Povo Himba surpreende cientistas com olfato altamente treinado e ambiente livre de poluentes, revelando pistas sobre como o cérebro humano processa e memoriza cheiros.
Pouca gente sabe, mas o olfato humano nunca foi tão pouco treinado quanto nos últimos séculos. A urbanização reduziu plantas nativas, ampliou compostos sintéticos e substituiu cheiros naturais por fragrâncias artificiais. Enquanto isso, em regiões isoladas do norte da Namíbia, o povo Himba vive em contato direto com plantas aromáticas, rebanhos, cinzas, fumaça de fogueiras e o cheiro do próprio ambiente. O que torna esse caso intrigante é que, segundo pesquisadores que estudaram grupos pastores e caçadores-coletores na África, a capacidade olfativa dos Himba não é apenas cultural: ela envolve memória, vocabulário, atenção e até navegação espacial.
Essa observação abriu um campo de estudo que cresce silenciosamente dentro da neurociência sensorial: entender como povos que vivem fora de centros urbanos constroem mapas olfativos complexos e como isso influencia o cérebro, o comportamento e a saúde.
A neurociência do olfato e o cenário urbano moderno
O olfato é um sentido subestimado. Em humanos modernos, ele está associado à alimentação, escolha de perfumes, memória afetiva e prevenção de riscos.
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No entanto, em contexto urbano, os cheiros tendem a ser filtrados, substituídos ou mascarados por fragrâncias industriais, combustível, produtos de limpeza e cosméticos. Isso cria uma espécie de “poluição olfativa” que reduz a variedade e a intensidade de moléculas orgânicas circulando no ar.
Pesquisadores como Asifa Majid e Nicole Kruspe, que investigaram populações da África e do sudeste asiático, mostraram que povos que dependem mais do ambiente natural para caçar, coletar ou pastorear desenvolvem um vocabulário mais preciso para cheiros e uma capacidade maior de identificá-los sem ambiguidade.
Embora o estudo não tenha se limitado aos Himba, o grupo ganhou atenção por sua vida seminômade, alimentação baseada em leite e carne, e seu uso de ervas aromáticas queimadas para higiene corporal e proteção contra insetos.
Isso cria uma exposição diária a compostos orgânicos voláteis que praticamente desapareceram em ambientes urbanos. A partir daí, surge a pergunta: o cérebro humano seria naturalmente mais olfativo do que acreditamos e teria perdido parte desse repertório nas cidades?
Himba da Namíbia: território, cultura e cheiros do ambiente
O povo Himba vive principalmente na região do Kaokoland, no norte da Namíbia, próxima à fronteira com Angola. A economia gira em torno do pastoreio de caprinos e bovinos, o que significa lidar com rebanhos, leite, peles, cinzas e plantas aromáticas usadas para defumação.
O mais curioso é que muitos desses odores não são considerados incômodos; ao contrário, fazem parte da identidade cultural.
Embora não haja consenso científico definitivo sobre o grau de capacidade olfativa dos Himba, antropólogos e linguistas que atuam na região descrevem algo raro no mundo urbano: a presença de um vocabulário funcional para cheiros específicos. Não se trata apenas de dizer “cheiro bom” ou “cheiro ruim”, mas de nomear plantas, queimadas, pessoas, animais e até o estágio de fermentação do leite.
Esse domínio acontece porque o ambiente não é silencioso para o nariz. Um Himba pode identificar se uma cabra está doente pelo cheiro, se determinada planta serve para acender fogo ou repelir mosquitos, ou se alguém passou próximo de um determinado ponto do pasto recentemente.
Embora isso possa parecer incomum a quem vive em centros urbanos, a neurobiologia explica: quando um estímulo é frequente, o cérebro fortalece memórias e associações.
Poluição química, plasticidade cerebral e o olfato que desaprende
O que torna esse tema tão atual é o contraste com a vida urbana moderna. Nas cidades, fragrâncias de cosméticos, detergentes, tinta automotiva, solventes e combustíveis criam um cenário paradoxal. Há mais moléculas químicas no ar, porém menos informação útil para o cérebro. São cheiros redundantes, homogêneos e frequentemente fabricados para parecer “neutros”.
