Em Fayetteville, na Geórgia, o data center de IA da QTS, empresa do grupo Blackstone, usou 29 milhões de galões através de duas conexões que a concessionária nem sabia que existiam. Cobrança retroativa: US$ 147 mil. Multa: zero. Justificativa do condado: “Eles são nosso maior cliente, precisamos ser parceiros”.
Os moradores da subdivisão Annelise Park, em Fayetteville (Geórgia, Estados Unidos), começaram a notar pressão baixa na água no ano passado. Ao mesmo tempo, recebiam alertas oficiais do condado pedindo que parassem de regar o gramado para economizar, em meio a uma seca classificada como severa a excepcional pelo monitor oficial dos EUA. Quando o sistema de água do condado de Fayette investigou a causa da pressão caindo, encontrou algo que ninguém esperava: um campus de data center 20 milhas ao sul de Atlanta tinha consumido, ao longo de até 15 meses, cerca de 29 milhões de galões através de duas conexões industriais que a concessionária sequer sabia que existiam. O volume é equivalente a 44 piscinas olímpicas ou aproximadamente 110 milhões de litros. A construtora, Quality Technology Services (QTS), empresa controlada pelo grupo Blackstone, foi notificada em maio de 2025 e pagou US$ 147.474 em cobrança retroativa. Multa, por sua vez, zero. A justificativa oficial veio da diretora do sistema de água do condado, Vanessa Tigert, em entrevista à Politico publicada em 9 de maio de 2026: “Eles são nosso maior cliente, e precisamos ser parceiros. Isso se chama atendimento ao cliente”.
O caso veio à tona depois de um morador conseguir, por requisição de transparência pública, a carta de cobrança da concessionária e postar no Facebook.
O que você vai entender neste texto
- O paradoxo que ficou claro quando os números cruzados foram divulgados.
- O que são 29 milhões de galões em termos comparáveis.
- Por que o condado se recusou a multar a empresa.
- O que essa história revela sobre o que está acontecendo em outras 50 cidades dos EUA.
- Por que o caso interessa diretamente ao Brasil, que vive seu próprio boom de data centers.
O paradoxo, em números

Aqui está o que torna o caso especialmente sensível.
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Conforme POLITICO, o mesmo período em que o data center da QTS sugava 29 milhões de galões sem ser cobrado, o condado de Fayette publicava avisos pedindo aos moradores que reduzissem o consumo doméstico. As recomendações incluíam suspender a rega de gramados, evitar a lavagem de carros e reduzir o tempo de banho. A justificativa oficial era a seca histórica que atinge toda a Geórgia. Em abril de 2026, o governador Brian Kemp chegou a declarar estado de emergência por causa dos incêndios florestais agravados pela falta de chuva.
Enquanto isso, a poucos quilômetros das casas de Annelise Park, o equivalente a 44 piscinas olímpicas escoava por dois tubos industriais sem registro contábil.
A diretora do sistema de água, Vanessa Tigert, explicou o erro à Politico e a outros veículos americanos como um “descompasso administrativo” causado pela transição da concessionária para medidores inteligentes. Segundo ela, uma das conexões havia sido instalada sem que a concessionária soubesse. A outra existia, mas não estava associada à conta do cliente, ou seja, não gerava cobrança. O resultado foi uma janela de tempo entre 4 e 15 meses (o condado fala em 4, a QTS admite até 15) em que o consumo simplesmente desapareceu do sistema de faturamento.
“Eles são nossos parceiros”

E aqui está o segundo ponto que indignou os moradores.
Mesmo depois de confirmado o consumo não medido, o condado decidiu não aplicar multa. A justificativa, repetida por Vanessa Tigert em várias entrevistas, é direta: a QTS é a maior consumidora de água do condado, gera entre US$ 150 e US$ 200 milhões anuais em arrecadação de impostos prediais para a cidade de Fayetteville, e o relacionamento precisa ser “de parceria”.
A QTS é controlada pela Blackstone, um dos maiores grupos de private equity do mundo, com mais de US$ 1 trilhão em ativos sob gestão. A empresa pagou os US$ 147 mil retroativos imediatamente após a notificação. Em comunicado oficial enviado a veículos americanos, a QTS afirmou que o consumo não medido aconteceu durante a transição da concessionária para o sistema de medidores inteligentes e que, assim que notificada, regularizou a situação.
O que ninguém explica é como uma das duas tomadas de água industrial foi instalada sem o conhecimento da concessionária.
A escala do complexo

Para entender por que o consumo cresceu tanto, é preciso entender o tamanho do empreendimento.
O campus da QTS em Fayetteville ocupa 615 acres, o equivalente a aproximadamente 250 hectares, ou cerca de 350 campos de futebol. Atualmente tem 13 edifícios já erguidos, somando cerca de 6,2 milhões de pés quadrados, ou seja, em torno de 575 mil metros quadrados de área construída. O plano original prevê até 16 prédios. É um dos maiores complexos de data center em construção nos Estados Unidos.
A operação está apenas parcialmente funcional. A construção deve durar mais três a cinco anos. Segundo a QTS, o consumo de água diminuirá quando a obra terminar. Mas, mesmo após a inauguração total, data centers de inteligência artificial continuam usando volumes substanciais de água para resfriamento dos servidores, especialmente nos meses mais quentes.
E aqui entra um dado que costuma chocar quem nunca olhou para o setor por dentro.
Quanto um data center bebe

