O avanço do pé de galinha da informalidade ao comércio internacional explica por que China e África do Sul disputam o produto brasileiro, enquanto o mercado interno sente alta de preço, novas aplicações na indústria pet e mudança de percepção sobre um miúdo antes tratado como descarte nos últimos anos.
O pé de galinha deixou de ser um item marginal para se tornar um produto estratégico em diferentes frentes da cadeia de proteína animal. O movimento foi puxado por demanda externa, principalmente asiática, e por novos usos industriais no Brasil, o que reposicionou preço, destino e valor percebido desse miúdo.
Na prática, a mudança responde a perguntas centrais do consumo atual. Quem compra, compra para quê, em quais mercados, por quanto e com qual impacto local. Quando esses pontos se cruzam, o pé de galinha deixa de ser apenas uma curiosidade de açougue e passa a representar negócio, cultura alimentar e disputa comercial.
De sobra no açougue a ativo de exportação

No fim dos anos 1990, havia relatos de pé de galinha sendo entregue sem custo em açougues, reflexo de baixa demanda e pouca valorização no varejo brasileiro. Esse cenário mudou com a abertura comercial para exportação de carne de frango ao mercado chinês, autorizada em 2009, que ampliou a atratividade econômica de partes antes subaproveitadas.
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Com o avanço das vendas externas, o pé de galinha passou a ser tratado como item de receita relevante para frigoríficos e exportadores. Só no ano passado, a venda para a China somou US$ 221 milhões, com alta de 9,5% sobre 2024. O que era sobra virou linha de faturamento, alterando decisões de comercialização dentro da indústria.
Esse deslocamento também redefiniu prioridades. Quando um subproduto passa a ter comprador internacional consistente e preço melhor por tonelada, ele deixa de ser o “resto” da operação e entra no planejamento logístico, no mix de produtos e na estratégia de margem das empresas.
China e África do Sul explicam a nova geografia do consumo
A China se consolidou como principal destino do pé de galinha brasileiro e é apontada como o mercado que melhor remunera o produto, em torno de US$ 3 mil por tonelada. Nesse mercado, ele aparece com forte presença como snack, inclusive em embalagens individuais, pontos de venda de rua e máquinas automáticas.
Já a África do Sul opera com outra lógica culinária, pagando em média US$ 2 mil por tonelada e absorvendo o produto em preparos cozidos, como o conhecido “walkie-talkie”.
Mesmo importando menos que a China, o país ampliou fortemente as compras e alcançou US$ 49 milhões em 2025, mais que quadruplicando o volume financeiro na comparação com 2024.
Esses dois destinos mostram que o pé de galinha atende demandas diferentes sem perder valor. Em um lado, consumo rápido e conveniência. No outro, prato tradicional e comida de base popular. A mesma matéria-prima atende culturas distintas, o que ajuda a sustentar a demanda internacional ao longo do tempo.
O efeito no preço brasileiro e no mercado interno
No varejo, há registros de preço de pé de galinha chegando a R$ 14 por quilo em São Paulo. No atacado, o valor médio estadual em 2026 ficou em R$ 5,75, ainda 41,3% acima da média de 2020. Essa diferença entre canais é comum, mas o ponto principal é que a tendência geral foi de valorização.
A exportação não explica tudo. A indústria pet também entrou como compradora relevante, direcionando parte do pé de galinha para farinhas e formulações de ração.
Quando há mais de um destino competitivo para o mesmo item, o mercado interno tende a sentir pressão de preço, especialmente em períodos de demanda externa aquecida.
Para o consumidor final, isso gera um paradoxo. O pé de galinha continua sendo visto por muitos como opção econômica, mas já não responde apenas à lógica local de oferta abundante. Hoje ele disputa espaço em múltiplas cadeias, do prato tradicional ao pet food, do atacado nacional ao contêiner de exportação.
Por que o produto ganhou status e valor de mercado
Há um fator cultural decisivo. Na culinária chinesa, o pé de galinha é valorizado por textura, formato de consumo e versatilidade, podendo aparecer em saladas, petiscos e bases de caldos mais densos. Na África do Sul, o valor está no cozimento longo, no tempero e na tradição de aproveitar integralmente o alimento.
Esse contexto muda a percepção de “corte nobre” e “corte secundário”. Em termos de mercado, nobre é o que tem demanda consistente, boa remuneração e frequência de compra. Valor não nasce só da aparência do corte, nasce do uso social e gastronômico. O pé de galinha ganhou exatamente isso em mercados-chave.
Outro ponto é a diversificação de aplicação. Além da mesa, o produto participa de cadeias industriais e de conveniência.
Quanto mais usos um item tem, menor a chance de voltar ao status de descarte. A combinação de cultura culinária, escala industrial e comércio exterior explica a transformação recente.
O que essa virada indica para o futuro da proteína brasileira
A trajetória do pé de galinha mostra como um item negligenciado pode virar ativo competitivo quando encontra demanda internacional, narrativa culinária e canal de distribuição. Isso tende a incentivar a indústria a aproveitar melhor o animal inteiro, aumentando eficiência econômica em várias etapas da cadeia.
Também mostra que o debate sobre preço interno precisa considerar o sistema completo. Exportação, consumo doméstico e indústria pet não competem em campos separados. Todos puxam o mesmo produto por motivos diferentes, e o resultado aparece no bolso de quem compra no varejo e no caixa de quem vende no atacado.
Se essa tendência continuar, o pé de galinha deve permanecer em posição estratégica, com mais previsibilidade para exportadores e mais atenção dos consumidores brasileiros ao comportamento de preços.
No seu bairro, o pé de galinha ainda é tratado como item de baixo valor ou já virou produto disputado no açougue? E, na sua rotina, você prefere vê-lo mais no mercado interno ou como motor de exportação que gera receita ao setor?

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