A neurociência chama isso de empobrecimento sensorial. Quando o ambiente reduz a variedade de estímulos naturais, certas áreas cerebrais relacionadas ao olfato ficam menos exigidas.
Não é coincidência que muitos urbanos tenham dificuldade em reconhecer cheiros específicos de frutas, ervas, flores ou solo. Não se trata de “defeito biológico”, mas de falta de treino, já que a plasticidade cerebral permite tanto o ganho quanto a perda de habilidades sensoriais.
O caso Himba mostra o lado oposto: uma vida ao ar livre, com baixa exposição a compostos sintéticos e alta exposição a plantas, animais e solos, que favorece um repertório olfativo complexo.
Pesquisadores afirmam que não se sabe até que ponto isso modifica a anatomia cerebral, porque faltam estudos de imagem comparativa, mas a hipótese existe e intriga especialistas.
O que a ciência sabe e o que ainda falta investigar
Embora estudos sobre capacidades olfativas em povos não urbanizados existam, os dados ainda são incompletos. Não há consenso sobre quantificar o olfato dos Himba em comparação com ocidentais urbanos porque:
- dados padronizados são escassos,
- o ambiente influencia demais o experimento,
- o vocabulário cultural varia entre povos.
Ainda assim, os indícios convergem. Povos com forte ligação ecológica ao território — sejam caçadores-coletores, pescadores, agricultores tradicionais ou pastores — tendem a usar o olfato de forma mais funcional. Isso extrapola a biologia e invade campos como etnografia, linguística, saúde pública e até psicologia cognitiva.
O que impressiona pesquisadores é que o olfato humano está diretamente ligado ao sistema límbico, região associada à memória, emoções e aprendizado. Isso significa que, durante milhares de anos, humanos usaram cheiros para:
- detectar perigo,
- escolher alimentos,
- orientar-se no espaço,
- reconhecer indivíduos,
- estabelecer relações sociais.
Perder essa dimensão pode ter efeitos que ainda não compreendemos totalmente.
Saúde, dieta, ancestralidade e o futuro do olfato humano
O interesse científico pelo caso Himba e por outros povos que mantêm repertórios sensoriais amplos vai além da curiosidade antropológica. Ele pode ajudar a responder perguntas modernas sobre perda de olfato, doenças neurodegenerativas e até distúrbios alimentares.
A COVID-19, por exemplo, revelou o quanto dependemos do olfato para ter apetite, reconhecer riscos e manter bem-estar.
Se o olfato influencia memória, comportamento e saúde emocional, entender como ele se desenvolve em ambientes ricos em estímulos naturais pode abrir caminhos médicos interessantes.
Há pesquisas que investigam se treinamento olfativo pode recuperar parte da plasticidade perdida em ambientes urbanos. E embora esse campo ainda esteja no início, casos como o dos Himba mostram que o olfato é treinável e que não devemos considerá-lo um sentido primitivo e ultrapassado.
O debate começa quando imaginamos o futuro. À medida que cidades se tornam mais padronizadas e fragrâncias industriais dominam o cotidiano, o que acontecerá com o repertório sensorial humano? Continuaremos perdendo vocabulário para cheiros? Isso afetará nossa capacidade de memória, cognição e orientação espacial?
Enquanto essas questões permanecem em aberto, povos como os Himba ajudam a lembrar que o corpo humano responde ao ambiente de maneira muito mais profunda do que aparenta. E que, apesar de toda tecnologia, ainda sabemos muito pouco sobre como o cérebro percebe o mundo pela via invisível dos cheiros.
Afinal, se o olfato é um sentido tão antigo e tão conectado à emoção e à sobrevivência, será que a cidade moderna está nos fazendo desaprender algo essencial?


Os sentidos têm a propriedade de compensação sempre que perdemos ou atrofiamos um, outro pode ser acionado e melhorado. A vida moderna tem estimulado muito a visão.