Crise financeira dos Correios força plano de reestruturação com empréstimos bilionários, cortes de custos e demissão voluntária até 2027.
A crise financeira dos Correios atingiu um ponto crítico no fim de 2025 e levou a estatal a anunciar um amplo plano de reestruturação para evitar um colapso operacional já em 2026.
A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (EBCT), responsável pelo serviço postal nacional, confirmou que buscará empréstimos bilionários com aval do Tesouro Nacional, promoverá demissão voluntária em larga escala e revisará sua estrutura operacional em todo o país.
As medidas foram detalhadas pela direção da empresa em entrevista coletiva realizada em 29 de dezembro, em Brasília, diante do avanço do déficit acumulado.
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Desde 2022, os Correios registram 12 trimestres consecutivos de prejuízo, com perdas que somaram R$ 4,36 bilhões apenas no primeiro semestre do ano passado.
Sem intervenção imediata, a própria estatal estima que o rombo poderia alcançar R$ 26 bilhões em 2026, cenário que motivou a adoção de um plano emergencial dividido em três fases.
Empréstimos bilionários marcam a primeira fase do plano de reestruturação
O ponto de partida do plano de reestruturação dos Correios é a captação de recursos no mercado financeiro.
Na primeira etapa, prevista para durar até março, a estatal pretende levantar R$ 12 bilhões em empréstimos bilionários junto a grandes bancos.
Desse total, R$ 9 bilhões devem ser obtidos com Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e Bradesco, enquanto os R$ 3 bilhões restantes serão negociados com Santander e Itaú Unibanco.
O Tesouro Nacional atuará como avalista das operações, o que reforça o caráter estratégico da empresa para o governo federal.
Além da busca por crédito, essa fase inclui a criação de um grupo de trabalho interno para recuperar a eficiência operacional e restabelecer a confiança de clientes e fornecedores, fortemente abalada pela crise financeira prolongada.
Cortes de custos e demissão voluntária concentram a segunda etapa
A segunda fase do plano de reestruturação está prevista para os anos de 2026 e 2027 e foca diretamente na redução estrutural de despesas.
Assim, a meta é economizar até R$ 7,4 bilhões por ano, com destaque para a demissão voluntária de 15 mil funcionários até o fim de 2027.
Segundo a empresa, o Programa de Demissão Voluntária (PDV) pode gerar um impacto positivo de R$ 2,1 bilhões anuais, aliviando um dos principais fatores de pressão sobre as contas da estatal: os custos trabalhistas.
Além disso, a fase prevê revisão de cargos de média e alta remuneração, mudanças nos planos de saúde e previdência, e a alienação de imóveis subutilizados.
Somente a venda desses ativos pode render R$ 1,5 bilhão ainda este ano, segundo estimativas internas.
Fechamento de unidades não deve afetar universalização do serviço
Outro eixo relevante do plano envolve o redesenho da rede física dos Correios.
A estatal estuda o fechamento de cerca de 1 mil das 5 mil unidades existentes, o que pode gerar uma economia anual de R$ 2,1 bilhões.
Apesar da medida, a direção afirma que a universalização do serviço postal será mantida, garantindo atendimento inclusive em regiões remotas, onde empresas privadas não operam por falta de viabilidade econômica.
Sustentabilidade da estatal depende de novos modelos de negócio
Assim, a terceira e última fase do plano mira o longo prazo e busca assegurar a sustentabilidade da estatal.
Para isso, os Correios contratarão uma consultoria externa especializada, responsável por avaliar novos modelos societários e formas de parceria com o setor privado.
Embora a empresa descarte oficialmente a privatização, admite estudar modelos híbridos, semelhantes ao adotado pela United States Postal Service (USPS).
Durante o anúncio do plano, o presidente dos Correios, Emmanoel Rondon, reforçou a importância estratégica da estatal.
“Este plano vai além da recuperação financeira.
Ele reafirma os Correios como um ativo estratégico do Estado brasileiro, essencial para integrar o território nacional”, afirmou.
Especialistas divergem sobre privatização e viabilidade do plano
Para o advogado trabalhista José Eduardo Pastore, o modelo de negócios dos Correios está ultrapassado frente à transformação do setor logístico.
“A falta de modernização resultou em um serviço ineficiente, caro e pouco competitivo”, avalia.
Ele defende que, sem privatização, a empresa continuará onerando a sociedade.
Já o economista Renan Silva, do Ibmec Brasília, considera o plano ambicioso, mas alerta para a necessidade de execução rigorosa.
“Sem investimento em tecnologia e inovação, o plano pode se tornar apenas um paliativo”, afirma.
Demissão voluntária exige cautela jurídica e negociação sindical
A demissão voluntária, embora essencial para reduzir custos, exige cuidados legais. A advogada Elisa Alonso lembra que dispensas em massa precisam de negociação com sindicatos para evitar passivos trabalhistas.
O advogado Marco Antônio Allegro reforça que os direitos previstos na CLT devem ser integralmente respeitados.
“O descumprimento dessas obrigações amplia significativamente o passivo da empresa”, alerta.

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