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2 comentários 7 min de leitura

Classe média no Brasil está sendo apertada: inflação persistente, tabela do Imposto de Renda defasada e impostos no consumo drenam o salário, enquanto milionários têm 71% da renda isenta e pagam menos proporcionalmente

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 14/12/2025 às 11:59 Atualizado em 14/12/2025 às 12:00
A classe média no Brasil sofre com imposto de renda, tabela defasada e impostos sobre consumo enquanto a reforma tributária promete justiça fiscal.
A classe média no Brasil sofre com imposto de renda, tabela defasada e impostos sobre consumo enquanto a reforma tributária promete justiça fiscal.
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Com renda formada principalmente por salários tributados, a classe média no Brasil sente o orçamento encolher enquanto milionários concentram 71 por cento da renda isenta, pagam alíquota efetiva menor e veem a reforma tributária aprovada em 2023 e regulamentada em 2025 avançar lentamente no Congresso sob pressão política e resistência.

Entre o fim de 2023, quando a reforma tributária foi aprovada após três décadas de debates, e as etapas de regulamentação votadas na Câmara em julho de 2025, a classe média no Brasil viu a combinação de inflação persistente, salários pressionados e tabela do Imposto de Renda desatualizada aumentar a sensação de aperto no orçamento mensal.

Ao mesmo tempo, os dados do Imposto de Renda de 2024, referentes ao ano calendário de 2023, e estudos de Sindifisco, Ipea e Oxfam Brasil mostram que milionários seguem com 71 por cento da renda isenta e alíquota efetiva de 5,28 por cento, enquanto trabalhadores da chamada classe média alta chegam a 11,40 por cento, mais do que o dobro da carga proporcional dos muito ricos.

Renda tributável aperta o orçamento da classe média

Uma das explicações centrais para o desequilíbrio está na forma como a renda das famílias é composta. Enquanto as camadas de renda mais alta recebem boa parte dos ganhos em lucros, dividendos e valorização de patrimônio frequentemente isentos de imposto, a renda típica das famílias de classe média vem de salários, aposentadorias e prestação de serviços, quase sempre integralmente tributados.

Estudo do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal, com base nas declarações de Imposto de Renda de 2024, mostra que quem recebe acima de 240 salários mínimos por mês, cerca de 316 mil reais, tem 71 por cento da renda declarada como isenta.

Já trabalhadores que ganham entre 1 e 2 salários mínimos, de 1.320 a 2.640 reais, possuem isenção em apenas 10,7 por cento da renda.

O economista Sergio Gobetti, do Ipea, destaca que, nos últimos anos, programas de transferência de renda melhoraram a base da pirâmide, mas o topo cresceu ainda mais rápido em termos de concentração de riqueza.

Na avaliação dele, a classe média no Brasil acabou espremida entre a população mais pobre protegida por benefícios sociais e os muito ricos blindados por isenções e planejamentos tributários.

Tabela do Imposto de Renda defasada aumenta a carga efetiva

Outro fator que corrói silenciosamente o poder de compra é a defasagem da tabela do Imposto de Renda da Pessoa Física.

Segundo Dão Real Pereira dos Santos, presidente do Sindifisco, anos de reajustes insuficientes fizeram com que aumentos salariais ligados à inflação empurrassem contribuintes para faixas mais altas de tributação, sem ganho real de renda.

Na prática, quando o salário cresce apenas para repor inflação, mas as faixas do IR não acompanham, a base de cálculo aumenta e o contribuinte passa a pagar alíquotas maiores sobre uma renda que não ficou, de fato, mais folgada.

É o chamado efeito de arraste, que ajuda a explicar por que quem ganha a partir de 6 mil reais por mês paga proporcionalmente mais Imposto de Renda do que muitos milionários que concentram rendimentos isentos.

Esse quadro deve ter algum alívio a partir do próximo ano, com a ampliação da faixa de isenção para rendas na casa de 5 mil reais, projeto enviado pelo governo federal e aprovado pelo Congresso no fim de 2025.

Especialistas alertam, porém, que uma correção pontual não apaga o impacto acumulado de décadas de defasagem, nem resolve sozinha o problema da desigualdade tributária.

Mesma renda, impostos diferentes e o avanço da pejotização

A pressão sobre a classe média também se explica pela diferença de tratamento entre contribuintes com renda semelhante.

Gobetti lembra que, entre pessoas que recebem por volta de 10 mil reais mensais, há o trabalhador assalariado que paga alíquota efetiva em torno de 15 a 16 por cento e o pequeno empresário que retira o mesmo valor na forma de dividendos, com alíquota zero de Imposto de Renda sobre essa parcela.

Essa assimetria estimula a chamada pejotização, quando empresas substituem empregados com carteira assinada por prestadores de serviço contratados como pessoa jurídica, ainda que as exigências do dia a dia sejam parecidas com as de um vínculo formal.

A empresa reduz encargos trabalhistas e o profissional passa a pagar menos impostos, ao organizar a renda como lucro distribuído e não como salário.

Para a classe média no Brasil, isso cria um cenário em que quem não consegue migrar para estruturas de pessoa jurídica continua arcando com a tributação mais pesada, enquanto grupos com maior poder de negociação acessam modelos mais vantajosos.

O resultado é um sistema que premia a capacidade de reorganizar juridicamente a renda, e não apenas o quanto cada pessoa efetivamente ganha.

