Na propriedade da família Mazarolo, em Casca, Ângelo e a tia Inês tiram da terra leite, arroz, vinho, queijo, farinha, carne, erva-mate e até energia solar. São cerca de 80 cabeças de gado e até mil litros de leite por dia. Para a Emater, fazendas assim já são raras.
Enquanto quase todo mundo depende do supermercado, Ângelo, de 36 anos, e a tia Inês, de 75, vão ao mercado só para comprar sal, café e alguns produtos de limpeza, e todo o resto sai da própria terra, em Casca, no Rio Grande do Sul. Segundo o relato da família divulgado no em junho Vale Agrícola , do café da manhã até a janta, quase tudo que está na mesa nasce ali, em uma rotina que muita gente imagina pertencer apenas ao passado.
Na propriedade da família Mazarolo, no interior de Casca, os dois produzem leite, arroz, erva-mate, frutas, vinho, queijo, farinha, carne, ovos e até energia elétrica. De acordo com Ângelo, a lógica é simples, porque diversificar serve para garantir renda, alimento e segurança, de modo que, quando uma atividade enfrenta dificuldade, outra ajuda a manter o equilíbrio. São cerca de 80 cabeças de gado, lavouras, açudes e áreas preservadas, em um modelo que, para a Emater, já virou exceção.
A lógica da diversificação na propriedade de Ângelo


A variedade de criações e culturas impressiona quem chega. A propriedade tem cerca de 45 ovelhas fêmeas, um reprodutor e uns oito cordeiros para abate, além de aproximadamente 80 cabeças de gado, lavouras e açudes. De acordo com ele, a ideia central é diversificar para assegurar renda, comida e segurança, já que, quando uma atividade vai mal, outra equilibra as contas.
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O leite é um dos pilares, mas com altos e baixos. A produção fica em torno de 800 a 1.000 litros por dia, o que soma cerca de 30.000 litros por mês, embora o preço oscile bastante. De acordo com o seu relato, nos períodos bons ele guarda uma pequena reserva para atravessar os momentos difíceis e vai descartando os animais mais velhos ou já gordos, e essa diversidade funciona como uma barreira contra as flutuações do mercado, porque, se a soja está em baixa, há o leite, o milho, a ovelha e a carne.

Bovinocultura a pasto, irrigação e ciclo fechado
Mais do que a variedade, o que sustenta tudo é a organização. Segundo a Emater, mais do que a diversidade, é a organização do trabalho que sustenta a propriedade, e Ângelo trabalha com bovinocultura de leite a pasto. De acordo com o órgão, ele investiu em irrigação, que garante a pastagem e ainda uma produção de forragem conservada, o que cria um ciclo fechado de alimentação, em que o próprio dejeto dos animais permanece no campo e readuba as pastagens.

O manejo da alimentação segue um calendário próprio. No verão a silagem é de milho e, no inverno, conforme o clima, ele produz alguma silagem de trigo, com os animais tratados duas vezes ao dia, silagem e ração, além de sal e água à vontade em diversos pontos da propriedade, ainda servida por um rio que a corta. De acordo com ele, o milho híbrido para grãos rende em média de 200 a 250 sacas por hectare, parte destinada também à silagem.
Energia solar e a redução de custos na propriedade de Ângelo
A tecnologia chegou como aliada das contas. A tecnologia entrou na propriedade para reduzir custos e dar autonomia energética, já que ele chegava a gastar de R$ 1.000 a R$ 1.500 por mês só de energia, entre o resfriamento do leite, a fabricação de ração e as bombas da irrigação. De acordo com o seu relato, foi por isso que optou pelas placas solares.
Hoje a conta mudou de sinal. Em vez de pagar, ele passou a ter um retorno em torno de R$ 100 a R$ 500 por mês com a venda de energia solar. De acordo com o produtor, essa autonomia de energia faz parte da mesma lógica de autossuficiência que define a propriedade, em que reduzir a dependência externa é tão importante quanto produzir o próprio alimento.
Erva-mate, arroz de sequeiro e a tradição da família

A erva-mate carrega a história de três gerações. Segundo Ângelo, ele é a terceira geração da família a produzir erva-mate na propriedade, do pé do chimarrão tão presente entre os gaúchos. De acordo com o seu relato, ele colhe a planta, passa pelo fogo, faz a secagem por cerca de quatro a cinco horas e, depois de bem seca, soca a erva por aproximadamente uma hora a uma hora e meia até ficar pronta para o chimarrão. A família também produz açúcar mascavo e a própria farinha, em um pequeno moinho construído por ele.
O arroz é raro e quase todo para a casa. Segundo Ângelo, o arroz é praticamente para consumo próprio, com um pouco repassado a amigos e conhecidos, por ser um arroz de sequeiro, produzido no seco e não na água, feito a partir de semente que a família guarda e replanta a cada ano. De acordo com o relato, a família perdeu há poucos meses o pai de Ângelo, um esteio que, mesmo com idade avançada e problemas de saúde, cuidava das parreiras e buscava soluções alternativas sem abrir mão da tradição.
Em Casca, no Rio Grande do Sul, Ângelo, de 36 anos, e a tia Inês, de 75, mantêm a propriedade da família Mazarolo como um sistema quase autossuficiente, com leite, arroz, erva-mate, vinho, queijo, farinha, carne, ovos e até energia solar, indo ao mercado só para sal, café e produtos de limpeza. A base é a diversificação somada à organização do trabalho, com ciclo fechado de alimentação e energia solar reduzindo custos. Para a Emater, que reúne mais de 700 propriedades na região, fazendas assim já são raras, e o técnico do órgão afirma que a maior parte dos brasileiros compra a comida no supermercado em vez de produzir, ainda que os números aqui partam do relato do próprio Ângelo.
E você, conseguiria viver quase só do que a própria terra produz, como Ângelo, ou acha esse modelo inviável nos dias de hoje? Comente a sua opinião e troque ideias com outros leitores sobre a vida no campo, com respeito às diferentes visões.


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