Equipamentos ferroviários importados da China percorreram uma rota marítima extensa antes de chegar a São Paulo, em uma operação que envolveu porto, alfândega, escolta rodoviária e ajustes milimétricos no transporte.
Um conjunto de veículos ferroviários de manutenção saiu da China, atravessou quase 20 mil quilômetros por mar e chegou ao pátio da TIC Trens, na Lapa, Zona Oeste de São Paulo, após uma operação que envolveu transporte marítimo, liberação alfandegária, escolta rodoviária, estudos de engenharia e testes técnicos, conforme mostrou reportagem do InfoMoney.
A remessa incluiu equipamentos destinados à manutenção da Linha 7-Rubi, administrada pela concessionária TIC Trens.
O deslocamento expõe uma parte pouco visível da operação ferroviária: antes de circular sobre trilhos, máquinas desse porte precisam passar por uma cadeia logística planejada em etapas.
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Alguns veículos podem chegar a 23 metros de comprimento e a até 111 toneladas, o que exige análise prévia de rotas, altura de viadutos, capacidade de pontes, largura de pistas e horários de menor circulação nas rodovias.
Em um dos trajetos entre Santos e São Paulo, a altura disponível sob um viaduto exigiu uma intervenção no caminhão usado no transporte.
Para permitir a passagem do conjunto, os pneus precisaram ser murchados, reduzindo a altura total da carga.
A medida fez parte da operação rodoviária necessária para levar o equipamento até a capital paulista.
A viagem, porém, começa antes do embarque no porto chinês.
Segundo a TIC Trens, o período entre a contratação da fabricante e a chegada dos veículos a São Paulo foi de cerca de 12 meses, com entregas realizadas entre novembro de 2025 e janeiro de 2026.
Nesse intervalo, atuaram equipes de compras, engenharia, logística, importação e jurídico, além de agentes de carga, despachantes aduaneiros e consultorias especializadas.
Como são preparados os veículos ferroviários antes do embarque
Os equipamentos trazidos da China não são vagões de passageiros, mas veículos auxiliares usados na rotina de conservação da ferrovia.
Eles funcionam como máquinas de trabalho sobre trilhos, cada uma voltada a uma etapa específica da manutenção da via, da rede aérea ou da estrutura de apoio operacional.
A TIC Trens encomendou parte desses veículos à CRRC, fabricante chinesa que também integra a concessionária ao lado do Grupo Comporte.
No processo de produção, peças e componentes podem vir de diferentes fornecedores, antes de serem reunidos e montados nas fábricas da companhia na China.
Antes da fabricação, concessionária e fabricante elaboram o projeto executivo.
Essa fase define as adaptações necessárias para que os veículos atendam às características da linha paulista, às exigências operacionais e aos padrões técnicos previstos para a manutenção.
Após essa etapa, começam a construção, a montagem e parte dos testes de homologação.
O diretor de contratos da TIC Trens, Max Fagundes, afirmou que a presença da CRRC na sociedade facilita a busca por soluções dentro da estrutura da fabricante.
“Sempre tentamos olhar qual é a melhor solução para o projeto. Como a CRRC figura como acionista, temos essa possibilidade de identificar as melhores soluções lá dentro”, disse.
Ele também destacou que há equipamentos produzidos no país.
“Mas alguns dos nossos veículos são nacionais. Há produção de locomotivas e vagões no Brasil, por exemplo.”
A importação ocorre, segundo a empresa, quando determinados veículos não têm similares nacionais disponíveis para a mesma aplicação.
Um dos exemplos é o veículo de rede aérea, usado por equipes responsáveis por intervenções em componentes instalados acima dos trilhos, como cabos e estruturas ligadas ao sistema elétrico ferroviário.

Máquinas atuam na base física da ferrovia
Entre os equipamentos importados estão máquinas utilizadas na manutenção do lastro, nome dado à camada de pedras posicionada sob e ao redor dos dormentes.
Essa estrutura ajuda a distribuir cargas, manter a estabilidade da via e permitir ajustes no alinhamento dos trilhos durante os serviços técnicos.
Uma dessas máquinas é a socadora.
O equipamento usa elementos vibratórios para compactar e acomodar as pedras do lastro, procedimento que contribui para a sustentação adequada dos dormentes e dos trilhos.
A atividade integra as rotinas de manutenção necessárias para preservar as condições de circulação dos trens.
Outro equipamento citado pela concessionária é a reguladora.
