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Sem saber, China cobriu um deserto com painéis solares para gerar energia e cientistas descobriram que a sombra da usina mudou o solo, a umidade e até a vegetação sob as placas, reduzindo a evaporação e criando um efeito inesperado no parque solar de Qinghai Gonghe

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Escrito por Geovane Souza Publicado em 08/07/2026 às 14:57 Atualizado 08/07/2026 às 15:03
China instala painéis solares em área desértica e estudo aponta aumento de vegetação sob as placas no parque Qinghai Gonghe
China instala painéis solares em área desértica e estudo aponta aumento de vegetação sob as placas no parque Qinghai Gonghe
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Estudo feito no parque fotovoltaico Qinghai Gonghe comparou a área sob os painéis com regiões vizinhas e encontrou melhor desempenho ecológico dentro da usina, mas os próprios pesquisadores pedem acompanhamento de longo prazo

Uma área desértica da China coberta por painéis solares passou a chamar atenção por um efeito que vai além da geração de eletricidade. No parque fotovoltaico Qinghai Gonghe, em Talatan, pesquisadores encontraram sinais de melhora no microclima local, nas condições do solo e na diversidade de plantas e microrganismos.

O estudo foi publicado em 2024 na revista Scientific Reports, do grupo Nature, e analisou o impacto ecológico da usina a partir de 57 indicadores. A área diretamente ocupada pelos painéis teve pontuação ambiental superior à das regiões vizinhas usadas para comparação.

O resultado não significa que cobrir desertos com usinas solares seja uma solução automática para recuperar áreas degradadas. O próprio trabalho trata o caso como uma avaliação específica, feita em uma região de altitude elevada, clima seco e histórico de desertificação.

Ainda assim, os dados mostram um fenômeno concreto. A sombra das placas reduziu a evaporação do solo, alterou a temperatura próxima à superfície e criou condições mais favoráveis para a vegetação em um lugar onde o vento, a radiação solar intensa e a falta de água sempre dificultaram o crescimento de plantas.

O parque solar não mudou apenas a produção de energia

O caso citado pelo Xataka Brasil em 7 de julho de 2026 tem como base o parque fotovoltaico Qinghai Gonghe, instalado na província de Qinghai, no noroeste da China. A reportagem destacou que a usina foi analisada em três áreas diferentes: a região sob os painéis, uma zona de transição ao redor e uma área externa de controle.

A diferença apareceu nos números. A área da usina, chamada no estudo de WPS, obteve índice de 0,439, classificado como “geral”. Já a zona de transição ficou em 0,286 e a área externa em 0,28, ambas enquadradas como “pobres”.

A escala não mede beleza da paisagem nem produção de energia. Ela reúne dados ambientais e ecológicos para comparar como o espaço se comporta depois da instalação dos painéis. O ponto central é que a área coberta pelas placas apresentou condições melhores que o entorno imediato.

Esse resultado chama atenção porque grandes usinas solares em desertos costumam ser vistas apenas como forma de aproveitar terrenos pouco produtivos. Em Qinghai, os pesquisadores observaram que a estrutura física dos painéis também passou a interferir diretamente no ambiente.

A sombra das placas virou uma espécie de abrigo para o solo

A explicação começa com algo simples: sombra. Os módulos fotovoltaicos bloqueiam parte da radiação solar direta, o que reduz a perda de umidade do solo por evaporação. Em áreas secas, essa diferença pode alterar o comportamento de plantas, microrganismos e da camada superficial da terra.

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Imagem: Universidade de Tecnologia de Xi’an

Segundo a pv magazine, a pesquisa foi conduzida por cientistas da Xi’an University of Technology em uma instalação de 1 GW no deserto alpino árido de Talatan, comparando a área da usina com zonas de transição e áreas externas. A análise usou o modelo DPSIR e reuniu dados de monitoramento, documentos oficiais, amostras e investigação de campo.

Na prática, os painéis funcionam como uma barreira parcial contra sol e vento. A água usada na limpeza dos módulos também pode infiltrar no solo, elevando a umidade nas áreas logo abaixo das estruturas.

Essa combinação ajuda a entender por que a vegetação cresceu melhor dentro do parque solar. Não foi apenas a presença das placas, mas o conjunto formado por sombra, redução de vento, manejo do solo e água usada na manutenção.

O deserto de Talatan já tinha um problema antigo de degradação

Talatan fica a quase 3.000 metros de altitude e tinha um histórico severo de desertificação. De acordo com informações publicadas pelo portal do governo chinês em junho de 2024, a taxa de desertificação da área chegou a 98,5% no fim do século passado, antes da expansão dos projetos solares na região.

O mesmo levantamento cita uma base solar de 609 km², com capacidade de 8.430 MW naquele momento. Dados de sensoriamento remoto informados por uma equipe da State Power Investment Corporation e da Xi’an University of Technology apontaram redução de 50% na velocidade do vento, queda de 30% na evaporação da umidade do solo e cobertura vegetal de 80% no parque nos três anos anteriores.