Data centers consomem água essencialmente para resfriar seus servidores, que esquentam ao processar dados em alta velocidade. O cálculo padrão da indústria estima entre 1 e 5 litros de água por kWh de eletricidade consumida, dependendo do sistema de resfriamento e do clima da região. Em data centers que usam resfriamento evaporativo (mais barato, mas mais sedento), o consumo sobe.
Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Riverside calcularam, em estudo publicado em 2023 e atualizado em 2025, que cada interação média com um modelo de linguagem como o ChatGPT consome o equivalente a meio litro de água, considerando todo o ciclo do data center mais a geração elétrica que o sustenta. Para os campos de IA generativa que estão sendo construídos hoje, o número pode subir ainda mais.
Não por acaso, a Geórgia já é o segundo estado americano com maior concentração de data centers (mais de 200 instalações), atrás apenas da Virgínia. E é também um dos estados que mais sofrem com seca crônica.
A reação política em curso
A história não está apenas em Fayetteville. Há uma onda americana de pushback contra data centers.
Pelo menos 50 cidades dos Estados Unidos têm hoje proibições ativas a novos data centers, segundo o U.S. Data Center Moratorium Tracker. Quatro adotaram proibição permanente. Em janeiro de 2026, a câmara municipal de Fayetteville aprovou a Ordenança 26-0-12, que proíbe a construção de novos data centers em todos os distritos de zoneamento da cidade. No mesmo mês, a comissão de planejamento da cidade rejeitou um projeto da Crow Holdings, que depois retirou o recurso em março.
Em outros lugares, a reação foi ainda mais política. Em uma pequena cidade do Missouri, em 2026, os eleitores tiraram todos os vereadores que tinham aprovado um projeto de data center de IA. Em Iowa, autoridades estaduais descobriram, no ano passado, que a própria QTS havia perfurado 40 poços não licenciados em um data center em Cedar Rapids. Ou seja, o caso da Geórgia não é a primeira violação da empresa.
A Public Service Commission da Geórgia também tomou medidas. Congelou as tarifas-base da Georgia Power até 2028, especificamente para impedir que os custos elétricos dos novos data centers sejam transferidos aos consumidores residenciais. É um reconhecimento implícito de que a corrida da IA estava começando a pesar no bolso de quem nem usa o serviço.
Por que isso importa no Brasil
E aqui está o ponto que conecta a história ao leitor brasileiro.
O Brasil vive seu próprio boom de data centers. Empresas como Microsoft, Amazon Web Services, Google e ScalaHub anunciaram investimentos somando dezenas de bilhões de reais em novos complexos no país nos últimos dois anos. Os polos preferidos estão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e, mais recentemente, no estado de Goiás. O motivo é geográfico e regulatório: o Brasil tem energia barata, em parte renovável, terras disponíveis e regulamentação ainda em fase inicial para grandes empreendimentos digitais.
A inflexão atual coincide com pelo menos três crises hídricas relevantes no país nos últimos cinco anos, incluindo a histórica de 2021 no Sudeste, que levou ao retorno das bandeiras tarifárias vermelhas. Em paralelo, especialistas em recursos hídricos vêm apontando que o consumo de água de data centers, embora pequeno em proporção à agricultura, é altamente concentrado em pontos específicos do território. Um data center pode, sozinho, esgotar reservas de aquíferos locais ou comprometer sistemas urbanos de menor porte.
O caso de Fayetteville mostra o que acontece quando o monitoramento falha e a fiscalização afrouxa. Mostra também o que acontece quando o desequilíbrio de poder entre uma empresa controlada por um fundo de US$ 1 trilhão e um sistema municipal de água é tão grande que a multa, mesmo cabível, é trocada por “atendimento ao cliente”.
Para o Brasil, que ainda regulamenta seu próprio modelo de fiscalização e tributação de data centers, a lição vem com o número exato: 44 piscinas olímpicas.
O que vai acontecer agora
A QTS afirma que regularizou todas as conexões e que os medidores estão integrados ao sistema do condado. Garante que o consumo de água será menor depois da fase de construção, prevista para terminar até 2031. Mas a maior parte das críticas dos moradores diz respeito ao próprio funcionamento futuro do complexo, e não apenas à obra. Quando os 16 prédios estiverem ativos, o consumo se converterá em demanda contínua de resfriamento.
Em paralelo, mais ações administrativas devem chegar à Justiça americana nos próximos meses. Discussões no fórum financeiro Motley Fool já chamavam o caso, em comentários da semana passada, de “candidato natural a class action”. Os moradores de Annelise Park ainda não anunciaram processo coletivo, mas advogados especializados em direito ambiental e regulatório começam a tratar o caso como precedente nacional. Para os que defendem a indústria, é uma falha administrativa pontual de um condado com sistema antigo. Para os críticos, é o sintoma de uma equação econômica e política que faz, hoje, a água doce dos Estados Unidos parecer cada vez menos democrática.
E o número que define o tamanho da disputa segue ali, sólido e pouco discutido: 44 piscinas olímpicas.
