Pesquisa iniciada no ensino médio levou uma estudante gaúcha a feiras científicas no Brasil e nos Estados Unidos, ao transformar resíduos agrícolas em materiais biodegradáveis e ganhar reconhecimento internacional em uma trajetória ligada à sustentabilidade, biotecnologia e divulgação científica.
Juliana Davoglio Estradioto, gaúcha de Osório, no Rio Grande do Sul, ganhou projeção internacional aos 18 anos ao transformar resíduos agroindustriais em materiais biodegradáveis durante o ensino médio técnico no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul, o IFRS.
Em feiras científicas no Brasil e nos Estados Unidos, a estudante viu seus projetos alcançarem reconhecimento fora do ambiente escolar e passou a ter o direito de associar seu nome a um asteroide, segundo a revista Pesquisa FAPESP.
A trajetória se destacou por aproximar pesquisa escolar, sustentabilidade e ciência aplicada de uma forma incomum para estudantes pré-universitários, com experimentos baseados em cascas que normalmente seriam descartadas pela cadeia de alimentos.
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No lugar de depender de insumos raros ou de uma estrutura sofisticada desde o início, Juliana investigou alternativas para resíduos de maracujá e noz-macadâmia, buscando aplicações menos dependentes do plástico convencional.
Pesquisa com macadâmia venceu prêmio mundial de ciência
Apresentado na Intel International Science and Engineering Fair, a Intel ISEF, o projeto com a noz-macadâmia levou Juliana a Phoenix, nos Estados Unidos, em maio de 2019, para uma das principais feiras científicas pré-universitárias do mundo.
Na premiação geral do evento, organizado pela Society for Science & the Public em parceria com a Intel Foundation, ela recebeu o First Award na categoria Materials Science pelo trabalho “The Universe in a Nutshell: Bacterial Cellulose Membrane Using Macadamia Byproduct”.
O estudo investigou o uso do subproduto da macadâmia na produção de membranas de celulose bacteriana, um biopolímero analisado como alternativa a materiais sintéticos em diferentes áreas.
Conforme o resumo cadastrado na base da Society for Science, o processamento da noz gera cerca de 75% de subproduto, e resíduos agroindustriais podem ser usados em processos biotecnológicos para criar alternativas a polímeros sintéticos.
Pela Pesquisa FAPESP, Juliana explicou que a casca da noz serviu como alimento para microrganismos capazes de produzir celulose de origem microbiana, material que passou a ser o centro da investigação.
A partir dessa produção, a estudante avaliou possíveis usos do material como substituto do plástico e também em aplicações biomédicas, entre elas curativos, por causa das propriedades associadas à celulose bacteriana.
Antes da etapa internacional, o mesmo trabalho já havia recebido reconhecimento em competições brasileiras e consolidado uma linha de pesquisa voltada ao reaproveitamento de resíduos agroindustriais.
Na Mostra Brasileira de Ciência e Tecnologia e Mostra Internacional de Ciência e Tecnologia, a Mostratec, realizada em outubro de 2018, o primeiro lugar em Gerenciamento do Meio Ambiente garantiu à estudante participação no Seminário Internacional de Jovens Cientistas de Estocolmo, o SIYSS.
Casca de maracujá abriu caminho para materiais biodegradáveis
Antes de investigar a macadâmia, Juliana já havia levado outro resíduo agrícola para as feiras científicas: a casca do maracujá, descartada com frequência após o processamento da fruta.
Ainda no ensino médio, ela desenvolveu um plástico biodegradável a partir desse material, em um projeto que passou pela Feira Brasileira de Ciências e Engenharia, a Febrace, e chegou à Intel ISEF em 2017.
Naquele ano, a Society for Science registrou o trabalho “Development of a Novel Biodegradable Plastic Film with Passiflora edulis’ Byproduct” entre os premiados da Intel ISEF 2017.
Vinculada ao IFRS Campus Osório, a pesquisa recebeu quarto lugar na categoria Environmental Engineering, resultado que reforçou a presença da estudante em competições científicas antes do reconhecimento obtido com a macadâmia.
O ponto de partida era um problema conhecido na produção de alimentos: depois do uso industrial da polpa, a casca do maracujá costuma perder valor e seguir para descarte.
Ao transformar essa sobra em filme plástico biodegradável, a proposta indicava um caminho para embalagens e outros produtos menos dependentes de polímeros sintéticos, mantendo o foco no aproveitamento de resíduos.
Segundo a Pesquisa FAPESP, o trabalho com maracujá também rendeu a Juliana reconhecimento no Prêmio Jovem Cientista, uma das competições brasileiras voltadas a estimular pesquisas desenvolvidas por estudantes.
Com a sequência de projetos, a jovem consolidou uma investigação baseada na valorização de resíduos, tema que atravessou experiências em feiras nacionais e internacionais e ampliou sua atuação científica.
Feiras científicas ampliaram a trajetória da estudante gaúcha
A formação de Juliana ocorreu no curso técnico em administração integrado ao ensino médio no IFRS Campus Osório, no litoral norte do Rio Grande do Sul.
À Pesquisa FAPESP, ela relatou que vinha de uma cidade do interior gaúcho e que nunca tinha visto um laboratório antes de ter contato com feiras científicas e oportunidades de pesquisa.
Nesse percurso, a Febrace teve papel decisivo ao colocar a estudante em contato com pesquisadores, bancas avaliadoras e projetos de diferentes áreas ainda durante a escola.
Por meio da feira, Juliana viajou pela primeira vez de avião, em 2017, para apresentar um trabalho na Universidade de São Paulo, a USP, experiência que abriu caminho para eventos científicos e novas parcerias.
A orientadora Flávia Twardowski, engenheira de alimentos do IFRS, aparece como uma das principais apoiadoras dos projetos e acompanhou o desenvolvimento das pesquisas desde as etapas escolares.
Para avançar nos experimentos, Juliana contou à Pesquisa FAPESP que precisou adaptar a investigação às condições disponíveis e firmar parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, especialmente quando precisava usar laboratórios fora do campus.
O contato com a biotecnologia também mudou a relação da estudante com a ciência, área que até então não ocupava o mesmo espaço em sua rotina escolar.
Ela disse à publicação que não gostava de biologia no ensino médio, mas passou a se interessar pelo tema ao perceber que microrganismos poderiam produzir materiais úteis para roupas, embalagens e aplicações biomédicas.
Asteroide com nome de Juliana virou símbolo do reconhecimento
Após a premiação na Intel ISEF, Juliana recebeu o direito de ter o nome associado a um asteroide, em uma iniciativa ligada à feira e ao Laboratório Lincoln do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT.
Na entrevista, a estudante afirmou que o processo de nomeação era longo e que especialistas definiriam o formato final do nome, etapa necessária antes da oficialização da homenagem.
Embora tenha se tornado o detalhe mais curioso da trajetória, o asteroide não concentra sozinho a relevância do caso, que começou com pesquisas escolares, orientação técnica e aproveitamento de resíduos.
A experiência mostra como projetos desenvolvidos ainda no ensino médio podem transformar cascas descartadas em objeto de investigação científica, desde que estudantes tenham acesso a feiras, orientação e redes de apoio.
Com a visibilidade conquistada, Juliana também passou a atuar em divulgação científica e em iniciativas voltadas a incentivar a presença de meninas em áreas como biotecnologia, química e ciência dos materiais.
Segundo a Pesquisa FAPESP, ela se envolveu em ações para mostrar a outras estudantes que a pesquisa pode começar antes da universidade, inclusive em escolas públicas e cidades fora dos grandes centros.