Peso dos impostos sobre consumo no dia a dia das famílias

Além da renda tributável e da tabela defasada, o desenho dos tributos sobre consumo amplia a sensação de aperto.

O advogado tributarista Marcus Vinícius Nunes Morais destaca que estudos da Receita Federal e de institutos de pesquisa mostram como famílias de baixa e média renda comprometem uma fatia muito maior do salário com impostos embutidos em produtos e serviços.

Grande parte dessa carga vem de impostos indiretos como ICMS, PIS e Cofins, cobrados em praticamente tudo o que se compra, de alimentos a energia, transporte e telefonia.

Já os mais ricos concentram a contribuição em tributos diretos sobre renda e patrimônio, que podem ser altos em valores absolutos, mas representam porcentagem menor da renda disponível.

Em levantamento apresentado por Morais, uma família que ganha até 1 salário mínimo atual, de 1.518 reais, enfrenta alíquota efetiva próxima de 50 por cento, quase toda ligada a impostos sobre consumo e contribuições sociais. De 1 a 5 salários mínimos, a carga média cai para 40 por cento.

De 5 a 10 salários, recua a 35 por cento, com maior peso de IR e contribuição previdenciária. Entre 10 e 20 salários mínimos, a carga gira em torno de 30 por cento; de 20 a 40 salários, cerca de 28 por cento.

Acima de 40 salários mínimos, algo em torno de 60.720 reais mensais, a alíquota efetiva desce para 26 por cento.

Na prática, isso significa que uma família com renda de até 1.518 reais pode pagar por volta de 750 reais em tributos, enquanto outra que recebe até 75.900 reais mensais desembolsa algo em torno de 19.700 reais, porém com impacto muito menor sobre o padrão de vida.

O sistema se torna regressivo justamente no trecho em que se encontra uma parte expressiva da classe média no Brasil, que consome grande parcela do que ganha e não consegue poupar ou investir com a mesma intensidade dos mais ricos.

Reforma tributária: o que já mudou e o que ainda falta

Depois de três décadas de discussão, a reforma tributária foi aprovada no fim de 2023.

Em julho de 2025, a Câmara concluiu a primeira etapa de regulamentação dos novos impostos sobre consumo de bens e serviços, mas as mudanças só devem entrar em plena vigência em 2033, o que prolonga por anos a espera por alívio concreto no bolso da classe média.

A segunda fase da reforma, focada na tributação da renda, ainda está em debate. Entre os pontos centrais estão a ampliação definitiva da faixa de isenção do IRPF, a taxação de lucros e dividendos hoje isentos e a criação de uma alíquota mínima para os mais ricos, de modo a reduzir as diferenças entre alíquotas efetivas de trabalhadores e milionários.

Viviana Santiago, diretora executiva da Oxfam Brasil, ressalta que, apesar de representar avanço, a reforma ainda mantém o Brasil como um país que tributa mais o consumo do que a renda e o patrimônio, o que penaliza especialmente os mais pobres e a classe média que gasta quase tudo com despesas básicas.

A avaliação de especialistas é que será necessário um novo ciclo de mudanças para que a tributação da riqueza, do patrimônio, dos lucros e dos dividendos se aproxime de padrões mais progressivos.

Há ainda o obstáculo político. O governo pode enfrentar forte resistência para aprovar medidas mais duras sobre altos rendimentos em 2026, ano de eleições, o que aumenta o risco de que uma parte das promessas de justiça fiscal fique para um futuro indefinido.

Classe média no Brasil entre urgência e promessas futuras

Enquanto o debate avança em Brasília, a rotina não espera. A classe média no Brasil convive com supermercado mais caro, serviços pressionados pela inflação, aluguel em alta e um contracheque que não acompanha o aumento da carga efetiva de impostos, seja pela tabela do IR, seja pelos tributos embutidos em praticamente tudo o que se consome.

Na base da pirâmide, programas sociais e isenções específicas oferecem algum colchão; no topo, ganhos de capital, isenções e estruturas sofisticadas de planejamento tributário preservam boa parte da renda e do patrimônio.

No meio desse caminho, famílias de classe média veem o padrão de vida ameaçado, reduzem consumo, apertam o orçamento e aguardam que a reforma tributária saia do papel com foco real em justiça fiscal, transparência e equilíbrio entre renda do trabalho e renda do capital.

E você, acredita que as mudanças em discussão na reforma tributária vão, de fato, aliviar o peso dos impostos sobre a classe média no Brasil ou teme que a conta continue sobrando justamente para quem está no meio da pirâmide?

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Adriano José da Silva
Adriano José da Silva
15/12/2025 02:36

O jeito é todos entrar na justiça pela correção da tabela do imposto de renda que está a anos e anos defasada. Isso vale também para a tabela do simples nacional. O comércio ta a muito tempo sendo esmagado pelo simples nacional.

Sebastião
Sebastião
14/12/2025 21:00

Não acredito em nada que venha destes politicos independentes de partido , pois o justo seria taxar lucros e dividendo sim , e não salarios , e é primordial corrigir esta tabela defasada do I.R , se cumprissem a lei , não necessitaríamos desta papagaiada na isenção dos 5.000 como favor a classe menos favorecida , teríamos justiças nas cobrancas dos tributos.

Fonte
Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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