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Netanyahu anuncia fim em 10 anos dos US$ 3,8 bilhões que Israel recebe por ano em ajuda dos EUA

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 11/05/2026 às 18:46
Atualizado em 11/05/2026 às 18:49
Netanyahu anuncia em entrevista à CBS o fim em 10 anos dos US$ 3,8 bilhões que Israel recebe por ano dos EUA. Plano prevê transição até 2035 e indústria própria.
Netanyahu anuncia em entrevista à CBS o fim em 10 anos dos US$ 3,8 bilhões que Israel recebe por ano dos EUA. Plano prevê transição até 2035 e indústria própria.
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Em entrevista ao programa “60 Minutes” da CBS exibida em 10 de maio, o premiê israelense propôs um corte gradual em dez anos. Acordo atual, assinado em 2016, expira em 2028. Movimento aproxima Israel da mesma lógica de soberania industrial que o Brasil persegue com a SIATT.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, anunciou em entrevista ao programa “60 Minutes” da rede americana CBS, transmitida em 10 de maio de 2026, a intenção de eliminar gradualmente a ajuda militar dos Estados Unidos a Israel ao longo dos próximos dez anos. O atual Memorando de Entendimento entre os dois países, assinado em 2016 durante o governo Barack Obama, prevê o repasse de US$ 3,8 bilhões anuais a Israel, valor que se converte em torno de R$ 21 bilhões pela cotação atual, e expira em 2028. A proposta de Netanyahu é cumprir os três anos finais do acordo e, em seguida, reduzir os repasses a zero ao longo dos sete anos seguintes. Em valores acumulados, a transição representa o fim de pelo menos US$ 38 bilhões em ajuda americana ao longo da próxima década. “Queremos passar com os Estados Unidos da ajuda para a parceria”, afirmou Netanyahu na entrevista, transmitida no mesmo domingo em que Tel Aviv e Washington discutiam, separadamente, os próximos passos das operações conjuntas no Oriente Médio, segundo UNN.

E há um detalhe nessa equação que muda o sentido completo do anúncio.

O que você vai entender neste texto

  • Quanto, exatamente, Israel recebe hoje em ajuda militar americana e por que parte dela nunca chega a sair dos Estados Unidos.
  • Por que Netanyahu apresenta o fim da ajuda como vantagem para Israel, e não como concessão.
  • Como a queda da aprovação americana a Israel acelera o movimento.
  • Qual é o paralelo direto com a indústria de defesa brasileira, e por que ele importa.
  • O que muda no equilíbrio do Oriente Médio se a transição se concretizar.

Os US$ 3,8 bilhões que voltam para os EUA

Netanyahu anuncia em entrevista à CBS o fim em 10 anos dos US$ 3,8 bilhões que Israel recebe por ano dos EUA. Plano prevê transição até 2035 e indústria própria.

Aqui está o dado que mais surpreende.

O acordo de 2016 entre Estados Unidos e Israel prevê o repasse anual de US$ 3,8 bilhões a Tel Aviv em ajuda militar. Mas há uma cláusula técnica que muda completamente a leitura do número. Segundo a agência Reuters e o portal especializado IDNFinancials, a maior parte desses recursos não é entregue em dinheiro vivo ao governo israelense. Ela retorna aos próprios Estados Unidos, em forma de pagamento por equipamento militar fabricado em solo americano, comprado obrigatoriamente por Israel das empresas Boeing, Lockheed Martin, Raytheon e General Dynamics.

Em outras palavras, a “ajuda” funciona, na prática, como um financiamento condicionado ao consumo de armamentos americanos. Tanques, mísseis, caças F-35, peças de helicóptero, sistemas eletrônicos. Tudo precisa ser comprado de fornecedores dos EUA.

Foi isso que Netanyahu chamou, sem cerimônia, de “obstáculo”.

A leitura dele, segundo a entrevista ao “60 Minutes”, é a seguinte. A obrigação de gastar nos Estados Unidos impede Israel de fortalecer a própria base industrial de defesa. Cada dólar gasto em Tel Aviv com uma empresa americana é um dólar que não vai para a Rafael, a Elbit Systems ou a Israel Aerospace Industries (IAI), os três pilares do complexo militar-industrial israelense. E, na conta de Netanyahu, isso virou um problema estratégico.

A economia que mudou o cálculo

Há um segundo ponto, e ele é menos ideológico do que parece.

A economia israelense cresceu muito ao longo da última década, mesmo com guerras intermitentes e crises políticas internas. Em 2024, o PIB de Israel ultrapassou US$ 530 bilhões. A renda per capita superou a de vários países da Europa Ocidental, incluindo França e Reino Unido. O setor de tecnologia, sobretudo cibersegurança e inteligência artificial, virou um dos maiores exportadores do país. Em paralelo, as exportações israelenses de armamentos bateram recorde sucessivos, com vendas que ultrapassaram US$ 13 bilhões em 2024, segundo dados oficiais do Ministério da Defesa de Israel.

Em termos práticos, Israel virou exportador de tecnologia militar de ponta. A dependência da ajuda americana, em vez de gerar segurança, passou a gerar limitação.

Foi isso que Netanyahu resumiu na entrevista. “Israel hoje tem uma economia próspera e em rápido crescimento, e isso nos permite, gradualmente, eliminar o componente financeiro da assistência militar americana”, disse o primeiro-ministro à CBS, na fala citada pela Reuters e pelo portal Arab News em 11 de maio.

A aprovação que caiu, e a leitura política dela

Existe ainda uma terceira camada, que poucas matérias internacionais estão destacando.

