Depois de décadas abandonado na Praça Mauá, o Edifício A Noite ganha nova vida como residencial de luxo no centro do Rio, impulsionado pelo programa Reviver Centro e com mirante aberto ao público.
Depois de décadas como símbolo do abandono no centro do Rio, o Edifício A Noite deixa de ser fantasma de concreto na Praça Mauá para ganhar uma nova vida como residencial de luxo, com apartamentos modernos e um mirante aberto ao público no topo.
No mesmo prédio que já foi cartão de visitas da capital federal, palco da era de ouro do rádio e observatório de guerra, um novo capítulo está em obras. A compra pelo poder público, a venda para a iniciativa privada e o enquadramento no programa Reviver Centro abriram caminho para transformar o antigo gigante art déco em residencial de luxo com 447 unidades, restaurante de alto padrão e um mirante a 102 metros de altura, devolvendo o edifício à paisagem e ao cotidiano dos cariocas.
Do cartão de visitas do Brasil ao gigante art déco da Praça Mauá

Muito antes de se falar em residencial de luxo, o que existia ali era outro símbolo da cidade. No terreno da Praça Mauá, na ponta da antiga Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco, funcionava o Liceu Literário Português, um edifício clássico que acabou dando lugar ao novo gigante de concreto.
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A localização não foi escolhida por acaso. O prédio ficava exatamente ao lado do porto do Rio, sendo a primeira visão de quem desembarcava na capital federal. Era o cartão de visitas de um Brasil que queria deixar de ser apenas ex-colônia para se mostrar cosmopolita.
Para erguer algo tão ousado, foi montado um time de peso. O projeto arquitetônico levou a assinatura do francês Joseph G., o mesmo nome ligado ao Copacabana Palace, ao lado do brasileiro Elisário Bahiana. A parte estrutural ficou com Emílio Henrique Baumgart, engenheiro responsável pelos cálculos do prédio.
Eles utilizaram a novíssima tecnologia do concreto armado, o que representou um salto na engenharia nacional. O resultado foi um edifício que, na época, foi anunciado como o mais alto do mundo construído com essa técnica, soberano na América Latina durante toda a década de 1930 e inspirado nos arranha-céus de Chicago.
Desde o início, o A Noite foi um choque de escala na Praça Mauá. Era tão mais alto do que as construções vizinhas que praticamente dominava a paisagem. Naquele momento, ninguém falava em residencial de luxo, mas, na prática, o prédio já representava uma nova ideia de cidade, vertical, moderna e ligada ao mundo.
Olimpo do rádio: quando o prédio era o centro da cultura brasileira
Embora o nome oficial fosse Edifício Joseph G., o apelido pegou de outro lugar. O prédio nasceu para ser sede do jornal vespertino A Noite, fundado em 1911 por Irineu Marinho. O letreiro do jornal no topo, visível de longe, acabou batizando o edifício para sempre.
Além da redação, o prédio funcionava como um centro comercial sofisticado, abrigando consulados, restaurantes e sedes de empresas multinacionais, como Pan Am e Philips. Nessa fase, o A Noite já era, de certo modo, um ponto de encontro da elite, muito antes de alguém imaginar o atual projeto de residencial de luxo.
O ponto de virada veio em 12 de setembro de 1936, com a chegada da Rádio Nacional. A partir daí, o A Noite se transformou no verdadeiro Olimpo das estrelas brasileiras.
O 22º andar ficou famoso em todo o país. Pelos elevadores e corredores do edifício circulavam nomes como Francisco Alves, Orlando Silva, Emilinha Borba, Marlene, Cauby Peixoto, Dalva de Oliveira e Luiz Gonzaga. Ali nasceram rivalidades, modas musicais e programas que paravam o Brasil.
Não era só música. O prédio foi berço do “repórter Esso, a testemunha ocular da história”, e das grandes radiovelas que grudavam famílias inteiras em volta do rádio, muito antes da televisão dominar as salas.
Durante esse período, o A Noite era tão central para a cultura brasileira quanto promete voltar a ser para a vida urbana da Praça Mauá como residencial de luxo.
Guerra, burocracia e a longa batalha pelo tombamento
O brilho do A Noite também cruzou períodos turbulentos. Durante a Segunda Guerra Mundial, o último andar do edifício serviu como posto de observação da Marinha. Sentinelas, munidas de binóculos, vigiavam a entrada da Baía de Guanabara em busca de possíveis submarinos inimigos.
Depois do conflito, o prédio enfrentou outra guerra, agora burocrática. Em 1940, devido a dívidas do grupo jornalístico, o edifício passou para as mãos da União, tornando-se oficialmente voz do governo federal.
Décadas depois, a discussão passou a ser se o prédio merecia proteção formal. Documentos mostram que, em 1989, o órgão de preservação quase desistiu de tombá-lo, alegando que o valor da Rádio Nacional seria imaterial e que o edifício, em si, não teria tanta importância arquitetônica.
