Estudos revelam estruturas gigantes no manto profundo da Terra sob África e Pacífico que influenciam calor, vulcanismo e dinâmica do planeta.
Em 2025, um estudo publicado na revista científica Scientific Reports, do grupo Nature, trouxe novas evidências sobre duas das estruturas mais enigmáticas do interior do planeta: as chamadas grandes províncias de baixa velocidade sísmica, localizadas a quase 3.000 quilômetros de profundidade, na fronteira entre o manto e o núcleo da Terra. No artigo científico, os pesquisadores mostraram que essas duas regiões, situadas sob a África e sob o Oceano Pacífico, não são equivalentes, como muitos modelos anteriores sugeriam.
Essas estruturas são conhecidas como LLVPs ou LLSVPs e recebem esse nome porque as ondas sísmicas desaceleram ao atravessá-las, indicando diferenças de temperatura, composição química ou ambas. Os dados analisados no estudo indicam que essas massas profundas podem concentrar material denso reciclado do interior da Terra, especialmente crosta oceânica subduzida, e que a província sob o Pacífico pode conter uma proporção maior desse material do que a africana.
O estudo aponta, portanto, que essas estruturas podem ter origens distintas e histórias evolutivas independentes, o que muda de forma relevante a interpretação dos geocientistas sobre a dinâmica profunda do planeta. Em vez de tratar essas duas regiões como blocos equivalentes, os autores defendem que elas foram moldadas por trajetórias diferentes ao longo da história geológica da Terra.
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O que são os “continentes” ocultos do manto e por que eles importam
As LLSVPs são estruturas gigantescas que ocupam volumes comparáveis aos de continentes inteiros. A região sob a África se estende por milhares de quilômetros de largura e pode atingir até 1.000 quilômetros de altura, enquanto a estrutura sob o Pacífico é ainda mais ampla, cobrindo uma área que se estende por grande parte do hemisfério.
Essas massas não são continentes no sentido geográfico tradicional, mas a analogia ajuda a entender sua escala. Elas são regiões onde o manto apresenta propriedades físicas e químicas distintas do material ao redor, o que afeta diretamente a propagação de ondas sísmicas.
O ponto central é que essas estruturas não são apenas grandes, mas também influentes. Elas desempenham um papel fundamental na transferência de calor do núcleo para o manto e podem atuar como fontes de plumas mantélicas, que alimentam vulcões em regiões distantes da superfície, como o Havaí e a Islândia.
A existência dessas estruturas já era conhecida há décadas, mas o novo estudo mostra que tratá-las como entidades equivalentes pode ser um erro conceitual importante.
Diferenças entre as estruturas sob África e Pacífico revelam histórias distintas
A principal conclusão do estudo publicado em 2025 é que as duas LLSVPs apresentam diferenças significativas em sua forma, composição e comportamento dinâmico.
A estrutura sob a África parece ser mais elevada e possivelmente mais estável ao longo do tempo geológico. Já a do Pacífico é mais extensa lateralmente e pode apresentar maior variabilidade interna. Essas diferenças sugerem que cada uma dessas regiões teve uma trajetória evolutiva própria, influenciada por fatores como subducção de placas, fluxo de calor e composição do manto.
Isso significa que o interior da Terra não é simétrico nem homogêneo, como alguns modelos simplificados indicavam. Em vez disso, ele pode ser composto por grandes domínios com propriedades distintas, que interagem de forma complexa ao longo de milhões de anos.
Os pesquisadores também destacam que essas diferenças podem afetar a forma como o calor é transportado do núcleo para o manto, influenciando diretamente a dinâmica global do planeta.
Relação entre essas estruturas e o vulcanismo na superfície
Uma das implicações mais relevantes dessas descobertas está na conexão entre as LLSVPs e o vulcanismo observado na superfície da Terra.
Estudos anteriores já sugeriam que plumas mantélicas, colunas de material quente que sobem do interior profundo, poderiam se originar nas bordas dessas estruturas. O novo trabalho reforça essa hipótese ao indicar que as propriedades físicas das LLSVPs podem favorecer a formação dessas plumas.

