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Cientistas usam mais de 20 mil pássaros artificiais e alto-falantes solares para “enganar” aves marinhas, reativar rotas de nidificação e fazer uma colônia renascer em ilha que parecia abandonada

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 10/07/2026 às 07:27
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Cientistas usam pássaros artificiais e alto-falantes solares para “enganar” aves marinhas
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Desecheo, ilha de Porto Rico, voltou a atrair aves marinhas com atração social, decoys e áudio após a remoção de ratos e macacos invasores.

A pequena ilha de Desecheo, a cerca de 13 milhas da costa oeste de Porto Rico, foi durante décadas um dos cenários mais dramáticos do colapso ecológico em ilhas do Caribe. Segundo o plano de manejo do U.S. Fish and Wildlife Service, o local já foi um dos principais berçários de aves marinhas da região, mas perdeu grande parte desse papel depois da introdução de mamíferos invasores e de outras pressões humanas.

Depois de uma longa operação de restauração, a ilha foi declarada livre de mamíferos invasores em 2017. O passo seguinte, porém, foi ainda mais incomum: usar a técnica de atração social, com modelos de aves, espelhos, som gravado e câmeras automáticas, para convencer espécies que haviam desaparecido dali a voltar a nidificar em segurança.

Desecheo já foi um dos maiores refúgios de aves marinhas do Caribe

Segundo o U.S. Fish and Wildlife Service, Desecheo já abrigou uma colônia com mais de 15 mil atobás-pardos durante a temporada reprodutiva de 1927. O mesmo documento registra ainda cerca de 2 mil atobás-de-pés-vermelhos, 2 mil noddys-marrons, 1.500 trinta-réis-de-freio, além de fragatas e gaivotas em números expressivos nas primeiras décadas do século XX.

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O próprio plano de conservação do refúgio mostra o tamanho da queda. Em levantamentos de 2009, não foram observadas aves marinhas nidificando na ilha, e apenas sinais muito limitados de reprodução reapareceram nos anos seguintes em áreas costeiras e ilhotas próximas.

A ilha também carrega uma história difícil fora do campo biológico. Segundo o U.S. Fish and Wildlife Service, o acesso público continua proibido por causa de munições não detonadas e outros riscos ambientais, legado de seu uso militar em décadas passadas.

Ratos, macacos e outros invasores desmontaram um ecossistema insular inteiro

Desecheo evoluiu como um ambiente insular frágil, sem mamíferos predadores nativos terrestres. Por isso, a chegada de espécies invasoras teve efeito devastador sobre aves que nidificam no chão, em frestas e em tocas, sem defesas naturais contra esse tipo de ameaça.

Desecheo, ilha de Porto Rico, voltou a atrair aves marinhas com atração social, decoys e áudio após a remoção de ratos e macacos invasores.
Desecheo, ilha de Porto Rico, voltou a atrair aves marinhas

Segundo a Island Conservation, a ilha foi ocupada ao longo do tempo por ratos, cabras, gatos ferais e macacos-rhesus, estes últimos introduzidos na década de 1970. Já o U.S. Fish and Wildlife Service registra que a combinação entre mamíferos invasores e perturbações humanas levou ao desaparecimento de cinco das sete populações reprodutivas conhecidas de aves marinhas em Desecheo.

O impacto não se restringiu às aves. O plano do refúgio informa que a ilha abriga três lagartos endêmicos, enquanto documentos federais e a Island Conservation apontam recuperação do ameaçado cacto Higo Chumbo, espécie que também sofreu com a degradação causada pelos invasores.

A limpeza da ilha levou anos e terminou com a erradicação dos mamíferos invasores

A restauração de Desecheo não aconteceu de uma vez. Segundo a base de dados associada ao estudo sobre atração social, as grandes intervenções de conservação da ilha incluíram a erradicação de cabras, macacos-rhesus e ratos entre 1976 e 2016, em um processo longo e tecnicamente complexo.

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A Island Conservation informou que o trabalho mobilizou o U.S. Fish and Wildlife Service, a própria organização e outros parceiros ao longo de mais de uma década. Em 2017, a ilha foi finalmente considerada livre de espécies invasoras, abrindo caminho para a recuperação de aves marinhas, répteis nativos e do Higo Chumbo.

Mesmo depois da erradicação, a restauração não foi tratada como missão encerrada. Documentos recentes do U.S. Fish and Wildlife Service registram que a ilha passou a operar com medidas de biossegurança e vigilância contínua para reduzir o risco de reinvasão, um ponto crítico em qualquer ecossistema insular restaurado.