Esses números ajudam a explicar por que o caso virou referência em debates sobre energia solar em áreas áridas. O parque não apenas gerou eletricidade, mas também reduziu a erosão provocada pelo vento e ajudou a estabilizar o terreno.

Mesmo assim, há limites. Uma área mais úmida sob painéis pode favorecer plantas, mas também pode criar novos problemas operacionais, como crescimento excessivo de capim, sombreamento das placas, risco de pontos quentes e necessidade de manejo constante.

As ovelhas entraram na conta da usina solar

Com mais vegetação, surgiu um problema inesperado: o mato precisava ser controlado para não atrapalhar a geração. Em vez de depender apenas de roçagem manual ou herbicidas, operadores passaram a usar pastoreio controlado com ovelhas.

O People’s Daily Online informou em julho de 2025 que o parque em Talatan reunia 68 empresas fotovoltaicas até o fim de 2024, com capacidade conectada à rede de 17,73 milhões de kW. A publicação também afirmou que a área produzia 118 mil toneladas de capim por ano, volume suficiente para alimentar 200 mil ovelhas, segundo autoridades locais.

Esse modelo ficou conhecido na China como criação de “ovelhas fotovoltaicas”. Os animais comem a vegetação sob as placas, reduzem custos de manutenção e ajudam a evitar que o capim cresça a ponto de sombrear os módulos.

Para comunidades locais, a mudança também trouxe renda. A reportagem chinesa cita empregos em obras de energia nova em 2024 e a presença de pastagens ecológicas dentro do parque, ligando geração solar, combate à desertificação e pecuária.

O método usado no estudo não olhou só para plantas

A avaliação científica não se limitou a contar folhas ou medir sombra. O modelo DPSIR, usado pelos pesquisadores, organiza os impactos ambientais em cinco dimensões: forças motrizes, pressões, estado, impacto e resposta.

A Agência Europeia do Ambiente descreve o DPSIR como uma estrutura de indicadores usada para organizar relações entre atividades humanas e mudanças ambientais, com categorias que vão das causas às respostas adotadas pela sociedade.

No caso de Qinghai Gonghe, os 57 indicadores passaram por padronização e cálculo de peso. Isso permitiu comparar o desempenho ambiental da área sob os painéis com o entorno, mesmo quando os dados tinham unidades diferentes.

Os indicadores incluíram fatores ligados ao clima local, propriedades físicas e químicas do solo, biodiversidade, vegetação, microrganismos, investimento ambiental e medidas de controle. O resultado favoreceu a área da usina, mas não a colocou em condição excelente.

O resultado anima, mas ainda não fecha a discussão

O ponto mais forte do estudo é mostrar que uma usina solar em ambiente desértico pode alterar o solo de forma mensurável. A descoberta ganha peso porque a China ampliou rapidamente a energia solar nos últimos anos, e grandes áreas áridas passaram a ser vistas como locais estratégicos para projetos de grande escala.

A Agência Internacional de Energia mantém dados atualizados sobre novas adições de energia solar e eólica na China entre 2024 e 2025, um sinal da velocidade com que o país vem expandindo esse tipo de infraestrutura.

Mas o caso de Talatan não deve ser lido como uma regra universal. Desertos têm solos, ventos, temperaturas, biodiversidade e regimes de chuva muito diferentes entre si. O que funcionou em Qinghai pode não se repetir da mesma forma no Saara, no Atacama, no Oriente Médio ou no semiárido brasileiro.

Os pesquisadores também apontam que a pressão ambiental não desapareceu. Alguns indicadores continuaram baixos, e efeitos de longo prazo ainda precisam ser acompanhados para evitar que ganhos iniciais escondam impactos negativos futuros.

A principal lição é mais prática do que espetacular. Painéis solares podem gerar energia e, sob certas condições, criar sombra suficiente para reduzir evaporação, proteger o solo e favorecer vegetação. Para isso virar política pública ou modelo exportável, será preciso medir caso a caso, por anos, com dados de solo, água, fauna, flora e operação da usina.

O que você acha desse modelo de parque solar em áreas desérticas? Ele pode ser uma saída para recuperar solos degradados ou ainda há riscos ambientais pouco conhecidos?

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Geovane Souza

Especialista em criação de conteúdo para internet, SEO e marketing digital, com atuação focada em crescimento orgânico, performance editorial e estratégias de distribuição. No CPG, cobre temas como empregos, economia, vagas home office, cursos e qualificação profissional, tecnologia, entre outros, sempre com linguagem clara e orientação prática para o leitor. Universitário de Sistemas de Informação no IFBA – Campus Vitória da Conquista. Se você tiver alguma dúvida, quiser corrigir uma informação ou sugerir pauta relacionada aos temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: gspublikar@gmail.com. Importante: não recebemos currículos.

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