Presidente da Cooperativas U, dona da maior rede de supermercados da França, promete boicotar carne, açúcar, arroz, mel e soja do Mercosul se acordo UE Mercosul avançar, chama tratado de Shein da concorrência desleal e pressiona Macron no Parlamento Europeu e no Senado francês nesta semana em Bruxelas e Paris
Em 16 de dezembro de 2025, em plena reta final das negociações do acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul, o presidente das Cooperativas U, quarta maior rede de supermercados da França, anunciou que boicotará produtos sul-americanos caso o tratado entre em vigor, reacendendo o debate sobre o poder de barganha da maior rede de supermercados da França e de outros gigantes do varejo alimentar europeu diante da crise agrícola.
Na mesma terça-feira, 16 de dezembro de 2025, o Parlamento Europeu aprovou medidas de salvaguarda para tentar limitar o impacto do acordo sobre agricultores europeus, enquanto chefes de Estado dos 27 países da UE se preparavam para discutir o texto em 18 de dezembro, em Bruxelas, e líderes europeus e sul-americanos miravam uma assinatura em 20 de dezembro de 2025, durante a cúpula do Mercosul em Foz do Iguaçu, transformando o dossiê UE Mercosul em peça central de uma guerra agrícola aberta entre produtores europeus e exportadores do bloco sul-americano.
CEO da Cooperativas U ameaça boicotar carne, soja, açúcar e mel do Mercosul

O anúncio partiu de Dominique Schelcher, CEO das Cooperativas U, grupo que reúne supermercados cooperativos e ocupa a posição de quarta maior rede de supermercados da França.
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Em entrevista à RMC e à BFMTV, ele afirmou textualmente que “não compraremos esses produtos se eles chegarem à França”, referindo-se às importações sul-americanas que seriam facilitadas pelo acordo UE Mercosul.
Segundo Schelcher, a rede não comprará produtos da América do Sul quando houver equivalentes franceses disponíveis nas gôndolas.
A ameaça atinge diretamente carne, açúcar, arroz, mel e soja do Mercosul, setores que aparecem como beneficiários evidentes do lado sul-americano no tratado.
Ao colocar o boicote sobre a mesa, o dirigente tenta usar o peso comercial da maior rede de supermercados da França e de outras grandes cadeias como instrumento de pressão contra o avanço do acordo.
Mercosul comparado à Shein e acusado de concorrência desleal

