Megaprojeto em Huelva reúne investimento bilionário, apoio europeu e disputa por novos sócios, em uma iniciativa que pode ampliar a produção de hidrogênio verde no sul da Europa e atender setores industriais que ainda enfrentam desafios para reduzir emissões.
A Moeve negocia a entrada da Hy24 e da Cofides no projeto Onuba, primeira etapa do Vale Andaluz do Hidrogênio Verde, em Huelva, no sul da Espanha, enquanto prepara a implantação de uma das principais apostas europeias em hidrogênio verde.
Previsto para começar com 300 MW de capacidade inicial, o empreendimento poderá reorganizar sua composição societária e manter a possibilidade de expansão, em um projeto classificado pela companhia como a maior planta de hidrogênio verde do sul da Europa.
Segundo a Europa Press, que citou fontes próximas à negociação, as conversas envolvem a substituição da fatia de 29% hoje atribuída à Masdar, empresa de energia renovável dos Emirados Árabes Unidos.
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Pela estrutura informada até agora, a Moeve seguirá como acionista majoritária, com 51% do projeto, enquanto a Enalter continuará ligada ao capital restante e a nova configuração dependerá do avanço das tratativas entre os grupos envolvidos.
Em março de 2026, a Moeve anunciou a decisão final de investimento para iniciar a construção do Onuba, etapa que exigirá mais de 1 bilhão de euros quando consideradas a planta de hidrogênio e as infraestruturas associadas.
Projeto Onuba terá 300 MW na primeira fase
Instalado em Palos de la Frontera, na província de Huelva, o Onuba ficará em uma região estratégica para a indústria energética espanhola e para a expansão de combustíveis renováveis voltados ao mercado europeu.
A primeira fase prevê 300 MW de eletrólise, tecnologia usada para produzir hidrogênio a partir da água com eletricidade renovável, sem emissões diretas de carbono durante o processo industrial de separação das moléculas.
Com essa capacidade, a planta poderá produzir cerca de 45 mil toneladas de hidrogênio verde por ano, volume considerado relevante para abastecer cadeias industriais e segmentos de transporte que buscam reduzir o uso de combustíveis fósseis.
A estimativa divulgada pela Moeve também aponta para uma redução aproximada de 250 mil toneladas anuais de CO2, associada à substituição de fontes fósseis em atividades industriais, no transporte pesado e em combustíveis renováveis.
Parte da produção será destinada, segundo a companhia, a combustíveis renováveis para transporte rodoviário, aviação e setor marítimo, áreas nas quais a descarbonização exige soluções de alta densidade energética.
Além desses mercados, o hidrogênio produzido deverá atender indústrias química e de fertilizantes, segmentos em que a redução de emissões costuma ser mais difícil por causa da intensidade energética e do uso de insumos fósseis.

Apoio público chega a 304 milhões de euros
Por meio do Plano de Recuperação, Transformação e Resiliência, financiado com recursos europeus do NextGenerationEU, o governo espanhol destinou 304 milhões de euros ao Vale Andaluz do Hidrogênio Verde.
A ajuda foi enquadrada no programa H2 Valleys, voltado a projetos capazes de criar polos regionais de produção e consumo de hidrogênio renovável, conectando infraestrutura energética, indústria e transporte.
Em junho de 2025, a Moeve também informou que a fase inicial havia recebido 303,75 milhões de euros no âmbito do PERTE ERHA, programa espanhol para energias renováveis, hidrogênio renovável e armazenamento.
Nas comunicações posteriores da companhia e de veículos especializados, esse montante passou a ser apresentado de forma arredondada como 304 milhões de euros, sem alteração relevante no sentido econômico do apoio público anunciado.
Outro ponto estratégico é o reconhecimento europeu como Projeto de Interesse Comum, classificação atribuída a infraestruturas consideradas relevantes para integração energética, segurança de abastecimento e transição climática no bloco.
Esse enquadramento reforça o peso do Onuba dentro da política energética da Espanha e da União Europeia, especialmente em um cenário de busca por produção local de combustíveis limpos.
Masdar pode deixar participação acionária
A Masdar, que entrou no projeto como parceira minoritária, pode deixar a estrutura acionária caso as negociações avancem, mas a saída do capital não significaria o rompimento completo com o empreendimento.
Segundo informações publicadas pela imprensa espanhola, a empresa permaneceria vinculada ao Onuba por meio de um contrato de compra de energia de longo prazo, conhecido no setor pela sigla PPA.
Nesse modelo, a Masdar atuaria como fornecedora de eletricidade renovável para o complexo, mesmo sem manter sua fatia societária, preservando o abastecimento limpo necessário à classificação do hidrogênio como renovável.
No caso da Hy24, a possível entrada no capital reforçaria a presença de um fundo francês especializado em infraestrutura de hidrogênio limpo, setor que vem atraindo investimentos ligados à transição energética.
A gestora já aparece na estrutura indireta da Enalter, uma vez que adquiriu participação majoritária na Enagás Renovable por meio de seu Fundo de Infraestruturas de Hidrogênio Limpo.
Já a Cofides, empresa público-privada espanhola voltada à gestão de instrumentos financeiros e apoio a investimentos, entraria como novo parceiro em um projeto que combina capital privado, financiamento europeu e interesse industrial.

