A agenda americana no Brasil ocorre em um momento de tensão comercial e reúne interesses de empresas, governos e investidores diante de mudanças que podem afetar exportações, fábricas e decisões de expansão internacional.
A Embaixada e os Consulados dos Estados Unidos no Brasil vão promover, entre julho e agosto de 2026, uma série de eventos em nove cidades brasileiras para apresentar a empresários caminhos para instalar ou ampliar operações no mercado americano.
A agenda ocorre enquanto o governo de Donald Trump avalia uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, medida que ainda estava em fase de análise pelas autoridades comerciais dos EUA.
Batizada de SelectUSA Every Day, a iniciativa reunirá representantes do Departamento de Comércio dos Estados Unidos, especialistas em internacionalização e parceiros ligados ao desenvolvimento econômico.
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A programação deverá abordar regras para entrada no mercado americano, aspectos tributários e operacionais, ambiente regulatório e incentivos oferecidos por estados norte-americanos.
Embora os encontros coincidam com o aumento das tensões comerciais entre Brasília e Washington, o SelectUSA não foi criado durante o atual governo Trump.
O programa existe desde 2011 e integra uma política permanente dos Estados Unidos para atrair investimentos estrangeiros, estimular a abertura de unidades produtivas e apoiar a geração de empregos no país.
SelectUSA passará por nove cidades brasileiras
O primeiro encontro do SelectUSA Every Day está previsto para 14 de julho, em Goiânia.
Na sequência, o programa passará por Uberlândia, em 15 de julho, e Uberaba, no dia seguinte.
As três cidades fazem parte de regiões com presença relevante dos setores industrial, agropecuário e de serviços.
A agenda será retomada em 27 de julho, em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.
São Carlos receberá o evento em 28 de julho, enquanto Londrina, no Paraná, terá uma edição no dia 29.
Em 31 de julho, será a vez de São José dos Campos, município que concentra empresas dos setores aeroespacial, tecnológico e industrial.
As duas últimas etapas anunciadas ocorrerão no Nordeste.
Fortaleza receberá o programa em 26 de agosto, e Recife encerrará o calendário divulgado no dia 27.
Segundo a representação diplomática americana, os encontros serão gratuitos e voltados a empresários, executivos e investidores interessados em conhecer as exigências para operar nos Estados Unidos.
A programação prevê informações sobre abertura e expansão de negócios, escolha de localidades, contratação de mão de obra e acesso a estruturas de apoio.
Também deverão ser apresentados aspectos relacionados a fornecedores, custos de operação e incentivos estaduais ou municipais disponíveis para projetos estrangeiros.

Tarifa de 25% sobre produtos brasileiros estava em análise
O roadshow ocorre em um período de incerteza para empresas brasileiras que exportam aos Estados Unidos.
Em 1º de junho de 2026, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, conhecido pela sigla USTR, apresentou uma proposta de cobrança adicional de 25% sobre produtos originários do Brasil.
A nova tarifa não havia sido formalmente implementada no momento da divulgação do programa.
O governo americano abriu um processo para receber manifestações de empresas, governos e entidades interessadas antes de tomar uma decisão definitiva.
A proposta foi apresentada com base na Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos.
O mecanismo permite que o governo adote tarifas ou outras restrições quando considera que práticas de outro país prejudicam empresas ou o comércio americano.
Segundo o USTR, a investigação envolveu temas como comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, aplicação de normas anticorrupção e combate ao desmatamento ilegal.
Essas são conclusões e alegações do governo dos Estados Unidos, contestadas em diferentes pontos por representantes brasileiros.
O texto submetido à consulta previa a aplicação da alíquota de 25% sobre mercadorias brasileiras, mas estabelecia exceções para determinados produtos.
Entre os itens que poderiam ficar de fora estavam artigos já submetidos a tarifas setoriais, matérias-primas sem oferta suficiente nos Estados Unidos e produtos cuja taxação poderia provocar impactos mais amplos na economia americana.
Uma audiência pública foi realizada em Washington em 6 de julho de 2026.
Durante essa etapa, representantes empresariais e políticos apresentaram argumentos sobre os possíveis efeitos das tarifas nas cadeias de produção, nos preços e no comércio bilateral.
Até a conclusão do processo, a cobrança permanecia classificada oficialmente como proposta.
O protecionismo adotado por Trump utiliza tarifas de importação como instrumento para estimular a produção dentro dos Estados Unidos.
O presidente afirma que a estratégia pode levar empresas estrangeiras a instalar fábricas no país, ampliar a contratação de trabalhadores americanos e reduzir a dependência de produtos fabricados no exterior.
Trump relaciona investimento da Toyota à política tarifária
Um dos casos usados por Trump para defender essa política foi o anúncio de um investimento de US$ 3,6 bilhões da Toyota em San Antonio, no Texas.
A montadora informou em 7 de julho de 2026 que ampliará sua unidade já existente na cidade e instalará uma segunda linha de montagem.
A nova estrutura deverá entrar em operação em 2030, acrescentar aproximadamente 150 mil veículos à capacidade anual da fábrica e criar mais de 2 mil empregos.
A companhia também planeja transferir, ao longo de cerca de quatro anos, a produção da caminhonete Tacoma realizada na unidade de Baja California, no México, para o Texas.
Após o anúncio, Trump atribuiu a decisão da empresa à política comercial de seu governo.
“A Toyota está se mudando do México para os Estados Unidos, Texas. Grande negócio. Tarifas em ação”, escreveu o presidente em uma publicação na Truth Social.
A Toyota, porém, não confirmou que a tarifa tenha sido o motivo determinante para o investimento.
Em resposta ao g1, a companhia afirmou que seus projetos seguem planejamento de longo prazo e projeções de mercado, além de objetivos estratégicos para a produção na América do Norte.
“Embora sejamos impactados pela evolução das políticas comerciais, nossos investimentos são decisões para várias décadas”, declarou a montadora.
A empresa acrescentou que a escolha de uma localidade considera fatores como disponibilidade de mão de obra, infraestrutura e proximidade de fornecedores.
O comunicado oficial da Toyota também apresenta o projeto como uma expansão da fábrica de San Antonio, e não como a construção de uma operação independente em outro endereço.
Mesmo com a transferência de parte da produção, a montadora informou que manterá a fabricação da Tacoma em Guanajuato, no México.
Programa SelectUSA foi criado pelo governo dos EUA em 2011
O SelectUSA foi instituído em 15 de junho de 2011, durante o governo de Barack Obama, por meio de uma ordem executiva.
Vinculado ao Departamento de Comércio, o programa recebeu a missão de coordenar ações federais destinadas a atrair e manter investimentos empresariais nos Estados Unidos.
Entre suas funções estão a divulgação do mercado americano, o fornecimento de informações sobre programas e incentivos públicos e a aproximação de investidores estrangeiros com autoridades estaduais e locais.
A iniciativa também atua na orientação de empresas que enfrentam dúvidas relacionadas a projetos de investimento.
De acordo com os dados divulgados pelo próprio Departamento de Comércio, o SelectUSA já facilitou mais de US$ 400 bilhões em investimentos desde sua criação.
O órgão afirma ainda que os projetos apoiados pelo programa contribuíram para criar ou preservar mais de 270 mil empregos nos Estados Unidos.
A passagem do SelectUSA por cidades brasileiras expõe duas frentes da política econômica americana: de um lado, o aumento das barreiras para determinados produtos importados; de outro, a oferta de informações e incentivos para que companhias estrangeiras transfiram parte de suas operações ao país.