A aprovação americana a Israel está em queda contínua desde 2023. Pesquisas Gallup, divulgadas ao longo de 2025, mostraram que pela primeira vez em décadas mais americanos disseram simpatizar com palestinos do que com israelenses na escala de empatia geral. Entre democratas, o apoio a Israel chegou a despencar para abaixo de 30%. Entre jovens de 18 a 34 anos, independentemente de filiação partidária, a queda também foi acentuada.

Na entrevista ao “60 Minutes”, Netanyahu não escondeu sua leitura do fenômeno. Atribuiu a queda do apoio americano a Israel a “manipulação” em redes sociais e “campanhas de propaganda online”, em vez de admitir relação com as operações militares em Gaza e Líbano. Mais de 71 mil palestinos teriam sido mortos desde o início da ofensiva, segundo dados do Ministério da Saúde de Gaza citados internacionalmente. No Irã, agência norte-americana de direitos humanos Human Rights Activists News Agency aponta 3.636 mortes provocadas por ataques conjuntos EUA-Israel desde março de 2026, incluindo 254 crianças. O Pentágono confirma 13 militares americanos mortos e 415 feridos na guerra contra o Irã.

A leitura política, porém, é mais pragmática. Quanto mais cai a aprovação de Israel nos Estados Unidos, mais arriscado fica depender financeiramente do governo americano. Uma futura administração mais crítica, seja democrata ou republicana, pode usar a ajuda como instrumento de pressão. Eliminar a ajuda é eliminar essa alavanca.

Foi isso, mais do que qualquer cálculo econômico, que parece ter selado o anúncio.

O plano em três etapas

Netanyahu detalhou, na entrevista, o cronograma proposto:

  • Primeira etapa (2026-2028): cumprimento dos três anos restantes do atual Memorando de Entendimento, com repasse integral dos US$ 3,8 bilhões anuais.
  • Segunda etapa (2028-2035): redução gradual e progressiva dos repasses, em sete prestações anuais decrescentes.
  • Terceira etapa (a partir de 2035): repasse zero. Israel passaria a comprar armamentos americanos no mesmo modelo de qualquer outro país comprador, sem subsídios, e ampliaria a produção interna para atender à demanda das próprias Forças Armadas.

A transição preservaria, segundo Netanyahu, a cooperação tecnológica, o compartilhamento de inteligência e os acordos de pesquisa conjunta entre os dois países. O que muda é o componente financeiro direto.

O paralelo com o Brasil

E aqui está a parte que conecta com o que o leitor brasileiro tem visto acontecer dentro do país.

Na mesma semana em que Netanyahu anunciou a transição, no Brasil a empresa SIATT, antiga Mectron, concluiu o primeiro lote industrial do míssil anticarro MAX 1.2 AC para o Exército Brasileiro. Foi a primeira vez que o país produziu, em escala industrial, um míssil guiado com tecnologia nacional. O movimento brasileiro segue, em escala muito menor, a mesma lógica do anúncio israelense: reduzir dependência de fornecedores estrangeiros e construir capacidade industrial própria.

A SIATT inclusive tem como parceira estratégica o conglomerado EDGE Group, dos Emirados Árabes Unidos, que mantém também relações com a indústria israelense. A geografia industrial da defesa global está se redesenhando em direção a uma lógica de multilateralidade, em que países antes apenas compradores começam a se posicionar como produtores.

A transição não é só de Israel. É de uma geração inteira de países que entenderam que comprar tecnologia não é o mesmo que dominar tecnologia.

O que muda no Oriente Médio

Para o equilíbrio regional, o anúncio tem efeitos que ainda demoram a se materializar, mas que valem ser observados.

Primeiro, ao construir mais autonomia industrial, Israel terá mais liberdade política em relação aos Estados Unidos. Decisões militares hoje moderadas por considerações diplomáticas (a aprovação ou não de Washington para esta ou aquela operação) podem ficar menos dependentes de coordenação. Em tese, isso amplia a margem de manobra de Tel Aviv. Na prática, também pode ampliar tensões com aliados regionais que se acostumaram a usar os EUA como interlocutor.

Segundo, ao ampliar a base exportadora própria, Israel se torna concorrente direto dos Estados Unidos em mercados onde antes complementava a oferta americana. Países que hoje compram drones israelenses Hermes ou sistemas Iron Dome podem deixar de comprar mísseis Patriot ou caças F-35.

Terceiro, a redução gradual dos repasses pode ser usada politicamente por Washington como argumento para reduzir presença militar americana no Oriente Médio. Se Israel não precisa mais da ajuda direta, parte da justificativa para manter bases e tropas na região perde força. Isso pode soar contraintuitivo, mas é exatamente esse o cálculo que circula em análises do Foreign Affairs e do Council on Foreign Relations, dois dos principais centros de pensamento estratégico americanos.

O que falta acontecer

O anúncio de Netanyahu, por mais detalhado, ainda não tem efeito legal. Qualquer mudança no Memorando de Entendimento dependerá de negociação com o governo dos Estados Unidos, e o atual presidente americano, Donald Trump, ainda não respondeu publicamente à proposta. O Congresso americano também terá voz no processo, sobretudo se for negociado um novo acordo para suceder o de 2028 com formato diferente do atual.

Internamente, em Israel, o anúncio também enfrenta debate. Forças políticas de oposição e parte do alto comando militar israelense já manifestaram, em entrevistas a veículos como Times of Israel e Haaretz nos últimos meses, preocupação com a velocidade da transição proposta. O argumento principal é que dez anos pode ser pouco para que a indústria israelense alcance, sozinha, a capacidade de substituir caças, sistemas de defesa antimíssil e tecnologia naval atualmente compradas dos Estados Unidos.

Mas o sinal foi dado. E o tempo começou a correr.

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Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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