Pesquisadores da Universidade do Havaí descobriram a Bone Collector, uma lagarta carnívora que vive em teias de aranha e usa partes de insetos mortos como camuflagem para escapar de predadores.
Uma lagarta recém-descoberta no Havaí está intrigando biólogos por fazer algo que parecia saído de um filme de ficção: ela constrói uma espécie de armadura usando partes dos corpos dos insetos de que se alimenta ou encontra pelo caminho, criando uma camuflagem macabra que a ajuda a sobreviver em um dos ambientes mais perigosos para um pequeno inseto.
Apelidada de “Bone Collector”, ou “colecionadora de ossos”, a espécie foi descrita por pesquisadores da Universidade do Havaí em Mānoa em um estudo publicado em abril de 2025 na revista Science. Os cientistas descobriram que a lagarta vive dentro de teias de aranha e cobre seu casulo portátil de seda com cabeças, asas, pernas e fragmentos de exoesqueletos de outros insetos, tornando-se praticamente indistinguível dos restos de presas abandonados pela própria aranha.
Além do comportamento incomum, a descoberta revelou outro detalhe impressionante: essa é uma das raríssimas lagartas carnívoras conhecidas pela ciência, pertencendo a um grupo que representa menos de 0,13% de todas as espécies de mariposas e borboletas existentes.
-
Ela ouviu durante décadas que o espaço não era lugar para mulheres, virou pioneira da aviação, integrou o Mercury 13 e, aos 82 anos, finalmente viajou com Jeff Bezos antes de morrer aos 87
-
Cientistas investigam microplásticos nas vias aéreas de pacientes com apneia do sono e revelam um novo foco de atenção para pesquisas sobre poluição ambiental, exposição humana e possíveis impactos na qualidade da respiração
-
Pela primeira vez, cientistas viram o fundo do oceano se abrir em tempo real – placas se afastando dois metros em poucos dias e 160 milhões de metros cúbicos de lava surgindo no assoalho marinho
-
Iraque flutua e afunda sob um braço do Eufrates 10 caixas gigantes de concreto de 46 mil toneladas e 125 metros cada para montar um túnel submerso de 2,4 km e abrir nova rota terrestre entre Ásia e Europa
Uma sobrevivente que mora na casa do predador
A maioria das lagartas vive sobre folhas, alimentando-se de plantas e evitando predadores. A Bone Collector faz exatamente o oposto. Ela passa praticamente toda a vida dentro de teias de aranha instaladas em cavidades de árvores, fendas de rochas e troncos ocos na ilha de Oʻahu, no Havaí.
Esse ambiente oferece alimento constante, mas também representa um enorme risco. Qualquer pequeno movimento costuma ser suficiente para despertar a atenção da aranha, que rapidamente captura tudo o que fica preso na teia. Para sobreviver, a lagarta desenvolveu uma estratégia extremamente incomum.

Uma armadura feita com restos de insetos
Em vez de esconder o próprio corpo, a lagarta transforma seu casulo portátil em uma coleção de restos de insetos. Os pesquisadores encontraram indivíduos carregando fragmentos de diferentes animais, incluindo cabeças de formigas, asas de moscas, pedaços de besouros, pernas de aranhas e partes de gorgulhos. Esses fragmentos são presos cuidadosamente ao casulo de seda onde a lagarta vive e se movimenta.
O resultado lembra um pequeno monte de lixo biológico perdido na teia. É justamente essa aparência que parece protegê-la. Segundo os pesquisadores, as aranhas provavelmente confundem a lagarta com restos de refeições antigas ou detritos acumulados na própria teia, deixando de atacá-la. Até agora, durante anos de observação, os cientistas nunca registraram uma aranha capturando uma Bone Collector.
Uma das raríssimas lagartas carnívoras do planeta
Quase todas as lagartas conhecidas se alimentam exclusivamente de folhas. A Bone Collector foge completamente dessa regra. Ela pertence a um grupo extremamente raro de lagartas carnívoras, que representa menos de 0,13% das cerca de 200 mil espécies conhecidas de mariposas e borboletas.
Seu alimento principal são insetos mortos ou enfraquecidos presos nas teias das aranhas. Em alguns casos, ela chega até a roer partes da seda da teia para alcançar os restos das presas. Esse comportamento permite aproveitar uma fonte constante de alimento sem precisar sair em busca de comida pela floresta.
Uma descoberta que levou quase duas décadas
Embora a espécie tenha sido apresentada ao mundo apenas em 2025, sua descoberta começou muitos anos antes. Os pesquisadores passaram aproximadamente duas décadas procurando indivíduos suficientes para entender seu comportamento e confirmar que se tratava de uma espécie ainda desconhecida.

Mesmo depois desse longo trabalho de campo, apenas 62 exemplares foram encontrados. Todos viviam em uma pequena região da cadeia montanhosa de Waiʻanae, na ilha de Oʻahu, ocupando uma área estimada em apenas 15 quilômetros quadrados. Esse isolamento faz da Bone Collector uma das espécies mais raras já descritas no arquipélago havaiano.
Uma linhagem mais antiga do que a ilha onde vive
As análises genéticas revelaram outro detalhe surpreendente. Os ancestrais dessa lagarta provavelmente surgiram há pelo menos 6 milhões de anos. Isso significa que sua linhagem é muito mais antiga do que a própria ilha de Oʻahu, cuja formação geológica começou cerca de 3 milhões de anos atrás.
Segundo os cientistas, os antepassados da Bone Collector provavelmente viveram em ilhas havaianas mais antigas que, com o movimento das placas tectônicas, acabaram desaparecendo sob o oceano. A espécie teria migrado gradualmente entre as ilhas ao longo de milhões de anos, sobrevivendo enquanto outras formas de vida desapareciam.
A espécie já enfrenta risco de desaparecer
Apesar de ter sido descoberta recentemente pela ciência, a Bone Collector já enfrenta sérias ameaças. Os pesquisadores alertam que espécies invasoras introduzidas no Havaí, como formigas e vespas parasitas, representam um risco crescente para sua sobrevivência. Como toda a população conhecida vive em uma área extremamente pequena, qualquer alteração no ambiente pode comprometer a existência da espécie.
Para os cientistas, proteger esse habitat significa preservar não apenas uma lagarta incomum, mas também uma linhagem evolutiva que atravessou milhões de anos praticamente escondida dos olhos da humanidade.
Uma estratégia de sobrevivência que não se parece com nenhuma outra
A Bone Collector mostra até onde a evolução pode chegar quando uma espécie precisa sobreviver em condições extremas. Em vez de fugir dos predadores, ela passou a viver dentro da casa deles. Em vez de esconder sua presença, transformou restos de insetos em uma camuflagem quase perfeita.
Essa combinação de comportamento, alimentação carnívora e uso de uma “armadura” feita com fragmentos de presas torna a pequena lagarta uma das descobertas mais curiosas da zoologia nos últimos anos. E também um lembrete de que, mesmo em lugares estudados há décadas, a natureza ainda guarda estratégias de sobrevivência capazes de surpreender até os próprios cientistas.
