A IG elevou o mel de melato da bracatinga ao topo da apicultura brasileira, tornando-o um dos méis premium mais procurados no exterior.
O mel de melato da bracatinga, antes ignorado por apicultores, tornou-se um dos produtos mais valorizados da apicultura brasileira após pesquisas internacionais comprovarem sua composição diferenciada.
O reconhecimento, que começou nos anos 2000 e se consolidou com a conquista da Indicação Geográfica (IG), impulsionou a produção de mel premium no Planalto Sul, região que abrange municípios de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul.
A mudança ocorreu quando análises físico-químicas realizadas por pesquisadores alemães revelaram propriedades únicas do mel, o que desencadeou uma demanda crescente no exterior, especialmente na Alemanha.
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Logo nos primeiros estudos internacionais, o mercado percebeu que o mel possuía características distintas, alto teor de minerais e sabor singular.
A Federação das Associações de Apicultores e Meliponicultores de Santa Catarina (Faasc) confirma que a transformação do setor ocorreu justamente por causa dessa nova compreensão científica, que reposicionou o produto como um item de excelência no mercado global.
Mel de melato da bracatinga vira referência mundial de mel premium
A ascensão do mel de melato da bracatinga teve início quando pesquisadores alemães analisaram amostras brasileiras e ficaram “encantados” com as características do produto.
De acordo com o presidente da Faasc, Agenor Sartori Castagna, o cenário era completamente diferente antes das descobertas.
“Antes disso, os apicultores sequer colocavam colmeias embaixo das bracatingas quando elas começavam a melar, porque o melato vem do tronco, não da flor, e não tinha valor comercial”, lembra Castagna.
Ele explica que a mudança foi radical após a comprovação científica: “Quando os alemães conheceram esse mel, ficaram encantados. Desde então, o produto começou a ser disputado.”
A interação entre árvore e insetos que cria um mel único no Brasil
A singularidade do mel de melato da bracatinga está diretamente relacionada à interação entre a árvore nativa Mimosa scabrella e a cochonilha Stigmacoccus paranaensis.
Enquanto a bracatinga oferece néctar e pólen no fim do inverno, é o exsudato açucarado liberado pelos insetos que se torna a matéria-prima transformada pelas abelhas.
Essa combinação natural resulta em um mel de coloração escura e sabor marcante. Para Castagna, a cor é um indicador direto de pureza.
“Quanto mais preto, mais puro. O melato puro tem qualidade superior […] Esse mel só existe aqui”, afirma.
Pesquisas da UFSC reforçam o valor e impulsionam a IG
A partir de 2016, o Laboratório de Química de Alimentos da Universidade Federal de Santa Catarina intensificou estudos para confirmar o diferencial bioquímico do mel.
Os resultados mostraram alto teor de aminoácidos, ácido cítrico e sais minerais, índices superiores aos encontrados em méis comuns.
O reconhecimento oficial chegou em 21 de julho de 2021, com a aprovação da Denominação de Origem da Indicação Geográfica (IG).
A produção oscila entre 3 mil e 3,5 mil toneladas a cada dois anos, acompanhando o ciclo da cochonilha. E quase toda ela vai para um único destino: “É 99% para a Alemanha.
Eles valorizam muito porque é um mel especial, com mais proteínas, pouco açúcar e propriedades medicinais”, destaca Castagna.
IG fortalece a cadeia produtiva e profissionaliza apicultores
A Indicação Geográfica reorganizou o setor ao exigir padrões técnicos, rastreabilidade e análises físico-químicas rigorosas, garantindo autenticidade do produto.
Para isso, a Faasc recebeu apoio do Sebrae na implementação do regulamento.
Os apiários precisam ser georreferenciados, os laudos devem comprovar ausência de mistura com mel floral conhecido como “mel bugio” e auditorias são feitas nas unidades de envase.
A partir de 2026, um sistema automatizado reforçará o controle de origem e qualidade.
Atualmente, dez empresas e 43 apicultores estão oficialmente registrados. O impacto é direto: a participação do mel de melato em vendas de feiras saltou de 40% para 60% após a certificação, segundo a gestora de IG Caroline Maciel da Costa.
Preservação da bracatinga e turismo fortalecem o território
Para ampliar a produção e conservar o bioma, eventos técnicos têm orientado produtores sobre manejo da bracatinga, quebra de dormência e plantio de mudas.
Ademais, municípios que perderam áreas nativas receberam doações de mudas para escolas, integrando educação ambiental.
Outra iniciativa em expansão é a “Rota Lambedor”, criada em Lages, que conecta produtores artesanais, pousadas e trilhas turísticas dedicadas ao mel de melato da bracatinga.
A combinação entre conservação, certificação e profissionalização confirma que a apicultura brasileira no Planalto Sul vive um novo ciclo.
