenos produtores de Ghar El Melh. As batatas apresentam rendimento entre 22 e 30 toneladas por hectare.
As cebolas alcançam entre 28 e 33 toneladas por hectare. O rendimento dos feijões varia entre 3,6 e 7 toneladas por hectare.
A FAO, agência das Nações Unidas para alimentação e agricultura, reuniu os dados de produtividade das parcelas. Os números mostram que a plantação na areia consegue manter uma produção expressiva sem irrigação artificial.
Batatas, cebolas e feijões abastecem o mercado local. Também são cultivados tomates, alho, melão, melancia, abobrinha e abóbora.
Sistema Ramli foi criado no século XVII
A técnica surgiu no século XVII, quando comunidades vindas da Andaluzia chegaram a uma região com pouca terra própria para agricultura e limitada oferta de água doce.
Em vez de tentar afastar completamente o mar, os agricultores organizaram parcelas arenosas nas margens e nas faixas de terra que cercam a lagoa. O cultivo passou a usar a posição natural da água doce sobre a salgada.
A produção permanece concentrada em pequenas propriedades. 81% das propriedades possuem menos de cinco hectares, o que mostra a ligação do sistema com agricultores locais.
O conhecimento necessário envolve observar a chuva, acompanhar a maré e ajustar o nível dos canteiros. A produção depende tanto do trabalho no solo quanto das condições naturais da lagoa.
Elevação do mar e contaminação ameaçam as plantações
A agricultura Ramli funciona dentro de um equilíbrio ambiental delicado. A elevação do nível do mar pode aproximar a água salgada das raízes e reduzir o espaço ocupado pela reserva de água doce.
A urbanização também pressiona as áreas cultiváveis próximas à lagoa. A ocupação dessas faixas diminui o espaço disponível para manter as parcelas arenosas.

Outro problema é a contaminação da lagoa. Como a água, o solo e as plantações estão ligados, a perda da qualidade ambiental pode atingir diretamente a produção agrícola.
A conservação da região protege os alimentos, a atividade dos agricultores e o próprio sistema de irrigação natural. Sem a lagoa preservada, a combinação que mantém água doce perto das raízes pode perder eficiência.
Técnica não pode ser aplicada em qualquer praia
Plantar na areia não é suficiente para reproduzir o sistema Ramli. O local precisa armazenar água da chuva sobre uma camada salgada e permitir que a maré movimente essa reserva até a região das raízes.
A altura do terreno, o tipo de areia e a posição da água precisam trabalhar juntos. Fora dessas condições, as raízes podem ficar secas ou receber sal em excesso.
O sistema também depende do conhecimento acumulado pelos agricultores desde o século XVII. Eles ajustam cada parcela para conservar a umidade sem permitir que a água salgada comprometa a plantação.
A agricultura Ramli mostra como uma estrutura simples pode manter a produção de alimentos sem bombas ou irrigação artificial. Ao mesmo tempo, sua continuidade depende da preservação da lagoa e do controle preciso dos canteiros.
Uma técnica tão dependente do equilíbrio natural conseguiria sobreviver ao avanço do mar e das cidades? Deixe sua opinião e compartilhe a publicação.