Regiões como o Havaí, as ilhas Galápagos e partes da África Oriental estão associadas a esse tipo de atividade. A ideia é que o calor acumulado na base do manto, próximo ao núcleo, possa gerar instabilidades que resultam na ascensão de material quente até a superfície.
Se as duas estruturas são diferentes entre si, isso pode explicar por que algumas regiões apresentam atividade vulcânica mais intensa ou persistente do que outras.
Além disso, a distribuição dessas estruturas pode influenciar a localização de hotspots ao longo do tempo geológico, ajudando a explicar padrões de vulcanismo que não estão diretamente ligados às bordas das placas tectônicas.
Origem dessas estruturas pode remontar à formação inicial da Terra
Uma das hipóteses mais discutidas é que essas grandes províncias de baixa velocidade sísmica sejam remanescentes de processos que ocorreram nos primeiros estágios da formação do planeta, há cerca de 4,5 bilhões de anos.
Durante esse período, a Terra teria passado por uma fase de oceano de magma global, seguida por processos de diferenciação que separaram materiais mais densos dos mais leves. Parte desse material denso pode ter afundado e se acumulado na base do manto, formando estruturas estáveis ao longo de bilhões de anos.
Se essa hipótese estiver correta, essas regiões seriam verdadeiros “fósseis” do início da Terra, preservando informações sobre a composição e a dinâmica do planeta primitivo.
O estudo de 2025 reforça essa possibilidade ao indicar que as diferenças entre as duas LLSVPs podem refletir variações nas condições iniciais de formação ou em processos subsequentes de evolução.
Impacto dessas descobertas na compreensão da dinâmica interna do planeta
A identificação de diferenças claras entre as duas maiores estruturas do manto profundo tem implicações diretas para modelos geodinâmicos globais.
Modelos anteriores frequentemente tratavam o manto como um sistema relativamente uniforme, com circulação convectiva que mistura material ao longo do tempo. No entanto, a persistência dessas estruturas sugere que partes do manto podem permanecer isoladas por longos períodos.
Isso implica que o interior da Terra pode ser menos misturado e mais compartimentalizado do que se pensava, o que afeta a forma como interpretamos dados sísmicos, modelos térmicos e a evolução química do planeta.
Além disso, essas descobertas podem influenciar a forma como os cientistas entendem a interação entre o núcleo e o manto, especialmente no que diz respeito à transferência de calor e à geração do campo magnético terrestre.
Limitações do estudo e próximos passos da pesquisa
Embora os resultados sejam robustos, os próprios autores destacam que ainda há limitações importantes. A principal delas é a dependência de dados sísmicos indiretos, que exigem modelos matemáticos complexos para serem interpretados.
Novas técnicas de imagem sísmica e simulações computacionais mais avançadas devem ajudar a refinar essas interpretações nos próximos anos. Além disso, estudos complementares que integrem dados geoquímicos e experimentos de laboratório podem fornecer uma visão mais completa dessas estruturas.
A expectativa é que futuras pesquisas consigam determinar com maior precisão a composição dessas regiões e sua relação com processos como subducção, formação de plumas e evolução térmica do planeta.
O que essas descobertas significam para o futuro da geociência e o que você acha dessa possibilidade
As evidências de que o interior da Terra abriga estruturas gigantes, distintas e potencialmente muito antigas reforçam a ideia de que ainda há muito a ser descoberto sobre o funcionamento do planeta.
Essas regiões profundas, invisíveis e inacessíveis, podem desempenhar um papel central na dinâmica global da Terra, influenciando desde o vulcanismo até a distribuição de calor e a evolução do manto ao longo de bilhões de anos.
A possibilidade de que existam “continentes enterrados” no interior do planeta, com histórias próprias e impacto direto na superfície, amplia significativamente o campo de investigação da geociência moderna.
Diante disso, fica a questão: se essas estruturas já estão moldando o planeta há centenas de milhões de anos, quantos outros processos invisíveis podem estar acontecendo neste exato momento nas profundezas da Terra sem que ainda tenhamos plena compreensão?

