Plataforma russa capaz de derivar por longos períodos no Ártico reúne casco resistente, laboratórios, autonomia prolongada e estrutura para pesquisadores acompanharem o movimento natural do gelo em uma região de frio extremo, pesquisa climática e presença científica em altas latitudes.
A Rússia opera no Ártico a Severny Polyus, ou Polo Norte, uma plataforma científica autopropulsada projetada para funcionar como navio de pesquisa, laboratório flutuante e estação polar de deriva em uma única estrutura.
Construída para expedições prolongadas, a embarcação atende áreas onde o gelo instável, o frio extremo e a distância de bases costeiras dificultam operações científicas convencionais e limitam a permanência de equipes em campo.
O projeto 00903 permite que pesquisadores cheguem à região de interesse navegando e, em seguida, acompanhem o deslocamento natural do gelo marinho a partir da própria plataforma.
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Com esse modelo, a embarcação substitui parte da lógica usada durante décadas por estações montadas diretamente sobre blocos flutuantes, sistema que, segundo o AARI, enfrentou limitações por causa das condições críticas do gelo.
Plataforma Severny Polyus une navio e estação polar
De acordo com o estaleiro Admiralty Shipyards, responsável pela construção, a plataforma tem 83,1 metros de comprimento, 22,5 metros de boca e deslocamento superior a 10 mil toneladas.
O escritório Vympel, projetista da embarcação, informa autonomia de provisões para 365 dias e de combustível para 730 dias, além de velocidade mínima de 10 nós.
Lançada em dezembro de 2020, a Severny Polyus iniciou testes de mar em 21 de maio de 2022 e entrou em operação em agosto do mesmo ano.

A primeira expedição baseada na plataforma, a Severny Polyus-41, partiu de Murmansk em 15 de setembro de 2022 e começou a operar no Oceano Ártico em 02 de outubro de 2022, segundo o Instituto de Pesquisa do Ártico e da Antártica da Rússia, o AARI.
A estrutura foi dimensionada para receber 34 integrantes de equipe científica e 14 tripulantes, com áreas de trabalho, laboratórios, acomodações e sistemas de apoio para permanência prolongada.
Esse arranjo permite manter condições de moradia e pesquisa durante longas derivas em latitudes polares, sem depender exclusivamente de acampamentos temporários instalados sobre o gelo.
Deriva no gelo muda lógica das antigas bases soviéticas
A embarcação se diferencia pelo modo de operação no ambiente estudado, já que pode permanecer presa ao gelo e acompanhar a deriva das massas congeladas.
Durante esse deslocamento, instrumentos e equipes coletam dados sobre atmosfera, oceano, cobertura de gelo e processos físicos do Ártico, conforme as linhas de pesquisa descritas pelo Vympel.
O modelo atualiza a tradição soviética e russa de estações polares derivantes, iniciada em 1937 com a primeira estação “Polo Norte”.
Segundo o AARI, o programa foi interrompido em 2013 em razão das condições críticas do gelo, incluindo derretimento, rachaduras e deslocamentos que dificultavam a manutenção segura de campos científicos sobre blocos flutuantes.
Com a Severny Polyus, esse tipo de pesquisa foi retomado em outro formato, apoiado em uma base naval permanente e resistente ao gelo.
Na primeira missão, a Severny Polyus-41 deu continuidade ao programa histórico de estações de deriva, mas com uma estrutura que também funciona como moradia, centro científico e plataforma de medição.

Sensores instalados no casco auxiliam estudos sobre as condições do gelo, enquanto os laboratórios a bordo permitem processar parte das observações durante a própria expedição.
Pesquisas no Ártico acompanham clima, oceano e gelo
As operações previstas incluem observações meteorológicas, actinométricas e aerológicas, além de estudos sobre dinâmica da cobertura de gelo, cargas exercidas sobre estruturas e deformações das massas congeladas.
O Vympel também lista pesquisas oceanológicas, monitoramento ecológico marinho, estudos geológicos e geofísicos, apoio à meteorologia polar e investigações relacionadas a mudanças climáticas regionais e globais.
Essas medições têm aplicação científica e operacional, porque ajudam a descrever a evolução do ambiente ártico e fornecem dados para cálculos usados em navios, instalações industriais e estruturas planejadas para regiões geladas.
A presença de uma plataforma de deriva também amplia a coleta de séries contínuas em áreas onde satélites, boias e campanhas curtas nem sempre mantêm observações presenciais por períodos prolongados.
Autonomia e resistência ampliam permanência em áreas remotas
A embarcação foi projetada para enfrentar temperaturas de até 50 graus Celsius negativos, conforme informações publicadas pelo The Barents Observer sobre as características do projeto.
A classificação técnica inclui heliponto e navegação em gelo, o que amplia a capacidade de apoio logístico em áreas remotas e reduz a dependência de deslocamentos exclusivamente marítimos durante missões extensas.
Na operação em campo, a Severny Polyus usa o gelo como parte da missão científica, pois chega à região de trabalho, entra no campo congelado e passa a derivar com as correntes.
Esse formato cria uma base móvel capaz de acompanhar fenômenos que mudam ao longo das estações, sem repetir o padrão de campanhas mais curtas realizadas por navios oceanográficos convencionais.
Nova expedição mantém coleta de dados perto do Polo Norte
A segunda missão da plataforma, a Severny Polyus-42, começou em 30 de setembro de 2024, segundo o AARI.
Na temporada 2024-2025, a estação operava a cerca de 400 quilômetros do Polo Norte geográfico, com 34 cientistas e 14 tripulantes a bordo.
A missão deu sequência à coleta de dados em altas latitudes do Oceano Ártico, dentro do programa russo de estações científicas derivantes.
O uso desse modelo ocorre em um contexto de mudanças ambientais rápidas no Ártico, rotas marítimas em estudo e demanda por dados climáticos obtidos diretamente em regiões polares.
Para a Rússia, a plataforma reforça uma presença científica de longo prazo em áreas remotas, agora com uma estrutura naval permanente em vez de acampamentos montados diretamente sobre blocos de gelo.
Ao reunir casco resistente, laboratórios, alojamentos, autonomia prolongada e capacidade de derivar com o gelo, a Severny Polyus marca uma mudança operacional na pesquisa polar russa.
A estação deixa de depender apenas da resistência natural de uma placa congelada e passa a operar a partir de uma base naval construída para permanecer no próprio ambiente investigado.


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