Unidade tradicional da Isover, em Santo Amaro, terá produção industrial encerrada após acordo com Ministério Público e Cetesb, em uma mudança que envolve trabalhadores, reclamações antigas de moradores e novas obrigações ambientais para a Saint-Gobain até 2028.
A Isover, marca do Grupo Saint-Gobain, vai encerrar até julho de 2026 a produção industrial de lã de vidro em sua unidade de Santo Amaro, na zona sul de São Paulo, após firmar um Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público paulista e a Cetesb.
Assinado em 22 de dezembro de 2025, o acordo estabelece o fim gradual das atividades fabris no endereço e muda a função da unidade, que deixará de produzir materiais isolantes para atuar apenas como centro de distribuição da marca.
A decisão atinge cerca de 100 empregados diretos e outros 50 trabalhadores indiretos, segundo estimativa informada pela empresa à Folha de S.Paulo, além de envolver famílias ligadas há anos à rotina da fábrica instalada no bairro desde 1951.
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Para reduzir os impactos sociais da desativação, a companhia afirma que usará o período previsto no acordo para conduzir o encerramento de forma gradual, com medidas voltadas aos funcionários diretamente vinculados à operação industrial.
Produção de lã de vidro termina em 2026
Pelo cronograma definido no TAC, a Saint-Gobain deverá interromper a produção de lã de vidro até 4 de julho de 2026, etapa que marca o fim da atividade fabril da Isover em Santo Amaro.
Já o desligamento definitivo do forno de fusão, equipamento central no processo produtivo da unidade, está previsto para ocorrer até 31 de julho do mesmo ano, conforme as obrigações assumidas pela empresa.
Embora a fábrica deixe de produzir, o endereço não será abandonado de imediato nem significará a saída da marca do país, pois o espaço passará a funcionar como centro de distribuição após o encerramento industrial.
A desmobilização completa da planta deve seguir até 2028, período em que a companhia terá de cumprir etapas ambientais, retirar equipamentos, destinar resíduos e atender às exigências previstas no acordo firmado com os órgãos responsáveis.
No processo de fabricação, a lã de vidro passa por etapas como fibragem, cura em estufa e operação do forno de fusão, que compõem a produção de materiais usados em isolamento térmico e acústico.
Esses produtos têm aplicação em obras, instalações industriais e diferentes segmentos que utilizam soluções de construção e infraestrutura, embora a unidade de Santo Amaro deixe de participar dessa etapa produtiva depois do prazo definido.
Reclamações de moradores motivaram apuração
O fechamento industrial ocorre depois de reclamações de moradores do entorno e de autuações ambientais ligadas a odores, ruídos e emissão de poluentes, problemas que levaram o Ministério Público a acompanhar o caso.
Segundo a Folha, as queixas apresentadas pela vizinhança resultaram na abertura de um inquérito civil pelo Ministério Público de São Paulo e em fiscalizações realizadas pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo.
Entre 2023 e 2025, a companhia acumulou autos de infração principalmente por emissão de odores perceptíveis fora dos limites da propriedade e por descumprimento de penalidades anteriores aplicadas à operação.
Moradores relatavam incômodos com fumaça, mau cheiro e barulho em uma área que, ao longo das últimas décadas, passou por forte adensamento urbano e ganhou presença cada vez maior de residências próximas à fábrica.
Também alvo de denúncias de poluição e ruído, a fábrica de lã de vidro da Saint-Gobain em Santo Amaro teve o fechamento industrial registrado pela Veja São Paulo, que informou a futura conversão do espaço em centro de distribuição.
Firmado entre a empresa, o Ministério Público paulista e a Cetesb, o TAC prevê ainda a implementação de um plano de gerenciamento de áreas contaminadas e multa diária de R$ 10 mil em caso de descumprimento das obrigações assumidas.
Empresa afirma cumprir legislação ambiental
A Isover afirma que atua no endereço há mais de 70 anos em conformidade com a legislação e com critérios de sustentabilidade e segurança da saúde humana estabelecidos por entidades nacionais e internacionais.
Em manifestação sobre o caso, a companhia também declarou que a decisão foi tomada depois de um processo de diálogo com a vizinhança e com órgãos fiscalizadores envolvidos no acompanhamento das atividades da unidade.
Entre as medidas citadas para melhorar a convivência com a comunidade estão reforços no isolamento acústico, investimentos para reduzir a emissão de vapor de água, suspensão de atividades aos fins de semana e fim de descarregamentos noturnos.
A empresa também mencionou canais de comunicação com moradores de Santo Amaro, além de ações voltadas à redução de impactos no entorno enquanto a produção industrial segue ativa até o prazo estabelecido no acordo.
Até a paralisação das atividades fabris, a Saint-Gobain deverá manter sistemas de controle ambiental em operação, cumprir limites de emissão e apresentar relatórios periódicos aos órgãos responsáveis pela fiscalização do TAC.
O acordo ainda determina investigação, diagnóstico e remediação do solo, além da desmontagem de equipamentos industriais e da destinação adequada dos resíduos existentes no local durante o processo de desmobilização.
Trabalhadores e vizinhança sentem impactos distintos
Para os empregados, o encerramento da produção representa uma mudança direta na rotina profissional e no vínculo com uma fábrica histórica da capital paulista, cuja operação industrial atravessou mais de sete décadas.
A própria empresa calculou que mais de 100 famílias de colaboradores diretos serão impactadas, sem contar os trabalhadores indiretos ligados à cadeia de serviços, logística e suporte à atividade da unidade.
Na avaliação de moradores do entorno, por outro lado, o acordo atende a uma demanda antiga relacionada aos impactos ambientais e urbanos atribuídos à operação da fábrica em Santo Amaro.
A vereadora Renata Falzoni, do PSB, acompanhou discussões sobre o caso e afirmou à Folha que a desativação da fábrica atende a uma reivindicação apresentada pela população local ao longo do processo.
Mesmo com o impacto trabalhista, a medida não representa o fim da presença da Isover ou da Saint-Gobain no Brasil, mas sim o encerramento da atividade industrial da planta localizada na zona sul paulistana.
Ainda sem definição pública sobre o destino final da área, o terreno ocupado pela fábrica seguirá submetido às etapas do acordo, enquanto o Ministério Público acompanha o cumprimento das obrigações assumidas pela empresa nos próximos anos.
