No sul do Iraque, dez módulos gigantes de concreto foram imersos para formar túnel sob o Khor Al Zubair, peça da rota que pretende ligar o Golfo à Europa por via terrestre.
No sul do Iraque, uma obra de engenharia transformou dez blocos gigantes de concreto em peças de um túnel submerso projetado para ligar o Porto de Al Faw ao restante do país por uma nova rota terrestre em direção à Turquia e à Europa.
Cada seção tem cerca de 125 metros de comprimento e pesa aproximadamente 46 mil toneladas, segundo a Ballast Nedam, empresa holandesa responsável pela instalação dos elementos do túnel no Khor Al Zubair, na província de Basra.
A estrutura faz parte do plano iraquiano conhecido como Development Road, ou “Rota do Desenvolvimento”, apresentado pelo governo como um corredor rodoviário e ferroviário para conectar o Golfo à Europa via Iraque e Turquia.
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O túnel terá 2.444 metros de extensão total, incluindo acessos, dos quais 1.260 metros ficarão submersos sob o canal de Khor Al Zubair, segundo a Autoridade Portuária iraquiana.
A etapa mais recente confirmada publicamente ocorreu em novembro de 2025, quando a General Company for Ports of Iraq informou que o último segmento havia deixado a bacia de fabricação para ser preparado antes da fase final de submersão.
A Ballast Nedam apresenta o projeto em seu site como concluído e informa ter instalado os dez elementos entre 2023 e 2025.
O caso chama atenção pela escala e pelo método.
Em vez de perfurar o solo como em túneis escavados por tuneladoras, a obra usa peças pré-moldadas de concreto, fabricadas em uma doca, colocadas para flutuar, rebocadas até a posição correta e afundadas em uma vala dragada no leito do canal.
O túnel é tratado pelo Iraque como uma peça de conexão entre o futuro Porto de Al Faw, no extremo sul do país, e a rota que seguirá por Bagdá até a fronteira com a Turquia.
Em dezembro de 2025, o primeiro-ministro Mohammed Shia al-Sudani inaugurou a primeira seção da Rota do Desenvolvimento, um trecho de 63 quilômetros que liga o porto ao túnel ainda em construção na época, segundo a agência Xinhua.

Túnel submerso no Khor Al Zubair
O túnel está localizado na região de Umm Qasr, ao sul de Basra, em uma área estratégica para a saída iraquiana ao Golfo.
A Ballast Nedam identifica o projeto como Immersed Tunnel Basrah, Iraq, e informa que executou a instalação dos elementos como parte do Grand Faw Master Plan.
O Porto de Al Faw é um dos pilares desse plano.
Em reportagem de novembro de 2024, a Reuters informou que o porto integra um projeto de US$ 17 bilhões lançado pelo Iraque para conectar a costa sul do país à fronteira turca por ferrovias e rodovias, com objetivo de reduzir o tempo de transporte entre Ásia, Oriente Médio e Europa.
A mesma reportagem informou que a sul-coreana Daewoo Engineering & Construction construiu cinco berços do Porto de Al Faw, entregues às autoridades portuárias iraquianas durante cerimônia com presença do primeiro-ministro.
A previsão citada pelo diretor da General Company for Ports, Farhan al-Fartousi, era iniciar operações em 2026 e alcançar capacidade máxima de 3,5 milhões de contêineres em 2028.
Nesse conjunto, o túnel serve para permitir que o tráfego rodoviário cruze o Khor Al Zubair sem depender de ponte naquele ponto.
A rota parte do porto, passa pela travessia submersa e segue em direção ao norte do Iraque.
Como funciona um túnel imerso
O método usado no Iraque é conhecido como túnel imerso.
Primeiro, os elementos de concreto são construídos em uma área seca, dentro de uma doca de fabricação.
Depois, a doca é inundada para que as peças flutuem, mesmo tendo dezenas de milhares de toneladas.
Martijn Smitt, diretor-executivo da Ballast Nedam, explicou que o trabalho envolve flutuar os elementos um a um, retirá-los da doca com cabos e guinchos e posicioná-los usando técnicas de imersão.
A empresa também informou que cria uma fundação sob os módulos por meio de “sandflowing”, processo em que camadas de areia são injetadas entre o fundo do elemento e o leito do rio ou canal.
“O nosso trabalho envolve o seguinte: quando a doca de construção é inundada, fazemos os elementos do túnel flutuarem um por um”, disse Smitt, em relato publicado pela Ballast Nedam.