Com essa presença, o Onuba ficaria ainda mais conectado à política pública de transição energética da Espanha, sem depender apenas de investidores privados para viabilizar sua implantação em escala industrial.
Expansão depende de rede elétrica e aprovação interna
Embora a fase aprovada tenha 300 MW, o desenho do Onuba prevê a possibilidade de adicionar mais 100 MW, desde que o projeto obtenha capacidade adicional na rede elétrica.
Também será necessária uma nova aprovação do conselho de administração da Moeve, condição interna para que a expansão avance além da etapa já autorizada e financiada pela companhia.
Nas páginas institucionais sobre o Vale Andaluz, a Moeve menciona a construção de uma planta em Palos de la Frontera com capacidade de eletrólise de 405 MW, número que inclui a expansão potencial.
A decisão final de investimento foi anunciada pela companhia em março de 2026, após aprovação do conselho de administração, marcando a passagem do projeto para a fase de implantação.
Na ocasião, a empresa informou que a construção começaria nas semanas seguintes, com fornecedores industriais já associados à primeira etapa e contratos voltados à entrega dos principais equipamentos.
Entre esses fornecedores está a thyssenkrupp nucera, contratada para fornecer 15 unidades padronizadas de eletrólise alcalina de 20 MW cada, totalizando 300 MW para a fase inicial.
O acordo cobre equipamentos da primeira fase e confirma a escala industrial do projeto em Huelva, onde a Moeve pretende estruturar um polo de hidrogênio verde conectado à demanda regional e europeia.
Hidrogênio verde mira setores de difícil descarbonização
A relevância do Onuba está ligada à tentativa de criar demanda estável para hidrogênio renovável em atividades nas quais a eletrificação direta ainda enfrenta limites técnicos, econômicos ou operacionais.
Entre os mercados prioritários citados pela Moeve estão aviação, transporte marítimo, transporte pesado, indústria química e fertilizantes, setores em que combustíveis renováveis e insumos limpos podem reduzir emissões.
No transporte aéreo e marítimo, o hidrogênio pode ser usado de forma indireta na produção de combustíveis renováveis, alternativa considerada importante para segmentos que exigem alta densidade energética.
Já na indústria química e de fertilizantes, ele pode substituir insumos de origem fóssil, reduzindo emissões associadas à produção de matérias-primas essenciais para diferentes cadeias produtivas.
Dentro de sua estratégia de transformação energética, a Moeve apresenta o Vale Andaluz como um dos eixos de expansão em negócios de baixo carbono, mantendo Huelva como base industrial relevante.
A companhia, anteriormente conhecida como Cepsa, passou por mudança de marca e busca ampliar sua atuação em energias limpas, sem abandonar a infraestrutura já existente em polos estratégicos da Espanha.
O projeto também dialoga com a estratégia europeia de reduzir dependência energética externa e ampliar a produção local de combustíveis limpos, especialmente em regiões com forte disponibilidade de energia renovável.
Por estar situado em uma área com potencial solar e infraestrutura industrial consolidada, o complexo andaluz reúne condições consideradas favoráveis para a produção de hidrogênio verde em larga escala.
A escala do investimento, a participação de fundos especializados e o apoio público europeu indicam que o Onuba ultrapassa a dimensão de uma planta isolada dentro do setor energético espanhol.
Em termos industriais, o empreendimento integra uma tentativa mais ampla de formar corredores de hidrogênio, conectando geração renovável, consumo produtivo e transporte de baixo carbono em diferentes cadeias econômicas.
Ainda assim, a concretização da nova estrutura societária depende do avanço das negociações entre Moeve, Hy24, Cofides, Masdar e os demais participantes envolvidos no projeto.
Até a confirmação formal, a alteração acionária deve ser tratada como uma negociação em curso, embora o Onuba já tenha investimento aprovado e construção autorizada pela companhia.


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