Sua função é redistribuir e nivelar o lastro ao longo da linha, evitando irregularidades na disposição das pedras.
Embora esse tipo de serviço não seja percebido diretamente pelos passageiros, ele compõe a manutenção estrutural da ferrovia.
Também fazem parte da frota auxiliar veículos de apoio voltados a diferentes frentes de trabalho.
A concessionária informou que, desde a assinatura do contrato com o governo paulista, já recebeu cerca de 50 veículos destinados à manutenção da Linha 7-Rubi.
O valor específico aplicado na compra dos equipamentos auxiliares não foi informado pela empresa.
Travessia marítima da China ao Porto de Santos pode levar até 70 dias
O trajeto internacional partiu de portos chineses como Taicang e Zhangjiagang, com destino ao Porto de Santos, no litoral paulista.
De acordo com a TIC Trens, os navios cargueiros levaram de 45 a 70 dias para concluir a travessia, a depender da rota, das condições da viagem e da programação portuária.
Depois da chegada ao Brasil, a carga ainda passou por procedimentos de descarga e análise documental.
Essa etapa leva cerca de dez dias, segundo a empresa, e envolve a verificação da regularidade da importação pelas autoridades alfandegárias.
Durante a navegação, funcionários da TIC Trens acompanharam o trajeto do cargueiro por GPS.
A mobilização para o desembarque começava antes da atracação, com equipes de plantão preparadas para receber os veículos no porto e acompanhar a movimentação das cargas.
Fagundes explicou que a conferência de equipamentos de grande porte exige atenção, mas pode ser objetiva quando os veículos chegam montados.
“A descarga de equipamentos muito grandes demanda muita atenção, mas por outro lado é fácil fazer a inspeção. Como o trem vem montado, não é difícil para os agentes de inspeção conferirem se bate com a nota”, afirmou.
Da Baixada Santista até São Paulo
Após a liberação no porto, a carga seguiu pela rodovia até a capital paulista.
Esse deslocamento mobiliza caminhões especiais, batedores e apoio da polícia rodoviária.
O transporte costuma ocorrer durante a madrugada, período em que há menor circulação de veículos e mais controle sobre o trajeto.
A rota precisa ser estudada antes da saída do porto.
Em cargas com dimensões fora do padrão, qualquer diferença de altura ou largura pode alterar o planejamento.
Por isso, a operação considera viadutos, curvas, aclives, declives, acessos e pontos onde o equipamento pode ser estacionado temporariamente.
Em um dos casos, o calendário também interferiu na programação.
Como o transporte coincidiu com um período de maior movimento nas rodovias, parte dos equipamentos ficou estacionada por algumas semanas no porto e, em outros momentos, em pátios da polícia, antes de seguir para São Paulo.
“Neste caso precisamos ainda observar que era início de ano, muitas pessoas voltando da praia e um tráfego intenso nas rodovias. Neste caso estacionamos o equipamento no porto por algumas semanas e no próprio pátio da polícia em outros para só então seguir viagem”, afirmou Fagundes.
Por que os veículos não seguem direto pelos trilhos
Mesmo sendo equipamentos ferroviários, os veículos não são levados encarrilhados até a capital antes da liberação técnica.
A concessionária informa que eles precisam passar por um período de testes específicos nas linhas antes de entrar em operação.
Essas verificações avaliam a compatibilidade dos veículos com a infraestrutura, os procedimentos de segurança e as condições necessárias para uso na manutenção.
Somente depois dessa etapa os equipamentos podem ser incorporados às rotinas da ferrovia.
A Linha 7-Rubi faz parte do projeto do Trem Intercidades Eixo Norte, que prevê ligação entre São Paulo e Campinas, além de serviço intermetropolitano entre Jundiaí e Campinas.
A concessão envolve operação, manutenção e modernização de estruturas associadas ao ramal, incluindo via permanente, energia, rede aérea e sistemas de apoio.
A TIC Trens projeta investir R$ 14,5 bilhões, em valores atualizados, na Linha 7-Rubi.
A empresa, formada pela brasileira Comporte e pela chinesa CRRC, não detalhou quanto desse total corresponde à aquisição dos veículos auxiliares.
No conjunto, a chegada dessas máquinas mostra que a manutenção ferroviária depende de etapas que começam longe dos trilhos onde os passageiros circulam.
Entre fabricação, transporte marítimo, alfândega, rodovia e testes, cada fase precisa ser concluída antes que os equipamentos sejam usados na operação regular.


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