Foi uma batalha de mais de 20 anos até o reconhecimento. De 1988 a 2010, discutiu-se o valor histórico do conjunto. Em 2013, o A Noite foi finalmente tombado, reconhecido como patrimônio indivisível, onde arquitetura, memória do rádio e papel urbano formam uma coisa só.
Esse tombamento é um dos motivos que fazem o atual projeto de residencial de luxo ser tão sensível. Não se trata de demolir e reconstruir: é adaptar, restaurar e dar nova função a um ícone, sem apagar sua história.
Do fantasma caro ao novo residencial de luxo da Praça Mauá
Com a saída definitiva da Rádio Nacional e do INPI em 2012, o gigante silencioso se transformou em um problema caro. Manter aquele volume vazio custava mais de 1 milhão de reais por ano aos cofres públicos.
Entre 2021 e 2022, o governo tentou leiloar o imóvel cinco vezes. Em 2021, o lance inicial chegou a 98 milhões de reais, mas o martelo nunca bateu. Ninguém queria assumir o risco de revitalizar aquele colosso tombado em plena área central esvaziada.
O cenário mudou em 2023. A prefeitura do Rio comprou o prédio por 28,9 milhões de reais e, em seguida, o revendeu para a iniciativa privada por 36 milhões. Dentro do programa Reviver Centro, o edifício entrou em um novo ciclo.
Hoje, o projeto está nas mãos da empresa responsável pela conversão, com investimento do grupo Brookfield, transformando o antigo edifício de escritórios em um residencial de luxo com 447 unidades. É a virada simbólica: o que era problema de manutenção passa a ser ativo imobiliário, moradia e presença constante de gente na área.
Como será morar em um ícone histórico transformado em residencial de luxo
O plano não é apenas encher o prédio de apartamentos. O Edifício A Noite está sendo redesenhado para funcionar como um verdadeiro residencial de luxo com serviços e espaços compartilhados que dialogam com sua história.
No 22º andar, onde antes ficava o auditório da Rádio Nacional e onde tantas estrelas se apresentaram, serão construídos apartamentos duplex, preservando o pé-direito original. É uma forma de transformar o palco da era de ouro do rádio em espaço de moradia diferenciada, sem apagar a memória do lugar.
Ao todo, o projeto prevê 447 unidades residenciais distribuídas pelos andares, seguindo a lógica de aproveitar a estrutura existente e adaptá-la à vida contemporânea.
A ideia é que o residencial de luxo atraia moradores que buscam viver no centro histórico com conforto moderno, perto do porto, do Museu do Amanhã, do MAR e de toda a revitalização da região.
Mais do que vender vistas e acabamentos, esse tipo de empreendimento oferece algo que poucos prédios conseguem entregar: morar em um símbolo da cidade, com camadas de história em cada corredor.
Mirante, restaurante e cultura: o topo volta a ser do público
Um dos pontos mais importantes do projeto é que ele não fecha totalmente o prédio para dentro. O topo do Edifício A Noite vai voltar a ser público.
Lá em cima, está prevista a instalação de um restaurante de alto padrão e de um mirante a 102 metros de altura, recuperando a ideia original do terraço como ponto de observação da cidade. No passado, dali se via a Baía de Guanabara quase inteira e boa parte do Rio. Agora, essa experiência será repaginada, combinando vista panorâmica com gastronomia e turismo.
Isso significa que, mesmo convertido em residencial de luxo, o prédio continua sendo um ponto de encontro da cidade com a sua própria memória. Moradores, turistas e cariocas poderão subir, olhar para o porto, para a Praça Mauá e para o centro e reviver, de outro jeito, o papel que o A Noite sempre teve na paisagem carioca.
A previsão de entrega do novo conjunto é para agosto de 2027, o que marca o retorno oficial do soberano da Praça Mauá à cena urbana. Em vez de andar vazio e janelas escuras, a expectativa é de luz acesa, elevadores em movimento e um fluxo constante de moradores e visitantes.
O que o renascimento do A Noite diz sobre o futuro do centro do Rio
Ver o antigo A Noite ser restaurado e ganhar função como residencial de luxo não é apenas uma mudança de uso. É um sinal de como o centro do Rio está tentando se reinventar.
Por décadas, o edifício foi testemunha da verticalização da cidade, da glória do rádio, da mudança do porto e, mais recentemente, do esvaziamento da área central. Agora, entra em uma fase em que moradia, cultura e turismo se misturam em um único endereço.
Quando moradores começarem a dormir onde antes se transmitiam programas históricos, quando visitantes subirem ao mirante para ver o mesmo horizonte que já foi vigiado na guerra, o Edifício A Noite vai provar que é possível atualizar um ícone sem apagar o que ele representa.
E você, moraria em um residencial de luxo como o Edifício A Noite, cheio de história e bem no coração da Praça Mauá, ou preferiria visitar só o mirante e o restaurante no topo para matar a curiosidade?


Residencial de luxo com 447 unidades??? Não está batendo.