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Sem ninguém apostar que o açaí amazônico pegaria no Rio Grande do Norte, ele trouxe a muda do Pará, plantou 80 hectares e transformou a “terra improvável” num negócio que colhe 280 toneladas de fruto e exporta polpa para Itália, Holanda e Kuwait, provando que o superalimento do Norte vingou no semiárido

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 10/07/2026 às 23:15 Atualizado em 10/07/2026 às 23:19
Sem ninguém apostar que o açaí amazônico pegaria no Rio Grande do Norte, ele trouxe a muda do Pará
Sem ninguém apostar que o açaí amazônico pegaria no Rio Grande do Norte, ele trouxe a muda do Pará
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A Pioneira Agrícola, de Touros e Pureza (RN), saiu de 20 para quase 80 hectares de açaí desde 2016, beneficia cerca de 350 toneladas de fruto por safra e projeta exportar metade da produção em 2025/2026 com o Kuwait como principal destino, ao lado de Itália e Holanda.

Quando decidiu, em 2016, trocar a agricultura tradicional por uma aposta que quase ninguém levava a sério, o produtor Rodrigo Moura Pires da Cunha e os sócios Daniel França e Carlos Frederico escolheram um caminho improvável: plantar açaí no litoral do Rio Grande do Norte, a milhares de quilômetros da Amazônia. Quase uma década depois, a Pioneira Agrícola, com terras em Touros e Pureza, saiu de 20 para quase 80 hectares e virou um caso de agronegócio que já cruza fronteiras.

Segundo informações divulgadas pelo portal Tribuna do Norte, a trajetória tem datas claras: a primeira safra veio em 2020, a indústria de beneficiamento abriu em 2021 e, no fim de 2024, a empresa fechou o contrato que mudaria seu horizonte, a exportação de polpa para o Kuwait. Hoje, a companhia projeta enviar metade da produção da safra 2025/2026 para fora do país e mira alto: chegar a 150 hectares até 2027.

Por que o açaí “pegou” onde quase ninguém esperava

Plantação de açaí da Pioneira Agrícola (Touros/Pureza, RN)
Plantação de açaí da Pioneira Agrícola (Touros/Pureza, RN)

A explicação para o improvável está no encontro entre clima e mercado. Segundo Rodrigo Moura, a região tem muita luz, solos bons e água no subsolo, condições em que a palmeira se desenvolve bem. A primeira área foi plantada com a variedade BRS Pai d’Égua (Euterpe oleracea), desenvolvida pela Embrapa, e a demanda joga a favor: o Brasil é praticamente o único produtor mundial, com 94% da colheita concentrada no Pará, o que abre espaço para quem produz longe do Norte.

O tamanho do mercado ajuda a entender a ousadia. Estudos da Embrapa apontam que a demanda pelo fruto é hoje de 12% a 15% maior do que a oferta, o que faz o preço disparar na entressafra. Enquanto a procura pelo superalimento cresce mundo afora, a oferta esbarra no tempo: o açaizeiro leva de cinco a seis anos para dar a primeira colheita, e é justamente essa escassez que torna atraente plantar onde antes ninguém plantava.

Da muda do Pará às 350 toneladas por safra

 Cachos de açaí maduros no pé
 Cachos de açaí maduros no pé

O salto de escala impressiona para uma cultura tão nova no estado. A cada ano a plantação praticamente dobra, e a indústria de beneficiamento, aberta em 2021, já processa cerca de 350 toneladas de fruto por safra. A produtividade varia entre 10 e 14 toneladas por hectare, número que, segundo o produtor, tende a se estabilizar por volta do sétimo ou oitavo ano da planta.

O segredo está na velocidade. A empresa colhe e processa o fruto em até 24 horas — prazo que preserva sabor e aroma, porque o açaí é impiedoso com a demora: fora do tempo, ele fica marrom em vez de roxo e ganha gosto ácido, perdendo o que o torna açaí. Para segurar a qualidade, a colheita usa uma ferramenta que evita o contato do fruto com o chão, e a despolpa acontece em circuito fechado, sem as mãos dos funcionários tocarem o produto.

O Kuwait no prato: como a polpa potiguar chega ao exterior

A vocação exportadora nasceu junto com a indústria. Ao perceber o potencial da fruta, os sócios passaram a investir na polpa pensando no mercado externo, e a virada veio no fim de 2024, com o primeiro contrato no Kuwaitprevisto para receber 100 toneladas na safra 2025/2026. O primeiro contêiner saiu em julho de 2025 e o segundo, em outubro.

O destino se soma a antigos parceiros europeus. Toda a exportação passa por um parceiro italiano, que também encaminha cargas para a Itália e para a Holanda; a linha de sorvete, por sua vez, já chega a Kuwait, Itália e Amsterdã, além do Sudeste brasileiro, sobretudo São Paulo. No mercado interno, a polpa é vendida em seis estados — e, para ampliar contatos, a empresa foi à Fruit Attraction, em Madri, um dos maiores eventos de fruticultura do mundo, onde sentou com oito compradores em rodadas de negócios.

Inovação no campo e na fábrica

A tecnologia é o que coloca a Pioneira em um custo diferente dos demais, nas palavras do próprio produtor. No campo, o manejo aposta em adubação orgânica e controle biológico, no solo e na planta; os defensivos químicos ficaram quase restritos ao combate de ervas daninhas, já que, segundo Rodrigo Moura, a região tem poucas doenças capazes de ameaçar o açaí.

A irrigação é automatizada e calcula a água por touceira, cada uma com três hastes produtivas, como acontece na bananeira. Na indústria, o congelamento é rápido: assim que vira polpa, o produto é ensacado e vai direto para as câmaras frias, num esforço para não perder cor, sabor nem aroma. É esse conjunto de escolhas, do plantio ao freezer, que sustenta a competitividade de um produto vindo de uma “terra improvável”.

Um efeito que se espalha pelo Mato Grande

O pioneirismo começou a criar cadeia. A ideia de plantar açaí no RN partiu de um consultor do ELI Agro (Ecossistema Local de Inovação do Agronegócio), ligado ao Sebrae/RN, e ganhou corpo quando outros produtores passaram a visitar a fazenda. Hoje, ao menos dez produtores rurais da região do Mato Grande já cultivam a palmeira, muitos deles mirando vender o fruto para a própria Pioneira.

O modelo é simples: os parceiros plantam, a indústria compra, beneficia e exporta. A aposta é de crescimento sem risco de superoferta nos próximos 15 a 20 anos, justamente porque o fruto demora a produzir. Enquanto isso, a empresa que ainda cultiva coco e macaxeiraconcentra quase todo o investimento na cadeia do açaí e já planeja um novo passo: começar a plantar cacau.

Uma muda trazida do Pará, plantada onde “não daria certo”, virou polpa que hoje viaja para a Europa e o Oriente Médio e ainda arrastou uma dezena de vizinhos para o mesmo caminho. É a prova de que inovação no campo pode nascer no lugar mais improvável.

Você acha que culturas “exóticas” como o açaí são o futuro do agronegócio fora das regiões tradicionais ou é uma aposta arriscada demais para o pequeno produtor? Conta pra gente aqui nos comentários.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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