Procedimento conectou China e Brasil por meio de robótica cirúrgica, com atuação remota de um médico brasileiro e equipe presencial em Porto Alegre durante uma retirada de vesícula biliar.
Um procedimento de telecirurgia robótica conectou Wuhan, na China, a Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, para a retirada da vesícula biliar de um paciente de 47 anos no Hospital Mãe de Deus.
A operação foi conduzida pelo cirurgião geral e robótico Norberto Martins, que comandou os movimentos à distância por meio do robô chinês Toumai, enquanto uma equipe médica permaneceu no centro cirúrgico brasileiro.
A cirurgia ocorreu em 20 de maio de 2026 e foi apresentada pelo hospital como uma das telecirurgias de maior distância já realizadas no mundo.
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Entre Wuhan e Porto Alegre, a distância informada pelas instituições envolvidas é de cerca de 18.900 quilômetros em linha reta.
O procedimento integrou uma programação científica internacional.
A operação fez parte do 10º Congresso Acadêmico da Seção Chinesa da Associação Internacional de Hepato-Pancreato-Biliar, realizado na China entre 18 e 24 de maio.
Como a telecirurgia robótica conectou China e Brasil
Norberto Martins ficou em um console em Wuhan, de onde acionou os comandos cirúrgicos.
Em Porto Alegre, os braços robóticos instalados no Hospital Mãe de Deus reproduziram os movimentos durante o procedimento.
A cirurgia foi uma colecistectomia, nome técnico da retirada da vesícula biliar.
Segundo informações divulgadas pelo portal G1, a operação foi concluída com sucesso e contou com o apoio presencial do médico Guilherme Pesce, coordenador do Serviço de Cirurgia do Mãe de Deus, que acompanhou o paciente no Brasil.
A tecnologia permite que o cirurgião opere com visão ampliada e movimentos controlados por uma plataforma robótica.
O robô, no entanto, não atua de forma autônoma.
Ele responde aos comandos do médico, que permanece responsável pela condução da cirurgia e pelas decisões durante o procedimento.
De acordo com as informações divulgadas pelos envolvidos na operação, os movimentos feitos pelo cirurgião em Wuhan foram transmitidos ao robô em Porto Alegre com tempo de resposta de cerca de 200 milissegundos, intervalo inferior a um quarto de segundo.
O que muda em uma cirurgia feita com robô
A cirurgia robótica é uma técnica minimamente invasiva.
Em vez de grandes incisões, o procedimento costuma utilizar pequenos acessos, por onde entram câmera e instrumentos controlados pelo sistema robótico.
Entre os recursos citados por hospitais que utilizam a tecnologia estão a ampliação da imagem, a estabilidade dos movimentos e a redução de tremores involuntários.
Segundo especialistas da área, essas características podem favorecer manobras delicadas em regiões anatômicas de difícil acesso.
No caso do Hospital Mãe de Deus, o robô Toumai é descrito pela instituição como uma plataforma preparada para telecirurgia avançada.
O hospital informou que foi a primeira instituição da região Sul a adquirir o sistema e que, em outubro de 2025, realizou a primeira telecirurgia robótica não experimental da América Latina em parceria com o Hospital Nove de Julho, em São Paulo.
Além do Toumai, o Mãe de Deus mantém outros sistemas robóticos em seu parque tecnológico.
Entre eles estão o Mazor, usado em procedimentos de coluna, e o CORI, voltado a cirurgias ortopédicas.

Hospitais brasileiros ampliam uso de cirurgia robótica
A operação entre China e Brasil ocorre em um contexto de expansão da robótica cirúrgica em hospitais brasileiros.
A tecnologia passou a ser usada em programas de assistência, ensino e pesquisa em diferentes instituições do país.
Em Porto Alegre, o Hospital São Lucas da PUCRS realizou em janeiro de 2026 a primeira cirurgia robótica de sua história.
O procedimento foi uma cirurgia torácica pulmonar em um paciente do Sistema Único de Saúde, com uso da plataforma Versius, da CMR Surgical.
O hospital universitário informou que o programa foi criado para integrar precisão cirúrgica, segurança assistencial e formação médica.
A instituição também afirma que a tecnologia oferece visão tridimensional ampliada, estabilidade e refinamento técnico, sempre sob controle do cirurgião.
Esse ponto é relevante para diferenciar cirurgia robótica de automação.
Apesar do nome, o robô não substitui o profissional.
A plataforma funciona como uma extensão dos comandos do médico, com instrumentos articulados e recursos de imagem usados durante a operação.
Formação médica acompanha avanço da robótica cirúrgica
A ampliação desse tipo de procedimento também depende de treinamento especializado.
Na Santa Casa de Porto Alegre, o Centro de Formação em Cirurgia Robótica foi criado em 2021 e já havia capacitado mais de 180 profissionais até junho de 2023, segundo a própria instituição.
A preparação combina aulas teóricas, prática supervisionada e simulação.
Antes de atuar em procedimentos reais, médicos treinam em ambientes controlados que reproduzem situações encontradas no centro cirúrgico.
A Santa Casa também oferece certificação em cirurgia robótica com módulos on-line, treinamento presencial em simulador e prática em plataforma robótica.
A formação é direcionada a médicos especialistas e residentes que buscam qualificação nessa área.
Com mais profissionais treinados, hospitais brasileiros têm ampliado o uso da tecnologia em diferentes especialidades.
Entre as áreas que já utilizam plataformas robóticas estão urologia, ginecologia, cirurgia geral, cirurgia torácica, coloproctologia e procedimentos do aparelho digestivo.
Equipe presencial segue essencial na telecirurgia
A telecirurgia não elimina a presença de uma equipe no hospital onde o paciente está internado.
No centro cirúrgico, médicos, anestesistas, enfermeiros e técnicos seguem responsáveis por monitorar o paciente, preparar os equipamentos, acompanhar o procedimento e agir em caso de intercorrências.
A diferença está na possibilidade de o especialista comandar a operação a partir de outro local, mesmo a milhares de quilômetros de distância.
Para a medicina, esse recurso abre discussões sobre acesso a profissionais altamente especializados, infraestrutura hospitalar, conectividade e protocolos de segurança.
A adoção em maior escala, segundo especialistas, depende de redes estáveis, equipes treinadas, normas claras e acompanhamento dos resultados clínicos.
A conexão entre Wuhan e Porto Alegre demonstrou a capacidade técnica de reduzir a distância física entre médico e paciente, mas manteve a exigência de estrutura presencial e controle médico durante todo o procedimento.
No Brasil, a operação colocou Porto Alegre em uma rota de desenvolvimento que envolve medicina, engenharia, telecomunicações e formação profissional.
Para o paciente, o procedimento ocorreu dentro de um hospital gaúcho; para a equipe médica, a cirurgia também testou a integração entre dois centros separados por quase 19 mil quilômetros.

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