Em poucas décadas, o país transformou escassez em estratégia, integrou Estado e indústria e agora testa carros voadores enquanto disputa mercados com Estados Unidos e Brasil
Quando Brasília começava a ganhar forma, nos anos 1960, o Brasil já contabilizava cerca de um milhão de carros circulando por suas avenidas planejadas. Na mesma época, do outro lado do mundo, a China tinha apenas um automóvel disponível para uso oficial do Partido Comunista durante o governo de Mao Zedong. Era outra realidade. O país enfrentava fome em larga escala, e a bicicleta estatal “Pombo-Voador” era símbolo máximo de status. Para comprá-la, era preciso autorização do chefe na fábrica, aprovação do governo e anos de espera.
A transformação começou lentamente nos anos 1990, com a abertura econômica. Em 1997, a General Motors assinou acordo para produzir veículos na China, em parceria com o governo, que ficaria com metade da operação. Cada detalhe era negociado, do modelo ao acabamento. A fábrica foi erguida em ritmo acelerado. Ali surgiram os primeiros modelos produzidos em grande escala, ainda caros para a maioria da população. Mas, ao mesmo tempo, o país começava a formar engenheiros, projetistas e gestores industriais. A China absorvia tecnologia como uma esponja.
A decisão que mudaria o rumo da indústria veio nos anos 2000. Em 2003, o governo ampliou o acesso da população ao automóvel. Pouco depois, fez uma escolha estratégica: priorizar motores elétricos em vez de combustão interna. A justificativa era clara. O país não possui petróleo suficiente para sustentar sua própria frota. Investir em eletrificação tornou-se questão de soberania energética.
-
Toyota põe fim a era da gasolina: novo CEO fala em cenário de ‘vida ou morte’ após anos apostando em motor à combustão e prepara 10 novos elétricos, 30 lançamentos até 2030 e um crescimento de 60 vezes nas vendas
-
Renault Kardian 2027: com motor 1.0 TCe Flex, câmbio manual de seis marchas, até 116 cv e 22,4 kgfm, SUV ficará mais leve e econômico para custar menos que Fiat Pulse, VW Tera e Citroën Basalt no Programa Carro Sustentável
-
Manter o pé apoiado de leve no pedal do freio enquanto dirige parece inofensivo, mas mecânicos alertam: esse hábito gera calor constante, desgasta as pastilhas rápido demais e pode empenar os discos, deixando a frenagem cara e perigosa
-
O YouTuber Mark McCann comprou um Bugatti Veyron por quase US$ 1,2 milhão, mas descobriu que a caixa de câmbio do supercarro está tão danificada que nem a própria Bugatti aceita consertar, e o conserto pode custar uma fortuna
Infraestrutura gigantesca e liderança em baterias
A aposta não ficou apenas no discurso. A China construiu uma infraestrutura robusta para sustentar o avanço dos veículos elétricos. Hoje, possui cerca de 3,5 milhões de carregadores públicos. Somando os residenciais, o número ultrapassa 11 milhões. Para comparação, os Estados Unidos contam com aproximadamente 196 mil pontos, e o Brasil, cerca de 12 mil. Paralelamente, o país expandiu usinas hidrelétricas e integrou a cadeia produtiva, da extração de metais à fabricação de chips, baterias e motores.
Esse modelo integrado reduziu custos e acelerou inovação. Executivos do setor afirmam que montadoras chinesas registram cerca de 45 patentes por dia. No último ano, dos 30 milhões de veículos vendidos no país, mais da metade foi eletrificada. Atualmente, a China produz três vezes mais carros que os Estados Unidos.
Autônomos nas ruas e carros voadores no horizonte
Em cidades como Wuhan, 600 táxis autônomos modernos foram liberados recentemente como parte de projetos de revitalização urbana após a pandemia. O custo estimado de produção gira em torno de 27 mil dólares por unidade, valor significativamente inferior aos cerca de 200 mil dólares de modelos similares nos Estados Unidos.
Mas a ambição não se limita ao asfalto. Empresas chinesas já desenvolvem carros voadores, alguns com hélices dobráveis integradas à estrutura do veículo. Em Guangzhou, uma companhia recebeu licença oficial para operação experimental. O plano divulgado prevê que, até 2030, 100 mil unidades estejam operando no país. A projeção de longo prazo aponta expansão até 2050.
Tarifas, terras raras e a disputa global
O avanço chinês provocou reação internacional. Durante o primeiro mandato de Donald Trump, tarifas de até 250% foram impostas sobre carros chineses. Posteriormente, a escalada tarifária atingiu 145% sobre produtos importados. Em resposta, a China restringiu exportações de neodímio, metal essencial para ímãs utilizados em motores elétricos.
A China detém a maior reserva mundial e domina a tecnologia de processamento dessas chamadas terras raras. Sem esses ímãs, motores elétricos não funcionam. A medida pressionou montadoras estrangeiras e ampliou a tensão comercial.
Com o mercado americano restrito, fabricantes chineses intensificam presença em outros destinos, incluindo o Brasil, considerado estratégico para expansão global. Enquanto tarifas elevam barreiras, a estratégia chinesa combina planejamento estatal, inovação tecnológica e escala industrial.
Do único carro oficial à meta de 100 mil veículos voando em cinco anos, a trajetória revela uma transformação profunda. A pergunta que permanece é: até onde essa estratégia levará a China na corrida pela mobilidade do futuro?


-
-
4 pessoas reagiram a isso.