Pássaros de mentira, espelhos e som gravado viraram a arma mais criativa da restauração

Com a ilha novamente segura, os conservacionistas precisaram resolver outro problema: as aves não voltavam automaticamente. Segundo a Island Conservation e o conjunto de dados do estudo sobre o projeto, a resposta foi a técnica de atração social, que usa pistas visuais e sonoras para simular a presença de uma colônia ativa.

Pássaros de mentira, espelhos e som gravado viraram a arma mais criativa da restauração
Pássaros de mentira, espelhos e som gravado viraram a arma mais criativa da restauração

Em fevereiro de 2018, a equipe instalou 30 decoys de trinta-réis-de-freio, 18 decoys de noddy-marrom, espelhos e sistemas de som em pontos estratégicos da ilha. O estudo informa que os alto-falantes reproduziam sons por 12 horas a cada 24 horas, e que câmeras com sensor de movimento foram posicionadas para registrar a reação das aves.

O sistema foi montado com nível alto de detalhamento. Segundo a base do estudo, os equipamentos incluíam painéis solares, amplificador, baterias, alto-falantes externos e câmeras apontadas diretamente para os locais de atração, permitindo acompanhar visitas, pousos e tentativas de retorno de forma contínua.

O truque funcionou e a volta das aves começou a ser registrada

Os primeiros sinais apareceram rápido. Segundo a Island Conservation, apenas um ano depois de a ilha ser declarada livre de invasores já havia indícios concretos de recuperação, com o primeiro registro de pardela-de-audubon em Desecheo e a descoberta de novos ninhos de trinta-réis-de-freio.

O estudo de monitoramento reforçou esse resultado com dados mais precisos. Durante dois anos de implantação e acompanhamento, os pesquisadores documentaram sete ninhos de trinta-réis-de-freio, sendo dois deles ao lado de uma colônia de decoys.

O mesmo trabalho registrou a atração de uma pardela-de-audubon em 2018 e duas em 2019, no que foi descrito como o primeiro registro da espécie na ilha.

Nem todas as espécies responderam no mesmo ritmo. O mesmo conjunto de dados informa que, apesar do esforço com noddys-marrons, não foram detectadas visitas ou ninhos dessa espécie durante o período analisado. Ainda assim, os autores classificaram a atração social em Desecheo como uma ação viável para ajudar na recolonização das aves marinhas.

A recuperação já alcança plantas, répteis e a estrutura ecológica da ilha

A restauração de Desecheo não beneficiou apenas aves. A Island Conservation relatou aumento visível do ameaçado Higo Chumbo, enquanto documentos recentes do U.S. Fish and Wildlife Service indicam melhora do habitat e recuperação de espécies nativas depois da remoção dos mamíferos invasores.

Os répteis endêmicos também entraram na lista de beneficiados. O plano do refúgio e documentos federais mais recentes destacam que a ilha possui alto grau de endemismo herpetológico, com três espécies endêmicas de lagartos que passaram a enfrentar menor pressão ecológica após a eliminação dos predadores e herbívoros invasores.

O caso de Desecheo ganhou peso internacional justamente por mostrar que remover invasores é apenas parte da restauração. Em ilhas muito degradadas, a volta da fauna também pode depender de estratégias ativas para reconstruir o comportamento de nidificação e devolver confiança ecológica a espécies que passaram gerações evitando aquele habitat.

Desecheo virou exemplo de que conservação de ilhas exige remoção, vigilância e engenharia ecológica

O projeto em Porto Rico virou referência porque uniu três frentes ao mesmo tempo: erradicação de invasores, biossegurança permanente e uso de atração social para reativar colônias de aves marinhas. Em vez de esperar que a natureza simplesmente “se reorganizasse”, os conservacionistas criaram condições para acelerar a volta de espécies-chave a um dos refúgios mais importantes do Caribe.

O resultado não significa que a recuperação terminou. Manter a ilha livre de novos invasores continua sendo parte essencial do trabalho, e a recomposição plena de um ecossistema insular ocorre ao longo de muitos anos.

Mesmo assim, Desecheo já deixou de ser apenas um símbolo de colapso ecológico e passou a ser tratada como prova concreta de que a restauração pode funcionar quando ciência, monitoramento e persistência operam juntos.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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