Cientistas rastrearam o DNA de 1.200 pessoas vivas e concluíram que o Homo sapiens nasceu no norte de Botsuana há 200 mil anos, em um lago que hoje é deserto
A pergunta sobre onde a humanidade surgiu é uma das mais antigas da ciência. Em outubro de 2019, um estudo publicado na revista Nature ofereceu uma resposta surpreendente.
Segundo a pesquisa, os primeiros Homo sapiens de Botsuana surgiram há 200 mil anos na região do antigo Lago Makgadikgadi, no norte do país africano.
A conclusão veio da análise do DNA mitocondrial de mais de 1.200 indivíduos vivos de povos khoisan do sul da África.
-
Polícia Federal entra no caso para identificar responsável por invasão ao sistema da Defesa Civil que enviou dez alertas falsos, assustou moradores de diferentes capitais e transformou mensagens sobre risco real em notificações com “misantropia” e até ataque alienígena
-
Seca extrema faz vila fantasma reaparecer no fundo de reservatório que abastece Atenas, revelando casas, escola e ruínas engolidas desde os anos 1980 enquanto o lago encolhe e expõe a crise de água que ameaça a capital da Grécia
-
Tecnologia espacial usada para procurar água em Marte agora caça vazamentos invisíveis sob as ruas de São Paulo, usando satélites, IA e sinais de cloro para ajudar a Sabesp a recuperar até 6,7 bilhões de litros de água
-
Japão envia navio para sugar lama rica em terras raras a quase 6.000 metros de profundidade no Pacífico, tenta levantar 350 toneladas por dia do fundo do mar e transforma sedimentos próximos à ilha de Minamitori em arma estratégica para reduzir dependência da China
Essa região, que hoje é dominada pelo deserto de Kalahari e salinas, era há 200 mil anos uma área úmida e fértil.
O lago tinha o dobro da área do atual Lago Vitória, cerca de 130 mil quilômetros quadrados.
A linhagem L0 encontrada no DNA do Homo sapiens de Botsuana é o tronco ancestral de toda a humanidade viva
O estudo identificou a linhagem mitocondrial L0, também chamada de “linhagem zero”.
Esse marcador genético é transmitido exclusivamente de mãe para filho e funciona como um mapa do tempo biológico.
Todos os 7,7 bilhões de seres humanos vivos hoje descendem dessa linhagem, rastreada até o norte de Botsuana.
A pesquisa identificou cerca de 200 sub-ramificações raras dessa linhagem entre os povos khoisan.
Vanessa Hayes, geneticista do Instituto de Pesquisa Médica Garvan em Sydney e líder do estudo, afirmou que “agora está claro que nossos ancestrais devem ter se dispersado de uma região ao sul do rio Zambeze”.

O Homo sapiens de Botsuana viveu 70 mil anos na mesma região antes de se dividir em três ondas de migração que povoaram o planeta
Os dados genéticos revelam que a população ancestral prosperou por 70 mil anos na região pantanosa do Makgadikgadi-Okavango.
Entre 200 mil e 130 mil anos atrás, os primeiros humanos viviam como caçadores-coletores sustentados pelo clima fértil.
Há 130 mil anos, mudanças na órbita e no eixo da Terra causaram secas que abriram “corredores verdes” de terras férteis.
A primeira onda de migração seguiu para o nordeste da África, originando populações que eventualmente se tornaram agricultoras.
Uma segunda onda, entre 130 mil e 110 mil anos atrás, seguiu para o sudoeste, formando comunidades de caçadores-coletores costeiros.
A terceira dispersão povoou o resto da África e, eventualmente, todo o planeta.
“Tudo virou uma loucura. Todas essas novas linhagens humanas simplesmente começam a aparecer”, descreveu Hayes sobre o período das migrações.
Axel Timmermann, coautor responsável pela modelagem climática, descreveu a região como “uma extensão massiva do atual Delta do Okavango”.

O estudo do Homo sapiens de Botsuana é polêmico e nem todos os cientistas concordam com as conclusões
Apesar da publicação na Nature, o estudo gerou controvérsia significativa na comunidade científica.
Críticos apontam que o uso exclusivo de DNA mitocondrial moderno, de pessoas vivas, tem limitações.
Não há fósseis de Homo sapiens datados de 200 mil anos na região de Botsuana para confirmar a tese.
O calor africano degrada o DNA antigo, impedindo análises diretas de material fóssil.
Além disso, as populações khoisan atuais podem não representar fielmente os ancestrais de 200 mil anos.
- A favor: análise de 1.200 amostras, 200 sub-ramificações raras, modelagem climática consistente
- Contra: sem fósseis na região, DNA mitocondrial rastreia apenas linhagem materna, possível viés de seleção
- Consenso: origem africana é unânime, mas local exato permanece debatido
Fósseis comparativos existem em outros pontos da África: Jebel Irhoud no Marrocos tem 315 mil anos, Florisbad na África do Sul tem 260 mil anos e Omo na Etiópia tem 195 mil anos.
Outras descobertas sobre nosso passado, como estruturas gigantes escondidas nas profundezas da Terra, mostram que a ciência continua revelando segredos sobre o planeta e sobre nós mesmos.

De Botsuana para o mundo: o que significa saber que toda a humanidade descende de um único lago africano
Independentemente das controvérsias, o estudo reforça um fato cientificamente aceito: toda a humanidade surgiu na África.
A pesquisa adiciona uma camada de precisão geográfica ao apontar o norte de Botsuana como candidato a berço específico.
A ideia de que 7,7 bilhões de pessoas descendem de um grupo que viveu às margens de um lago hoje desaparecido conecta toda a humanidade a uma origem comum.
Segundo a Superinteressante, o estudo expandiu a árvore genética humana mas ainda precisa de validação arqueológica.
A National Geographic contextualizou a polêmica e as limitações metodológicas.
O que permanece é a mensagem central: migração e miscigenação são traços fundamentais do que significa ser humano.

Só uma dúvida o homo sapiens quando “surgiu” era um casal?
Jeferson, boa pergunta. Na biologia evolutiva, não existe um “primeiro casal” — a especiação é um processo gradual que acontece ao longo de milhares de gerações numa população inteira. O que o estudo sugere é que uma população de alguns milhares de indivíduos, vivendo na região do norte de Botsuana, acumulou mutações genéticas suficientes para se diferenciar como Homo sapiens. Ou seja, não foi um casal, mas sim uma comunidade que evoluiu junta ao longo de milênios.
Pena que isso não diminua o preconceito que ainda insiste em existir, impregnado em muitos.
Renato, é uma reflexão muito pertinente. Estudos como esse reforçam justamente que todos compartilhamos a mesma origem, o que torna qualquer forma de preconceito ainda mais injustificável. Obrigado por trazer esse ponto importante.