Na mesma entrevista, Schelcher classificou o Mercosul como “uma Shein da concorrência desleal”, numa referência direta à plataforma chinesa de comércio eletrônico, frequentemente criticada por práticas agressivas de preço e por pressão sobre concorrentes.
Para ele, o problema não é a existência de tratados, mas o fato de permitir a entrada de produtos menos regulados em um mercado em que agricultores europeus são submetidos a normas ambientais e sanitárias mais rígidas.
O executivo argumenta que, ao impor normas pesadas aos produtores franceses e ao mesmo tempo autorizar a chegada de mercadorias com restrições menores, Bruxelas cria um quadro de concorrência desleal que enfraquece a agricultura local e distorce preços na prateleira.
Nesse discurso, a maior rede de supermercados da França é citada como símbolo de um varejo que estaria sob pressão para privilegiar produtos nacionais, mesmo diante de acordos que ampliam a oferta de itens importados.
Acordo UE Mercosul favorece exportações industriais europeias e agro brasileiro
O texto original do tratado UE Mercosul foi estruturado para favorecer exportações europeias de automóveis, máquinas, vinhos e bebidas destiladas, abrindo mais espaço para a indústria da União Europeia na América do Sul.
Em contrapartida, o acordo facilita a entrada na Europa de carne, açúcar, arroz, mel e soja sul-americanos, justamente os produtos que mais preocupam agricultores franceses e parte significativa do setor agro da UE.
Do ponto de vista do agro brasileiro e dos demais países do Mercosul, o tratado representa uma oportunidade de ampliar a presença de commodities agrícolas em um mercado de alto poder de compra, pressionando a estrutura de preços e de quotas hoje em vigor.
É essa ampliação do espaço para a carne e a soja brasileiras, entre outros produtos, que alimenta o discurso de “guerra agrícola” na França e intensifica a reação de redes de supermercados e sindicatos rurais.
Parlamento Europeu aprova salvaguardas, mas resistência francesa continua
Na véspera das decisões finais, o Parlamento Europeu aprovou um pacote de salvaguardas reforçadas, desenhado para limitar o impacto do acordo UE Mercosul sobre agricultores do bloco.
A expectativa em Bruxelas era que essas garantias adicionais facilitassem a votação pelos chefes de Estado e de governo dos 27 países da UE, prevista para 18 de dezembro de 2025, apesar da resistência explícita da França e da Itália.
Ainda assim, Paris trabalha para adiar ou bloquear o texto.
No domingo anterior, o governo francês havia pedido oficialmente o adiamento da assinatura do pacto, que dirigentes europeus e sul-americanos gostariam de concretizar em 20 de dezembro de 2025, durante a cúpula do Mercosul em Foz do Iguaçu.
A ofensiva de redes de supermercados, como a Cooperativas U, soma-se a essa pressão política, ampliando o custo de um eventual aval francês ao tratado.
Senado francês, partidos e extrema direita se alinham contra UE Mercosul
No plano interno, a classe política francesa praticamente se unificou contra o acordo.
O Senado aprovou uma resolução pedindo que o governo recorra à Corte de Justiça da União Europeia para tentar barrar o procedimento adotado pela Comissão Europeia, considerado potencialmente incompatível com os tratados da UE.
Embora a resolução não seja vinculante, ela envia um sinal claro de que a maioria do Senado quer ver o texto bloqueado.
Na Assembleia Nacional, uma resolução semelhante, apresentada pela esquerda radical França Insubmissa, também já havia sido aprovada no fim de novembro, sem efeito jurídico direto, mas reforçando a oposição política ao tratado.
A líder da Reunião Nacional, Marine Le Pen, voltou a exigir que Emmanuel Macron “diga não” ao acordo, afirmando que está em jogo a sobrevivência da agricultura francesa e, por extensão, a soberania do país, em plena escalada da guerra agrícola com o Mercosul.
Papel da Alemanha, da Itália e da Comissão Europeia na reta final
Enquanto Paris endurece, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, mantém a intenção de viajar ao Brasil para concluir as discussões e assinar o acordo, contando com o apoio ativo da Alemanha.
Berlim e a Comissão pressionam Roma, já que a chefe do governo italiano, Giorgia Meloni, é vista por diplomatas como a dirigente que “tem as chaves” do dossiê, podendo destravar ou enterrar o processo.
Nos bastidores, eurodeputados afirmam que, se o pacto não for assinado rapidamente, corre o risco de ficar comprometido, dada a convergência de resistência em vários parlamentos nacionais e o calendário eleitoral europeu.
Nesse contexto, a reação de grandes grupos de varejo, incluindo a maior rede de supermercados da França e a quarta maior, que é a Cooperativas U, alimenta a percepção de que o custo político do tratado cresce mais rápido do que os ganhos econômicos prometidos.
Protestos de agricultores e escalada da guerra agrícola franco sul-americana
A ofensiva do varejo se soma a meses de mobilização de agricultores franceses, que já tomaram as ruas em 14 de outubro de 2025, em Paris, contra o acordo UE Mercosul.
Cartazes e tratores ocupando avenidas sintetizavam o temor de perda de renda diante da entrada de carne e grãos mais baratos do Mercosul.
Para esses produtores, o tratado amplia desigualdades entre um campo europeu hiperregulado e concorrentes sul-americanos submetidos a padrões diferentes.
Ao rotular o Mercosul como “Shein da concorrência desleal”, o presidente da Cooperativas U tenta se alinhar ao discurso rural, projetando a imagem de um varejo nacionalista que se recusa a comprar produtos considerados injustos com os agricultores locais.
Na prática, a ameaça de boicote funciona como recado político dirigido a Macron, a Bruxelas e aos parceiros do bloco, em um momento em que carne, soja e açúcar do Brasil estão no centro da disputa.
Na sua avaliação, a ameaça da Cooperativas U e a pressão da maior rede de supermercados da França e de outras grandes cadeias devem levar Macron a enterrar de vez o acordo UE Mercosul ou o boicote ficará apenas no discurso em meio à guerra agrícola entre Europa e Mercosul?

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