Ele acrescentou que as peças são retiradas da doca e colocadas na posição por técnicas de imersão.
Na fase seguinte, cada elemento é levado até a área de instalação por sistemas de guinchos e pontões.
No ponto de imersão, a peça é baixada gradualmente até uma vala dragada no fundo do canal, onde precisa se alinhar ao módulo anterior.
A conexão precisa ser estanque.
Segundo a Ballast Nedam, os elementos são unidos com uma vedação do tipo GINA gasket, usada para impedir a entrada de água na junta entre as seções.
Cada operação de imersão leva cerca de 16 horas contínuas, de acordo com a empresa.
Precisão para afundar blocos de 46 mil toneladas
Apesar da imagem simples de “flutuar e afundar” blocos de concreto, a operação depende de cálculo, preparação e controle de posição.
A Ballast Nedam informou que foram quase dois anos de preparação, incluindo engenharia, planejamento, aquisição de pontões, guinchos, sistemas de levantamento topográfico e testes na Holanda.
Durante a instalação, o elemento precisa chegar ao ponto correto, descer na velocidade prevista e se apoiar sobre estruturas temporárias e fundações preparadas no fundo.
Sistemas hidráulicos permitem ajustar a altura antes da ligação definitiva com a seção anterior.
A empresa descreve ainda a formação de “panquecas de areia” sob cada módulo, uma etapa usada para criar a fundação final depois que a posição é aprovada.
Essa base ajuda a distribuir a carga das seções de concreto sobre o leito dragado.
A precisão é relevante porque pequenos desvios podem afetar o encaixe entre módulos, a vedação e o alinhamento final do túnel.
Por isso, a obra combina procedimentos de construção civil pesada, navegação, operações marítimas, topografia e mergulho técnico.

Calor, segurança e logística em Umm Qasr
A localização também impõe restrições operacionais.
Umm Qasr fica em uma região de clima desértico, onde as temperaturas podem chegar a 50 ºC, segundo relato de Martijn Smitt publicado pela Ballast Nedam.
A empresa informou que trabalhadores precisam adotar medidas permanentes para evitar queimaduras e desidratação.
Além do calor, a Ballast Nedam citou condições de segurança como parte dos desafios do projeto.
A empresa afirmou que a região é classificada como área de risco pelo Ministério das Relações Exteriores da Holanda e que, por isso, adotou transporte em veículos blindados, escoltas e vigilância 24 horas nos locais de trabalho.
A logística também depende da chegada de equipamentos de outros países.
Xavier Szadkowski, engenheiro de projeto da Ballast Nedam, afirmou que os componentes não podiam ser obtidos localmente com facilidade e que a preparação precisava incluir verificação detalhada de cada item antes do envio ao Iraque.
Esse contexto ajuda a explicar por que o túnel é tratado pela empresa como uma obra altamente especializada.
Além da dimensão dos módulos, a execução exige equipe internacional, equipamentos importados e coordenação entre contratante, subcontratadas e autoridades locais.
Rota do Desenvolvimento do Iraque
O túnel submerso não é um projeto isolado.
Ele integra a estratégia iraquiana de transformar o Porto de Al Faw em ponto de entrada de cargas no Golfo e conectar essa estrutura ao norte do país e à Turquia por uma rede de transporte terrestre.
O Banco Mundial descreve a Rota do Desenvolvimento como uma iniciativa lançada pelo Iraque em maio de 2023 para aproveitar sua posição geográfica e melhorar a conectividade comercial regional.
O documento do projeto ferroviário informa que a iniciativa prevê conectar o Porto de Al Faw, no Golfo, à Europa por Iraque e Turquia, em duas etapas de expansão e modernização ferroviária.
O mesmo documento aponta um custo total de US$ 2,5 bilhões para uma série de projetos de apoio, com US$ 930 milhões na primeira operação, voltada à modernização ferroviária.
O Banco Mundial também registra que a segunda etapa prevê uma ligação ferroviária nova de 1.200 quilômetros entre Al Faw e a fronteira turca, com custo estimado de US$ 17 bilhões.
Segundo a Reuters, o Iraque lançou em 2023 um projeto de US$ 17 bilhões para ligar o porto ao território turco por ferrovias e estradas, buscando criar uma rota de transporte mais curta entre Oriente Médio e Europa e competir com o Canal de Suez em determinados fluxos de carga.

