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Enquanto Arábia e Catar já fecham um trem-bala de 300 quilômetros por hora pra ligar as capitais em dois anos, o Brasil ainda está na etapa de leiloar a primeira ferrovia de carga que de fato deve sair do papel

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 30/05/2026 às 22:04
Atualizado em 30/05/2026 às 22:06
Enquanto Arábia e Catar já fecham um trem-bala de 300 quilômetros por hora pra ligar as capitais em dois anos, o Brasil
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Enquanto Arábia Saudita e Catar fecham um trem de alta velocidade de 300 quilômetros por hora para ligar as capitais em poucos anos, o Brasil, com dimensão continental e uma necessidade gritante de trilhos, ainda está na etapa de leiloar as primeiras ferrovias de carga que de fato prometem sair do papel.

Tem comparações que doem porque escancaram um atraso difícil de explicar. Do outro lado do mundo, dois países do Golfo assinaram um projeto para cruzar centenas de quilômetros de deserto a 300 quilômetros por hora, com operação prevista para começar em pouquíssimo tempo. Aqui, o Brasil, que precisa de ferrovia como precisa de comida, segue patinando para tirar do chão corredores discutidos há décadas.

E não estamos nem falando da mesma coisa. O Golfo planeja trem-bala de passageiro, o luxo da engenharia ferroviária. O Brasil ainda luta para entregar o básico, ferrovia de carga para escoar grão e minério, o tipo de obra mais simples e mais essencial que existe. Mesmo nesse patamar elementar, a gente arrasta projetos por vinte, trinta, quarenta anos.

O abismo não é de dinheiro, é de continuidade

A explicação fácil seria dizer que o Golfo tem petróleo e por isso constrói rápido. Mas dinheiro, sozinho, não levanta ferrovia. O que levanta é vontade política contínua, um plano que não muda a cada eleição e a disposição de bancar uma obra que só mostra resultado muitos anos depois de começada. E é exatamente aí que o Brasil tropeça, num ciclo em que cada governo refaz ou abandona o que o anterior começou.

Confesso que essa é a parte que mais me incomoda na nossa eterna novela ferroviária. Não falta projeto, não falta engenheiro, não falta nem necessidade. Falta a constância de tocar uma obra do início ao fim sem que ela vire refém de disputa política, de troca de comando ou de aperto orçamentário no meio do caminho. Ferrovia parada apodrece, encarece e desanima qualquer investidor.

Trem de alta velocidade moderno em estação
Enquanto o mundo coloca trens de alta velocidade para rodar, o Brasil ainda leiloa ferrovias de carga.

Obras que o brasileiro cresceu ouvindo falar

Pense nos nomes que viraram quase piada de tanto que demoram. A Transnordestina, iniciada lá em 2006, só agora chega à reta final. A Ferrogrão, travada cinco anos numa disputa judicial, mal foi liberada. São obras que uma geração inteira de brasileiros cresceu ouvindo prometer sem nunca ver prontas, e que só agora dão sinais concretos de avanço, depois de sobreviver a tudo que poderia tê-las matado.

O país anunciou um plano ambicioso de destravar uma leva de ferrovias nos próximos anos, com investimentos que somam centenas de bilhões de reais. É uma boa notícia, sem dúvida. Mas é impossível não notar a diferença de ritmo, enquanto a gente comemora finalmente leiloar e destravar, outros já assinam, constroem e inauguram, num intervalo de tempo que aqui mal daria para concluir os estudos.

Trem-bala moderno representando infraestrutura de ponta
A diferença não está no dinheiro, mas na constância de tocar uma obra do começo ao fim.

O custo invisível da lentidão

Essa lentidão tem um preço que ninguém vê na conta, mas que o país paga todo dia. Sem ferrovia suficiente, o Brasil escoa boa parte da sua produção por estrada, num custo de frete altíssimo que corrói a competitividade do agronegócio e encarece tudo que se transporta. Cada ano de atraso de uma ferrovia é mais um ano de caminhão demais, rodovia destruída e lucro escorrendo pelo ralo do transporte caro.

É um daqueles atrasos silenciosos que não viram manchete, mas que pesam na economia inteira. Enquanto países menores e com menos terra constroem malhas ferroviárias modernas, o Brasil, um dos maiores produtores agrícolas do planeta, segue dependente demais do asfalto. A gente exporta gigante e transporta como se fosse pequeno, e essa contradição custa bilhões a cada safra.

E não é que o Brasil nunca tenha tentado. O país chegou a ter uma malha ferroviária respeitável no passado, que foi sendo desmontada ao longo do século passado em favor das rodovias. Mais recentemente, projetos como o famoso trem-bala entre Rio e São Paulo foram anunciados com pompa, estudados, orçados e simplesmente engavetados, virando símbolo de promessa que não vinga. Cada um desses recomeços frustrados custou caro e deixou a sensação de que a gente sabe sonhar grande, mas tropeça na hora de transformar o sonho em trilho assentado no chão. Enquanto isso, países que começaram do zero, sem nenhuma tradição ferroviária, ultrapassaram o Brasil e hoje exibem malhas modernas que a gente só vê em foto. É um atraso que não se explica por falta de capacidade técnica, porque engenheiro brasileiro projeta e constrói ferrovia mundo afora.

Estação ferroviária moderna de alta velocidade
Cada ano de atraso de uma ferrovia é mais um ano de frete caro corroendo a economia.

O espelho que o mundo oferece

Não trago essa comparação para diminuir o Brasil, mas para dimensionar o que é possível quando um país decide, de verdade, priorizar infraestrutura. O Golfo mostra que obra gigante pode sair rápido quando há plano firme e continuidade. O recado não é que falta dinheiro por aqui, é que falta tratar ferrovia como política de Estado, acima de mandatos e de brigas passageiras.

A boa notícia é que algo finalmente parece se mover, com a Transnordestina na reta final e a Ferrogrão destravada. Talvez a gente esteja, enfim, aprendendo a lição que o resto do mundo já pratica. Mas, por enquanto, ainda olhamos de longe enquanto outros cortam fitas de trens que cruzam desertos na velocidade que a nossa burocracia leva só para começar a discutir, e essa diferença de ritmo é a verdadeira distância entre nós e eles.

Por que será que o Brasil, tão grande e tão produtivo, ainda não conseguiu tratar ferrovia como prioridade de verdade?

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Edna Toffanetto
Edna Toffanetto
04/06/2026 20:11

Que País é esseeee…..é o nosso Brasil…vamos acreditar….🤔🤔🤔🤔🤔

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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